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quinta-feira, 30 de abril de 2015

A direita ataca! E a esquerda...?

imagem: divulgação APP-Sindicato

Há uma enorme pressão sobre os governos para exercerem ajustes fiscais em cima do fundo público e da seguridade social. É a velha história que já deveríamos estar escaldados em que se procura convencer da inevitabilidade de políticas de enxugamento.

Podemos dizer assim que há um tensionamento impulsionado pelo capital financeiro para se realizarem medidas que reduzam a parcela da arrecadação que é destinada para prover direitos e outros benefícios ao povo.

O lastimável episódio ocorrido no Paraná, em que o governo tucano de Beto Richa no dia 29/04/2015 reprimiu vergonhosa e violentamente os professores que protestavam contra medidas que pretendem sugar a aposentadoria dos servidores, é mais uma faceta dessa nebulosa conjuntura pela qual passamos.

Em Brasília, folheia-se uma agenda conservadora do Congresso que mistura pautas que visam agradar de forma moralista os setores médios conservadores (como a redução da maioridade penal) com outras que atacam diretamente trabalhadores e concedem benesses aos patrões - caso da famigerada PL 4330 da terceirização. Aqui pelas bandas do Triângulo Mineiro também há proposições relativas a mudanças na aposentadoria de servidores.

Quando ocorrem as manifestações de trabalhadores do funcionalismo público contra essa situação oscilam-se duas posições:
1) Quando o governo é de direita: há no mais da vezes uma postura de desqualificação das manifestações e não raro de uso de violência física em maior ou menor grau. Rapidamente acusa-se esses governos de seu caráter "fascista". O que não é falso, a não ser pela falta de aprofundamento da análise, inclusive na utilização generalizada do conceito de "fascista" que se aplica na prática a grupos específicos. Na verdade, a grande tática desse momento da direita que está no poder (político e econômico) em diferentes níveis é o desgaste do Estado na sua dimensão provedora de direitos sociais. Exemplo disso é o papel que têm exercido os monopólios e oligopólios midiáticos ou as movimentações de setores políticos financiados pelo grande capital que concentram esforços em especial no poder legislativo (e também no judiciário).
2) Quando o governo é da centro-esquerda institucionalizante: "Isso é uma manobra da "direita"" - seria a fala mais comum. Mas se desconsidera que na maior parte das vezes, mesmo que realmente ocorra um impulsionamento de mobilização por parte da "direita realmente existente" em muitos casos a maior parte das pautas são de teor progressista (por mais direitos e para garantir os que já são legalmente adquiridos, mas não cumpridos).

Resumindo: É fato! Realmente há uma ofensiva orquestrada pela direita. Mas por outro lado, há uma timidez e receios acentuados combinados com uma falta de capacidade da esquerda em articular lutas nos âmbito da política institucional e da mobilização popular e sair do cerco que se permitiu  encerrar nesses últimos anos. As pessoas do país estão indo para a rua e no caso de professores e setores que historicamente se colocam próximos ao povo, saem em busca de melhorias nas suas condições objetivas de vida e de trabalho. A parcela da esquerda que se enclausurou no pragmatismo administrativo parece não compreender ou querer ocultar para si própria isso.

São novos tempos com novos enfrentamentos. Precisamos nos refazer com eles.

Contudo, ainda considero que a única saída para alterar essa correlação de forças seria refundar  a institucionalidade política do país. Isso só se faria com ampla participação popular e extinguindo privilégios políticos que hoje são destinados às elites e seus lacaios que tolhem a democracia. Deste modo, nada mais coerente para este momento empunharmos a bandeira de uma Reforma Política realizada através de uma Constituinte Exclusiva e Soberana.

Diego Marcos Silva Leão - Professor de História na Rede Municipal de Uberlândia, mestrando em História Social pelo PPGHI-UFU, atua na Pastoral Operária e é militante do Levante Popular da Juventude e da Consulta Popular.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Por que voto Dilma? - Diálogo com companheiros de trabalho: professores da educação básica na rede pública


Conversando com meus companheiros de trabalho, vejo por vezes algumas hesitações ao voto em Dilma e mesmo ouço alguns colegas que expressam seu voto em Aécio. Neste sentido, longe de querer ser detentor da verdade gostaria de colocar alguns argumentos que possam definir minha escolha em votar para que a presidenta Dilma continue a governar nosso país por mais quatro anos.

"Eu queria trabalhar na propaganda da TV dos governos Aécio/Anastasia"

O PSDB, com Aécio Neves e Anastasia, governou o estado de Minas Gerais por doze anos. Foram estes anos um período em que se manifesta na educação pública mineira contradições em que forma e conteúdo não se casam. Por um lado, a propaganda institucional do governo afirma que Minas Gerais tem a melhor educação do país, De outro, a realidade de escolas estaduais sucateadas, funcionando muitas delas em condições extremamente precárias. 

Recentemente, na cidade de Uberlândia alunos do programa "Reinventando o Ensino Médio" denunciavam que a despeito do aumento da carga horária chegava a faltar merenda nas escolas. Em outro estabelecimento de ensino também na cidade o prédio escolar se encontrava em situação tão deplorável que chegava a correr risco das paredes ruírem em certas áreas.

Mas de onde vêm essa distância entre propaganda e realidade? Um dos pontos é porque o governo de Minas Gerais divulga apenas os indicadores da educação que lhe são favoráveis como o IDEB. Esses indicadores que se dão diagnósticos importantes para educação básica, por outro lado são mais quantitativos do que realmente qualitativos, atendendo mais a exigências de parâmetros estabelecidos por organismos financeiros internacionais como o Banco Mundial, do que propriamente manifestando uma proposição de interferir para efetiva transformação da escola pública. No caso de Minas qual é a grande questão em relação ao IDEB? O IDEB concilia dois bancos de dados: a aprovação anual de alunos e  o resultado da Prova Brasil. E é  aí que os estados governos pelos tucanos, como MG e SP, se safam espertamente, pois neles se instituiu a promoção automática do aluno. Em suma: como todos os alunos são aprovados na rede estadual mineira, estão os indicadores vão lá em cima, e por isso que a educação que se vê na TV é completamente diferente daquela que se vê no cotidiano escolar.

Minas Gerais não paga ainda aos professores das escolas estaduais sequer o piso salarial nacional instituído por lei, mascarando-o sob a forma de remuneração total denominada subsídio. A lei nacional é clara: o piso salarial deve incindir sobre a remuneração básica do servidor.

Se tudo isso não bastasse o governo de Minas Gerais, conforme denúncia do Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Estado Minas Gerais - Sind-UTE, deixou de investir 8 bilhões da educação desde 2003. Esse dinheiro representa o mínimo constitucional de 25% dos orçamentos estaduais que devem ser destinados para a educação. O Sind-UTE ao questionar onde Aécio e Anastasia destinaram essas verbas teve como resposta apenas ações judiciais que tentavam impedir a veiculação da campanha publicitária que fazia essa cobrança. (Para quem tiver interesse clique aqui para ver a cartilha do sindicato).

Para completar Aécio e Anastasia que pregavam a eficiência do chamado "Choque de Gestão" vão deixar um rombo de nada mais, nada menos do que 80 bilhões de reais de dívida pública para o seu sucessor no governo estadual que terá assim na verdade uma bomba relógio jogada nas mãos para governar (clique aqui para ver matéria do Jornal Brasil de Fato).

Não gostaria de entrar nos apelos relativos a corrupção, que Aécio têm evocado nos debates, mas já que o candidato tem insistido em tocar nesse ponto, poderíamos lembrar ainda das evidências de suas ligações com a construção de aeroportos construídos com dinheiro público em terras de sua família. Ou mesmo, ainda entrando nesses pontos pedir explicações porque as suas viagens bancadas também com dinheiro público se destinam em sua maioria para o Rio de Janeiro e São Paulo e não para Minas, onde foi eleito. Em suma, não vejo em Aécio sequer alguém com seriedade para governar um país...

Relembrando FHC: Arrocho salarial e menos investimentos para a educação



Muitos colegas costumam apontar, de forma muito justa, da desvalorização salarial que tiveram no decorrer dos anos. Todavia, cabe aqui algumas lembranças. Primeiro, ao nos atentarmos que boa parte das perdas salariais dos professores da rede pública se dá principalmente com o enxugamento dos investimentos do Estado brasileiro nas áreas sociais que se efetivou sobretudo com os governos 
do PSDB na presidência do Brasil entre 1995 e 2002.

É importante lembrarmos que FHC barrou em 1996 o piso salarial nacional dos professores e também o investimento de 7% do PIB para a educação em 2001 quando se tentava então aprovar o Plano Nacional para a Educação - PNE. (para entender mais sobre o piso nacional salarial vale a pena olhar esta entrevista com Heleno Araújo)

FHC para completar também desclassificou a atividade docente ao sugerir que os professores nada mais seriam do que "coitados que não conseguiram se tornar pesquisadores". No mínimo isso não parece ser a postura adequada a um governante que preocupa verdadeiramente com a consolidação de uma educação de Qualidade (com Q maiúsculo) para o Brasil, nem de respeito aos profissionais  da educação. (para recordar leia aqui).

Governos Lula e Dilma: conquistas importantes, mas é preciso avançar



Nos governos Lula e Dilma, a partir de 2002, na educação tivemos importantes avanços na educação. É importante considerar que, sobretudo, esses avanços se deram como conquistas das lutas das organizações ligadas aos profissionais da educação no decorrer destes últimos 20 anos e isso se dando a despeito de termos um Congresso Nacional bastante conservador em sua maioria e avesso a muitas medidas ligadas a ampliação de benefícios à população.

Dentre essas conquistas podemos destacar a instituição da lei que garante o pagamento do piso salarial nacional aos professores, que visa delimitar o mínimo que os professores devem receber ao trabalharem em qualquer instância, seja federal, estadual ou municipal. De R$950,00 em 2008, quando foi aprovado, o valor do piso já subiu para R$1697,00. O piso salarial é reajustado anualmente de acordo com indicadores do Fundeb. A lei assegura ainda que apenas 2/3 da carga horária se realize dentro de sala de aula, e as demais horas sejam destinadas para as atividades extra-classe dos professores. (para ver mais sobre a lei do piso, clique aqui, e mais sobre a evolução do piso até 2014 clique aqui)

Evidentemente, o piso salarial nacional está muito aquém inclusiva das remunerações de trabalhadores com ensino superior de outras áreas, contudo, a partir dele começa-se a se instaurar mesmo que lentamente uma recomposição das perdas salariais acumuladas nas décadas de 1980 e de 1990 para os professores da educação básica.

Outro ponto importante, é que finalmente conseguimos aprovar em 2014 o Plano Nacional de Educação - PNE, após um intenso debate no Congresso que começou a tramitar ali em 2011. O PNE traça as metas que os entes da união devem cumprir para educação nos próximos 10 anos. Dentre os principais pontos que trata o PNE, trata-se do investimento público para a educação, que irá saltar os hoje 5,4% do PIB para 10% do PIB em 2021.

Ainda no que se refere aos investimento na educação cabe destacar o incremento dos royalties do petróleo que serão divididos na fatia de 75% para a educação e 25% para a saúde que estão estimados em até R$600 bilhões. (leia aqui)

Esses poucos dados, que fazem parte de um universo maior, demonstram que, apesar de ainda não termos "a educação que queremos", tivemos ganhos importantes nestes últimos anos. E que foram possíveis a partir de um esforço do governo federal em promover melhorias reais para a educação pública, mesmo que estejamos ainda num quadro de crise econômica mundial o que requer uma série de cuidados para não ser tragado em meio a esse turbilhão.

Cabe salientar que essas conquistas não devem expressar um apoio acrítico à reeleição da presidenta Dilma Roussef, até mesmo por se constituir enquanto uma frente de governo constituída tanto por setores populares, como por setores ligados a frações das elites econômicas brasileiras. Isso demonstra que devemos aprender a disputar o governo e tensioná-lo a tomar medidas que beneficiem a população de maneira geral, o que inclui nós professores e a melhoria da escola pública.

Devem constituir-se como parte de um arsenal que contribua para a luta dos professores e demais profissionais da educação em torno de um projeto democrático e popular para a educação pública. Somente unidos em tornos em conjunto de pautas comuns e que reverberem os desejos de nossa categoria é que poderemos avançar na construção de uma educação básica, pública, universalizada e gratuita.

Além disso, é preciso que nós professores nos unamos às organizações populares que têm defendido a necessidade de uma reforma política profunda, que sirva para mexer com a atual configuração do Congresso que hoje beneficia o poder econômico, através do financiamento privado de empresas às campanhas eleitorais e outros mecanismos que tornam a disputa política desigual. Entidades de todo o Brasil realizaram um plebiscito popular durante a Semana da Pátria e coletaram quase 8 milhões de votos que clamam por essa mudança e que pedem um plebiscito oficial que debata a necessidade de uma Assembleia Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político. (para saber mais sobre a campanha da Constituinte clique aqui)

Nada disso é possível com Aécio que, como demonstram a experiência do PSDB no governo de Minas Gerais e na presidência da república, certamente tomará medidas impopulares e que podem se configurar enquanto retrocessos para o nosso país e em especial para as áreas sociais.

Neste sentido, cabe mantermos nossa coerência se nos manifestamos em defesa da educação pública, e votar em Dilma não tendo o que vacilar neste sentido. Pois, só assim, teremos a possibilidade de através da nossa luta conseguirmos efetivar mais mudanças e mais futuros para a educação.

#Dilma13 #MudaMais13 #MaisMudançasEMaisFuturos!

Diego Marcos Silva Leão - Professor de História na Rede Municipal de Ensino de Uberlândia, atua na Pastoral Operária, é militante do Levante Popular da Juventude e da Consulta Popular.

domingo, 3 de outubro de 2010

Vivendo as utopias contra as distopias nos trópicos e para além deles

Créditos pela imagem: pablodf


Quando os discursos se desencontrarem mais uma vez, talvez não haja voz. O silêncio talvez diga algo. Muito se gritou, muito se disse, pouco se fez até ali.
Nesse momento se saturará... o grito do oprimido, e daqueles que diziam ao lado dele estar. O grito do opressor, então extirpado de sua condição.
Nesse momento, política não se fará mais em caixinhas, depositórios de papeizinhos, ou em calculadoras sofisticadas. Se fará no dia-a-dia em cada ato público, no trabalho, na mercearia e na vizinhança.
Nesse momento, todos os dias serão eleitorais. Não daqueles que decidiram por você por um tempo indeterminado. Mas serão vislumbrados como eleições perenes e continuadas de sua vida. Você não elegerá indivíduos, elegerá o seu direito de ser, de agir e ao mesmo tempo se solidarizará com os seus. Será humano. Será pleno. Será vivo. Não será mais moribundo. Não mais se reprimirá por visualizar realidades utópicas. A distopia não será mais um tubarão pronto a emergir em algum trópico. Nem acima, nem abaixo ou na linha do país sulamericano se permitirá o autoritarismo, ou a doutrinação do outro.
Se reconhecerá que humanos somos. Que sociedade somos. Que dos outros precisamos. E para nos prolongarmos é preciso irmos além de um pensamento sobre nossa própria vida. Não seremos mais mesquinhos. Não seremos mais egoístas. Não seremos mais tolos. Ou pensaremos que revolucionar é coisa de babacas.
Não precisaremos também que pensem por nós. Não precisaremos que façam por nós. Juntos faremos.
Eu olharei e você olhará e verá que podemos todos viver bem e que todos os luxos são falsidades imagéticas de um lugar que não é nosso.
Nesse dia eu não votarei em Dilmas, em Motosserras, em Marinas ou Agripinas. Nem em Plínios, Salgados, Doces ou Sampaios. Muito menos em Pimentas, em Ruis, Barbosas, Costas ou Cominhos. Também não votarei em Zé Marias ou em Marias Josés. E repudiarei vigorosamente os fascistas recalcados sob a égide musicada de Fidelix e mais ainda de Eimmaéis.
Nessa bandeira estrelada, sob o azul, o verde e o amarelo-ouro verte e verterá por tanto tempo ainda muito sangue. Talvez tenha chegado a hora de tirar as suas cores. Talvez tenha chegado a hora de aboli-la.
Talvez seja a hora de estendê-la nua e crua destituída de toda sua simbologia.
Os garotos e garotas mortos, física ou mentalmente, de todos os dias ressuscitarão revelarão um olhar iluminado, depois de sempre se sentirem cegos por uma venda que mal sabiam que os privava de visualizar o que estava bem às suas frentes.
Eu sei, pois comigo sempre foi assim. Sempre tentarão me privar disso. Tentaram me castrar os sonhos desde que eu nasci. Firme e forte eu fingia ter acreditado que o que me diziam era verdade. Mas eu era só desconfiança. Desbravei o mundo, me perdi por um milhão de tantas vezes. Eu mesmo me confundia e até este momento estou a me encontrar.
Só não permito que me privem de tentar.
Quando isso fizerem talvez seja incapacitado até de sentir. Esquartejado sentimentalmente então não seria mais que simples coisa, pois o sentir e dele experimentar são um amálgama indissociável.
Mas quanto ao silêncio que me referia. Você deve estar a matutar: ele não diz nada, como se converteria no próprio ato de transformar?
É que aqui não falo de voz. Mas de atitude contemplativa. Os gritos de antes só eram necessários porque nos digladiávamos. Preferíamos socar o outro, por mais próximo que fosse, antes de ouvi-lo.
Paradoxalmente, nesse silêncio haverá sim voz. O que não haverá são os surdos funcionais.

Uberlândia, 03/10/2010. Quase às 23:00 h. No mesmo dia que mais uma vez se destacou alguém pra decidir a sua vida e seu direito de ser. Poucos dias depois que quando se pensava que não seriam mais tão audaciosos, tentaram perpetrar um golpe militar num país chamado Equador. Há alguns meses desde quando começaram a expulsar ciganos do país que dizem ser grande gerador da erudição e sabedoria para o mundo moderno. Há alguns anos desde que comecei a me despojar da crença de que as coisas eram sólidas e impermeáveis. Um velho barbudo, que não era Santa Claus, me disse que elas sempre se desmancham no ar...


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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Maldição do trabalho.

Créditos pela imagem: Lucas Janin

Esse maldito trabalho
Que não é o que quero.
Que não é o que espero.

Esse maldito trabalho.
Que não parece ter sentido.
Que me faz acordar quando não gostaria.
Que me faz escravo do ponteiro mais rápido do relógio.

Esse maldito trabalho.
Que me faz tomar dois ônibus ou mais.
Que me angustia só de pensar.
Que amanhã será outro dia.

Esse maldito trabalho.
Que não tenho mais vontade alguma
De vir e sorrir para quem não desejo.
Ou de fazer o que eles dizem que deveria fazer.

Esse maldito trabalho.
Que é o supra-sumo do tédio.
Em que me agonizo por me prostituir
Vendendo cascas de simpatia que encobrem o fingimento.
O que sei é que as meretrizes muito dignas que são
Jamais venderiam seus sentimentos
Talvez elas em algum momento até os entreguem a alguém.
Talvez até mesmo para um desses seus clientes
Mas só os prazeres que propiciam é que estiveram em algum momento à venda.
Suas emoções sempre bem guardadas são oferecidas apenas aos merecedores.
De forma gratuita e quem sabe até incondicional.

Esse maldito trabalho.
Que me faz perder a beleza noturna.
Que me regula e me desregula.
Que tripudia sobre o que quero ser.
Que me torna minha instabilidade tanto mais freqüente.
Que me dilacera sutil e lentamente
com navalhas tão finas e pequeninas
que nunca fui capaz de perceber.

Cortou meus pés, para que não caminhe por vontade própria.
Meus calcanhares para que não me equilibre.
Meus joelhos e cotovelos pelo simples prazer de me desarticular.
Fragmentou depois em mil pedacinhos meu estômago...
e se não bastasse liquidificou os minúsculos pedaços de entranhas.
E digeriu o que eu usava para digerir.

E o meu cérebro se navalhado não foi
Espetado sem piedade se submeteu a torturas.
Motivo pelo qual estou eu assim zumbificado
E em meus lábios perpassa viscosamente o líquido sabor ferrugem
Minha língua impregnada de tal horror ficará
Por dias, meses, anos e além deles.
Impiedosamente!
Mesmo ao perceber minha frágil pele que estará carcomida.

E tudo isso foi tão pouco perto do mais doloroso
Que foi quando vi meu coração em fatias
Tão finas que chegavam a ter uma transparência avermelhada
Era tão bela a perfeição de seu corte que talvez até me esquecesse
Que em poucos dias estaria pútrido ali naquele prato
Pois sequer o comeriam
Apenas o deixariam apodrecer
E eu com olhos chorosos e impotentes de ação
Apenas via um dilúvio frente a mim
Com aquela água com gosto de soro caseiro
E que não era real para todos como todo real é e não é

E aqueles malditos desse maldito trabalho sorriam
Com as faces tão bem forjadas por sua rotina imbecil
Que mal eram capazes de compreender sua infelicidade
Nos escritórios fechados em seus cubículos pareciam bovinos
se enganando ao imaginarem que seriam racionais.
Pastavam o que lhes era oferecido sem questionamento
Enquanto se excitavam em espasmos orgásticos do capital
Que sequer lhes era seu de fato
Recebiam migalhas pouco maiores que as migalhas da maioria
E se satisfaziam com essa miséria um pouco melhor
Que apenas servia para empobrecer seu semelhante
O mesmo que ajudava com uns trapos no natal
Com os restos do peru de sua ceia farta até do que não comesse
E que fazia mea-culpa perante a hipocrisia de seus moralismos cristãos.

E eu nesse maldito trabalho
Tudo observava já muito desanimado
Esperando recompor minhas partes que foram tomadas.
E os malditos desse maldito trabalho
Tão cegos e estúpidos que são
Gargalhavam... apenas gargalhavam.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Nossa relação com o passado...

Uma cidade sem passado
Assisti neste final de semana, por acaso, um filme que me chamou bastante a atenção. Chama-se: “Uma cidade sem passado” [mais detalhes aqui]. É uma produção alemã do início dos anos 90 e que é um misto de comédia, drama e documentário.
Vou resumir a historinha dele...
Uma garota de uma pequena cidade da Alemanha Ocidental é convidada a participar de um concurso de redação. Dentre os dois temas propostos ela decide pelo seguinte: “Minha cidade durante o III Reich”. O que ela queria com isso? Provar que a igreja se manteve íntegra durante o nazismo.
Porém já nos seus primeiros esforços para fazer a pesquisa, ela verifica que não é bem assim e que as pessoas não queriam que ela ficasse revirando coisas daquele período.
O que ocorria era que muita gente esteve envolvida com o regime e essas pessoas faziam questão de não serem mais associadas àquilo. Além de tudo havia a construção de uma imagem contraditória da cidade como um foco de resistência.
Era um passado convenientemente esquecível, não só para aqueles que se envergonhavam de suas ações, mas também para seus amigos, suas famílias e todas as pessoas ligadas a ele de alguma forma... Era enfim uma ferida não só de uns e outros, mas de um povo. E remexê-la não era de nenhum modo indolor.
Agora imagine só quantas coisas permanecem ocultas e sequer sabemos? Elas não entraram nos livros de história, não são revividas nas comemorações cívicas, não fazem parte da memória popular.
Talvez por aí, dentre outras coisas, tenha se cristalizado essa concepção de que somos seres passivos e de que não podemos mudar a realidade.
Fazer-nos acreditar que é assim. É o objetivo daqueles para quem é cômoda a atual situação! Brecht, em seus poemas já ressaltava isso...
Creio, no entanto, que esse é o principal compromisso da história hoje em dia: enxergar as contradições do passado, mesmo quando nos obrigarem a usar lentes escuras e embaçadas. Mas há de se convir que quem fecha os olhos por vontade própria, sequer enxergará o óbvio, mesmo que esteja a poucos centímetros de si...

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Duas-Caras .

Lembro-me do dia que ganhei uma revista de quadrinhos que me deixou com bastante medo. Era uma edição de Batman Anual da Editora Abril. Havia três histórias, se não me engaduas-caras_msn1no, e confesso que pela idade (eu tinha uns dez anos) eu não entendi muito bem todas. Principalmente uma que falava sobre o Morcego na Rússia. Àquela época eu não tinha uma ideia do que seria aquela tal URSS que recentemente havia deixado de ser (pelo menos se dizia) um Estado comunista, aliás, é bem capaz que sequer eu soubesse o que era comunismo.

Uma delas, no entanto, havia me deixado profundamente aterrorizado durante muitas de minhas noites. Mais até do que uma capa de uma revista do Fantasma que tinha duas caveiras com diamantes no lugar onde um vivo teria os olhos.

Mas voltando ao que me propus a falar aqui, era aquela uma história que contava a origem de Duas-Caras. Este que figura no rol dos principais inimigos de Batman.

Ao ler aquelas páginas senti medos diferentes. A primeira foi ao ver a face de Harvey Dent (o promotor público que se tornaria o vilão) ser deformada por ácido.

Harvey no decorrer da história ainda não era Duas-Caras. Isso se daria quando finalmente assumisse a outra personalidade oculta dentro de si mesmo.

Quando cheguei ao ponto onde isso ocorria me senti fascinado. Não sei se entendia muito bem qual era a daquele personagem que deixava exposto da forma mais evidente o possível o contraste entre seu lado bom e seu lado mal. Mas reafirmo que achava admirável àquilo.

Hoje, quando aqui me recordo, do alto da confusão de minhas lembranças tenho um parecer que ele lidava com isso de um modo também contraditório para a luta que vivia em seu interior. Pois se para muitos, seu distúrbio poderia ser caracterizado como uma constante violência psicológica para consigo mesmo, por outro lado, ele se utilizava de uma resolução bem objetiva para esse conflito: a própria sorte.

Era lançando ao ar a moeda de duas caras com um dos lados riscados, único presente dado pelo pai, alcoólatra e violento, que decidia a vontade de qual dos seus “eus” que deveria prevalecer. Sei que não decidimos o que fazer em nossas vidas necessariamente deste modo, mas por outro lado, acho que constantemente somos obrigados a reprimir uma boa parte de nossos desejos.

E isso se revela, por exemplo, quando nos sentimos incompreendidos por todos. Afinal, num mundo onde as normas, costumes e instituições definem o que podemos ser, não é incomum se sentir desamparado por nunca se poder ser o que de fato se é.

Mas voltando ao Duas-Caras, creio ainda que ele é ainda um exagero proposital do que seria o maniqueísmo para que ao mesmo tempo este seja negado numa análise mais aprofundada.

Como ele também não somos de todo bons ou maus. Acho que nossos sentimentos não se reduzem a essa perspectiva simplificada. Até porque o que tomamos como “bem” ou “mal” nada mais é que definições que foram se articulando a partir de conceituações dadas por pessoas tão humanas e imperfeitas como qualquer um de nós. E obviamente, se nos lançarmos a uma pesquisa sobre tais termos veremos que eles constantemente foram se ajustando em situações específicas, de acordo com interesses daqueles que estavam no comando de governos, religiões ou em acordo com as necessidades das diversas sociedades.

Não nego que existem atitudes consideradas “boas” ou “más”. Porém pergunto: como assim foram definidas?

Acredito que em alguns casos como necessidade da própria espécie humana, como por exemplo, a rejeição ao homicídio dentro da vida civil. Em outros, devido a identificações culturais, tais como algumas das restrições religiosas. Porém, o tipo mais questionável e muitas vezes perverso é aquele se dá por meio político e / ou ideológico e que serve como instrumento de consolidação do poder.

Isso se vê na atribuição de imagens maléficas para aqueles que manifestam algum tipo de objeção divergente. Cito neste caso, a construção do árabe como inimigo da civilização ocidental, o que é de uma arbitrariedade estúpida. Quem disse que nossa forma de compreender o que é civilização é ideal a todo o mundo? Por sua vez, se os países “civilizadores” tivessem um respeito maior pela diversidade cultural, além de não tentarem garantir a qualquer custo sua lucratividade no Oriente, o mundo não seria um lugar de mais paz?

Freud supunha que todos temos algo de perverso. Porém, não é preciso pensar muito para verificarmos que se manifestássemos essa perversidade a todo instante a vida em sociedade seria impossível. Já pensou se não resistíssemos a nossas pulsões sexuais e a saciássemos quando bem nos conviesse? Ou ainda, se sempre agredíssemos alguém quando sentimos raiva?

Enfim, se existe, prefiro pensar que a bondade resida nestes termos: a capacidade de melhor nos relacionarmos e nos solidarizarmos com os outros e na consequente compreensão de que somos integrantes de uma coletividade. Coisas que são bem difíceis numa sociedade tão individualista e que as pessoas mal compreendem a si próprias. Além do que, se assim ficamos, nos afundamos ainda mais nessa contradição e estranhamento de nossos “eus” e com o que definem como “mau” e “bom”. Sem nunca nos atentarmos que tudo isso nos compõe e nenhuma dessas facetas se cliva ou se exclui.

Talvez ter esse entendimento sirva para que não nos tornemos Duas-Caras enrustidos...

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segunda-feira, 13 de abril de 2009

O Planeta Arret .

florestafogo

Créditos pela Imagem: ElissaMeyers

Era uma vez um planetinha azul chamado Arret.

Arret era o único ponto do Sistema Ralos que se podia ter certeza que existia alguma forma de vida. Era ainda um lugar cheio de riquezas naturais e seus nativos podiam tirar de seu solo e suas águas tudo o que necessitavam para viver.

O problema é que retiravam o que bem entendiam e não se preocupavam se esses recursos poderiam se esgotar um dia. Os arretáqueos ainda viviam em guerra, pois o planeta era divido por comunidades e, por sua vez, cada uma destas se localizava em territórios distintos, o que fazia que nem todos tivessem o que necessitavam para vida individual e em sociedade.

Era evidente o contraste entre as comunidades do Norte e do Sul. As do Norte eram geralmente muito pobres e contrastavam com a riqueza das sulinas. E isso se agravava, pois existia um sistema econômico que beneficiava as comunidades do Sul, que sempre conseguiam ganhar em cima do Norte, mesmo que esse último fosse um lugar onde haviam mais recursos hídricos, matérias primas e até mesmo um óleo natural, chamado otrópleo, de onde saíam os principais combustíveis.

Existiam ainda muitos choques culturais, e quase nenhum respeito pela diversidade. Havia, por exemplo, uma comunidade sulina chamada Estados Unificados da Acirema, que pouco respeitavam as crenças religiosas e costumes dos países do Oeste. Sempre estavam prontos a se intrometer nos assuntos internos, muitas vezes com a conivência de órgãos tais como a OCU – Organização das Comunidades Unidas, que dentre suas responsabilidades estava a de zelar pela paz do planeta.

Os EUA, através de seus líderes, sempre usavam o pretexto de estarem defendendo os ideais de liberdade uniformizatória orientais. O que poderia ser compreendido nas entrelinhas como: “impedir que os bárbaros destruam a cultura hegemônica do Oeste”. Mas qualquer um que entendia um pouco mais de política sabia muito bem que o que queriam era ter controle sobre aquela região tão rica naturalmente.

Ocorria ainda que a cultura sul-oriental era muito predatória. As pessoas só queriam saber de consumir e consumir. E obviamente, um dia os recursos de Arret iriam acabar por conta dessa farra.

Logo, logo os líderes mundiais, a imprensa, empresas e outras organizações começaram a se dar conta disso. Foram feitas então várias campanhas que pregavam que as pessoas deveriam ter uma maior consciência ambiental para que a vida no planeta pudesse se prolongar.

Só que quando enfim enxergaram essa necessidade, as coisas já estavam num caminho em que havia poucas condições de contornar esses problemas. Em menos de cinqüenta anos o planeta já estava fadado à extinção total. Na melhor das hipóteses, alguns poucos pontos poderiam ser salvos. Dependia, logicamente, do fato de que esses lugares teriam tido uma menor expropriação de seus bens ambientais.

Como o Norte-Ocidental era uma região ainda cheia de recursos, a despeito da exploração desenfreada dos sulorientais, estes últimos começaram a realizar grandes correntes migratórias para lá. De início, as comunidades norteocidentais os receberam de portas abertas, mas com o tempo, em vista da impossibilidade de que todas aquelas pessoas pudessem ali se estabelecer, isso começou a se dar com uma série de restrições.

Como a situação era cada vez mais caótica, os líderes das comunidades do Sul, começaram a crer que era necessário tomar para si a autoridade sobre o Norte-Ocidente. Sob tais texturas foi que se deu a 5.ª Grande Guerra Arretana, que foi a pior que já se viu em todo universo.

O pior de tudo é que aquilo só serviu para dizimar mais rapidamente quase toda a vida do planeta Arret. Os poucos que ainda lá sobrevivem estão doentes e sua morte pode se dar a qualquer momento.

E apesar de a maré ir para um rumo que não é o mesmo que querem ir, eles ainda parecem acreditar que poderão se salvar, apesar de tanta coisa tornar isso inviável e quase impossível. Isso nos faz indagar algumas coisas. Será que existe alguma chance para eles? Será que eles podem construir ali um novo mundo, apesar de só restarem ruínas e cinzas ali?

Sinceramente, acho que não, mas aqueles derradeiros arretáqueos só ainda se mantêm erguidos por acreditarem que sim.



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Fatos, ressalvas e blá, blá, blá.

- Qualquer semelhança desse conto com a história de um outro planeta, NÃO é mera coincidência. :p

- Estou em dias inspirados. Está saindo tanta coisa de minha mente, que mal consigo escrever tudo que surge nela. Tá certo que nem tudo é algo que preste, mas pelo menos pratico a escrita com isso.

- Sobre selos: Vou dar um jeito de colocar eles em dia esta semana. xD

- Pegar ônibus em Uberlândia é um saco. Fato! Aliás, em qualquer lugar é.

- Cada um de meus dias deveria ter umas quarenta e oito horas. Mas isso também só funcionaria se as coisas que já faço se mantivessem com os períodos iguais (Só que tenho certeza, que se assim fosse dariam um jeito de fazer com que a gente tivesse que trabalhar mais). Enfim, mesmo estudando História, que é algo em que o tempo é fundamental, tenho de convir que ele é algo maldito. Isto é, pelo menos na perspectiva que a gente é obrigado a lidar com ele no nosso cotidiano.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Nada frágil .

Aviso: texto comprido e chato.

mulheroperária

Créditos pela imagem: michal_radassah

Seus olhar se perdia em meio às ruas e casas pelos quais seu ônibus passava. Este, por sua vez, se dirigia sempre pela mesma rota e no mesmo horário. Eram raras as vezes em que o motorista conduzia o carro mais rápido ou mais lento e chegava adiantado ou atrasado.

As pessoas que via pela janela também pareciam sempre iguais e no mais das vezes suas ações tinham um aspecto muito parecido com o que ocorrera no dia anterior. No entanto, ela observava aquilo com os olhos tão vivos que parecia ter sido a primeira vez que via todos aqueles movimentos humanos.

De certo modo já até sentia um pouco íntima de algumas das pessoas que admirava. Lá estava sempre a velha senhora a varrer a parte da calçada ficava em frente a sua velha casa. Tinha também o garoto de uns treze anos que quase todos os dias ficava de namoro com a garotinha de sua idade mais ou menos antes que soasse o sinal para que entrassem na escola. Um senhor com seu radinho de pilha, invariavelmente estava a ouvi-lo, sentado numa cadeira que sempre colocava próxima a uma árvore, que ela não sabia de que era, mas achava lindas as flores que por entre as folhas emergiam.

Paula, o nome de nossa observadora, sentia que tudo aquilo era dotado de energia e como tal seria interessante absorver aquilo. E era assim que fazia. Pois aquelas cenas ficavam guardadas em sua mente e lhe davam um certo otimismo para viver mais um dia conturbado como todos os outros.

Ela trabalhava numa fábrica de peças. Por vezes não era vista com bons olhos por alguns companheiros que achavam que aquilo não era lugar para uma mulher. “Onde já viu?! Desde quando mulher entende algo de mecânica?!” – Dizia um velho que ali trabalhava comentando para alguns de seus amigos também muito preconceituosos. Depois disso a apontava, de modo nada discreto, e dizia: “Pelo menos ela é gostosinha. Eu me divertiria bastante com ela! E vocês? Também transariam com ela?”. Em seguida em meio a muitas risadas alguns afirmavam que sim, outros apenas a observavam com olhos que chegavam a faiscar, tamanho o fogo despudorado que havia dentro deles.

Paula tinha formação como técnica em mecânica e era uma espécie de supervisora da linha de produção da empresa. Por vezes chegava a falar com Pedro, seu superior imediato, sobre a forma pela qual era discriminada dentro de empresa e pedia para que ele conversasse com os funcionários a respeito disso. Pedro sempre dizia que ia conversar com os funcionários ou até que já tinha conversado, mas apenas com o intuito de acalmar a moça. Ele havia trabalhado no mesmo lugar que aqueles trabalhadores antes de galgar degraus na empresa e sabia muito bem que ali imperava um grande machismo. Sabia assim que não adiantaria muito se fosse reuni-los e pedir que a respeitassem mais. Achava que talvez ficasse até pior, pois poderia ofender alguns que julgava como não merecedores de ouvir algo assim.

De certo modo estava até bem certo, pode se dizer. As pessoas costumam ter algum respeito pelas outras apenas quando as vêem sobre o pedestal da superioridade. Na verdade diria que isso não é nem bem respeito, beira muito mais o temor.

Paula era bonita, tinha aspecto frágil e também não era do tipo que ficava a ameaçar seus subordinados. Levava tudo aquilo como uma provação e acreditava que ainda ia conquistar a consideração daqueles com quem trabalhava.

Porém, aquele mesmo velho e um outro rapaz seguiam a importuná-la. Sempre faziam comentários maldosos com os outros funcionários, ficavam de cochichos e risinhos enquanto ela passava, além de sempre se recusarem a cumprir suas orientações.

Um dia ela chegou já meio entristecida na empresa. Uma série de problemas em sua casa estava lhe incomodando. Sua mãe encontrava-se doente e o médico ainda não tinha sido capaz de indicar o problema. Além de tudo enquanto vinha no ônibus, notou que havia um grupo de pessoas na casa da senhora que sempre varria a calçada no mesmo horário. Como a porta estava aberta pôde ver por entre aquelas pessoas uma parte de um caixão ao centro da sala. Logo já imaginou que seria a velhinha. Sentiu-se ainda mais triste. Tanto pela mulher que sempre via ali e sentia uma certa intimidade, quanto pelo medo de também perder a sua mãe a qualquer momento. Naquele dia também não viu o casalzinho enamorado ou o senhor com seu rádio de pilha. Era ainda um dia nublado, daqueles que a gente não costuma ficar muito animado com as coisas.

Já na fábrica o velho e o rapaz, após pedir que executassem um trabalho teriam mais uma vez se recusado a fazê-lo. Além de a ridicularizarem, proferido vários de insultos, além de dizerem coisas que gostariam de fazer sexualmente com ela.

Paula já muito chateada com os dois lhes disse que estavam demitidos. Estes continuaram rindo enquanto ela se dirigia à sala do diretor da empresa para solicitar as suas respectivas demissões. Eram dois funcionários eficientes e não acreditavam que poderiam ser tirados dali por aquela “mulherzinha”.

No entanto, o diretor os chamou e lhes disse que haviam passado dos limites e que se quisessem poderiam até cumprir o restante do dia, mas que por sua vontade era melhor que saíssem de lá imediatamente e só voltassem à empresa para assinar os documentos para suas respectivas demissões.

O velho então saiu da sala aos berros usando todo o seu repertório de xingamentos com o seu jovem amigo ao lado, que por sua vez encontrava-se mais com expressão mais desolada por conta da perda do emprego. Paula ficava ali apenas olhando tristemente para tudo aquilo. No entanto, se estava chateada com a situação sabia que estava fazendo algo correto, pois já estava consciente de que não devia se deixar submeter a todo aquele preconceito que rondava pela fábrica.

Porém, para gente de má índole, como era o caso do velho, essas coisas não ficam apenas encerradas. Ele queria vingança. E chegou a chamar seu amigo para que um dia armassem uma emboscada e abusassem da moça. O jovem, que apesar de também ser um tolo machista, entretanto ainda tinha algo de bom e prontamente se recusou. Achava algo assim inadmissível. E começou a tentar acalmar a cólera de seu companheiro. Entendia que ele só pensava naquelas coisas por causa da situação que era tão imediata e que logo isso passaria.

O velho, que era bastante astuto, deixou então ele pensar que assim era. E até se despediu do outro agradecendo por ter tirado aquelas idéias de sua cabeça.

Traiçoeiro que era, já ao virar a esquina já estava articulando o que ira fazer. Era uma quarta-feira, dia que Paula ficava trabalhando até mais tarde na empresa, por conta de uns relatórios semanais que sempre tinha que entregar no dia seguinte. O velho sabia disso. E se dirigiu por volta das oito horas para a fábrica. Ele conhecia lá muito bem e conseguiu entrar ali dentro sem que a vigilância visse. Esgueirou-se então para um canto escuro que dificilmente o veriam ou o que quer que fizesse. Sabia também que obrigatoriamente ali seria caminho de Paula quando estivesse deixando seu escritório.

Quando ela se aproximou o velho já foi a segurando pelas costas e começou a falar para que ficasse calada, pois ia fazer um “servicinho” pelo qual insinuava ela estar sedenta. Paula, no entanto era mais jovem e mais ágil e conseguiu acertar as partes baixas do homem com o calcanhar. Este por sua vez se afastou gritando de dor e retornou para tentar agredir a jovem.

Ela então passou a mão numa bancada ao seu lado e pegou uma chave de fenda que sabia que por ali costumava ficar. Era uma ferramenta com a ponta afiada, devido à função com que era empregada. E quando o velho já estava praticamente a seu encontro ela acabou espetando sua barriga. Ele então caiu no mesmo momento em que os vigias que ali chegavam, muito tensos depois de terem ouvido toda aquela barulheira..

Chamaram uma ambulância que o levaria para o hospital. Mas já era tarde, ele ia morrer no caminho por causa da quantidade de sangue perdida.

Paula ficou profundamente entristecida com tudo aquilo. Era boa pessoa e não merecia passar por acontecimentos tão bizarros. Porém, mesmo com aspecto frágil tinha uma personalidade forte e apesar de ter demorado alguns meses, conseguiu superar. Também acabaria justamente sendo absolvida das acusações de homicídio uma vez que havia sido um caso de legítima defesa e a própria morte quase que um acidente.

Pouco tempo depois de tudo se acertar, também já estaria de volta ao trabalho para a mesma função que fazia antes. Só que as mudaram. Agora parece haver algum respeito dos funcionários por ela. Pelo menos não questionam suas orientações ou fazem aquelas piadinhas de profundo mau gosto.

Ela se vê satisfeita por isso, mas envolvida em seus pensamentos enquanto está sentada num banco daquele velho ônibus que a traz todos os dias para o trabalho, sempre acaba se perguntando: “Será que o que eles têm é medo?”.

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Fatos:

- Acho que fiquei inspirado para escrever isso aqui depois de ver o filme "A classe operária vai ao paraíso" do diretor italiano Elio Petri.

- Sou doido! Estou com o fone na orelha sem ouvir nada.

- Deu um trabalhinho para achar imagens legais para colocar na postagem, mas consegui. Espero que tenham gostado também.

- São 1:40 da manhã e tenho que acordar as 6:00, pois tenho que fazer estágio numa escola antes de ir trabalhar.

- Estou sem sono para variar. Que coisa não?

mulheresfabrica

Créditos pela imagem: Seattle Municipal Archives

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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Democracia?

democracia

Créditos pela imagem: mataparda

Democracia: palavra que advém dos radicais gregos demos (povo) e kracia (governo). Deste modo significaria algo como “o governo do povo”. E é com tal premissa que tal conceito é divulgado e se perpetua na forma com que a sociedade acaba por concebê-la.

No entanto, possuo um profundo ceticismo com relação a ela. Tanto mais com relação à forma com que vêm se articulando as instituições democráticas em nosso país.

Evidentemente há de se considerar que a democracia em nosso país ainda encontra-se num processo de consolidação. Como é bem sabido, as instituições democráticas brasileiras são de tempo recente. Excetuando-se um leve entrecorte entre os anos de 1946 e 1964, mas mesmo assim se dando de forma bem enfraquecida, bastante populista e com grandes contradições, remonta ao pós-ditadura militar.

No entanto, mesmo com tão breve história não foram raros os escândalos envolvendo partidos e seus políticos após receberem o “voto de confiança” para representarem a sociedade brasileira. Já o primeiro presidente Fernando Collor sofreria o impeachment por praticar corrupção. Em tempos mais recentes o Partido dos Trabalhadores, que sempre levantou a bandeira da “não-corrupção” e da luta pelo povo, estaria envolvido em um amplo esquema envolvendo suborno que objetivaria o apoio de certos parlamentares para viabilizar a aprovação de determinados projetos.

A meu ver, o grande problema da democracia representativa e a forma como ela se articula em nosso país é o fato de que ela se efetiva nada mais, nada menos como um sistema que privilegia a manutenção das classes dominantes* no poder.

Alguns refutarão tal hipótese alegando que atualmente temos um presidente que advém das camadas populares e que em seu governo há uma série programas voltados à classes mais desprovidas. No entanto, creio que pelas próprias condições em que esta fundada nossa sociedade, que o atual governo do presidente Lula foi pouco capaz de atenuar as contradições sociais de nosso país. Há a aprovação população, a maior da história segundo as pesquisas, mas ela se fundamenta muito mais no sucesso das políticas assistencialistas (que não melhoram de fato a posição social dos pobres e apenas reforçam sua dependência) e numa satisfação devido a uma razoável melhoria das condições econômicas da pessoas em geral, mas que nada mais é do que resultado do fortalecimento das empresas e do capitalismo brasileiro. O pior é que diante da crise mundial, mesmo com alguns prognósticos de certo modo positivos à economia brasileira, há um enorme risco de que as classes trabalhadoras sejam as mais “penalizadas” em conseqüência de seus efeitos. O que já vem ocorrendo, principalmente àqueles empregados por empresas multinacionais aqui estabelecidas.

Voltando ao tema em questão, ainda acredito que nosso sistema que se diz democrático há uma série de falhas e lacunas. Nem tanto como se projeta legalmente, mas como se dá de forma real. É muito bonito quando lido a partir dos instrumentos legais que o legitimam. Mas chega a cheirar a mais pura hipocrisia em sua forma prática.

O que vemos no mais das vezes? Vereadores, prefeitos, deputados, governadores, senadores e até presidentes nenhum pouco comprometidos com os problemas reais da população e menos interessados ainda em resolvê-los. Sua retórica utilizada principalmente em tempos eleitorais remonta a mais pura demagogia (que defino como a arte de enganar o povo). A atitude desses senhores é bem expressa nas palavras do filme brasileiro Terra em Transe, quando é dito (não exatamente com as palavras a seguir) que: “O político, quando eleito, não cumpriu as promessas do candidato”.

Ou seja, sempre vemos um enorme distanciamento entre o que é prometido e o que se dá na práxis política de nossos governantes.

Sei que, que alguns que vierem a ler isso aqui, dirão coisas tais como: “melhor a democracia de hoje, que proporciona certa liberdade, do que a ditadura militar”. E concordo plenamente com relação a isso. Mas não concordo que devemos assumir tal postura, que para mim, beira o conformismo.

Até mesmo em relação à liberdade há uma série de restrições. E de certo modo, mesmo que não institucionalizadas legalmente, ocorrem no dia-a-dia das pessoas e em certos termos com a conivência das instituições democráticas. Por isso, ainda hoje se tem o espaço para que se prolifere a intolerância e o abuso da própria democracia. Por isso a democracia não é ainda o governo que faz valer a voz do oprimidos. Por isso não é o sistema capaz de que sejam verdadeiramente ouvidos os negros, nordestinos, operários, homossexuais e outros grupos tão discriminados socialmente.

Por fim, ressalto que creio piamente nos valores básicos da democracia. Que muitos mais do que uma "ditadura da maioria" seria uma forma de governo onde as diversas opiniões e posições de um sociedade deveriam ser lançadas de um modo em que a decisão não se desse pela diferença, mas pela convergência.

E neste ponto defendo mais que nunca a tal democracia. O que não infere que eu acredite que a forma como ela é praticada seja realmente isenta de problemas ou que estes não possam ser resolvidos. Ou que simplesmente, aceite a forma com que a democracia venha se tornando a cada dia mais banalizada ou transformada num palco de disputas mesquinhas de grupos que estão no poder. Quem se lança à candidatura para representar um segmento não deve ter colocar interesses pessoais ou partidários acima das reivindicações de seus eleitores. Mas é o que ocorre... E muito disso é resultado da própria sociedade que permite que a podridão de certos políticos venha a se manifestar.

Acredite. Qualquer pessoa pode ter uma ação política real. E isso não implica que se deva ser político profissional. Basta não fechar os olhos para os problemas, que não sãomeras ilusões e estão bem diante de nós.

Bom. Já falei demais... Melhor lançar a pergunta: O que é democracia para você?

* Uso o termo “dominante” com certas ressalvas. A “dominância”, sob minha perspectiva, representa também uma inter-relação entre aquele que é tido como “dominante” e o “dominado”. O “dominado” acaba por se sujeitar à dominação imposta em muitos aspectos. O que não exclui a hipótese de que ele venha também articular a defesa de seus interesses contrapostos em relação aos daqueles dos que estão em posição inversa. Dominância deste modo não implica simplesmente em sujeição ou passividade, mas num processo em que o “dominado” também é sujeito de suas ações.



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segunda-feira, 23 de março de 2009

Raça ?

Créditos pela Imagem: Carf

Créditos pela Imagem: Carf

Ultimamente tenho visto por aí em vários veículos de comunicação (blogs, revistas, jornais, etc.) uma série de artigos que versam (em maior ou menor grau) sobre o racismo no Brasil. Isso na maior parte das vezes se deve à questão das cotas para negros e pardos, que há muito tempo gera polêmica entre os brasileiros.

Porém, não é sobre as cotas que quero falar. Já há uma ampla discussão a respeito delas. O que considero ser um verdadeiro problema são as constantes afirmações de que nosso país não é racista, o que é um contrasenso diante à realidade.

Antes que alguém venha me apedrejar, destaco que não defendo o racismo e sou contrário ao próprio conceito de raça. Afinal, nada mais é do que uma formulação utilizada para justificar uma suposta supremacia do homem branco em relação a outras “raças”. Qualquer um com um mínimo conhecimento histórico pode verificar que essas diferenciações raciais sempre se deram com oportunismos bem claros. Seja, nos tempos da exploração colonial baseada no trabalho escravo, seja nos tempos atuais, que grupos motivados pelo principalmente pelo ódio e o ultra-nacionalismo, a despeito de todas as atrocidades propagadas pelo fascismo e nazismo na Segunda Guerra, ainda pregam a exclusão e até a dizimação do outro, daqueles que não consideram como integrantes dos seus.

O problema do racismo em nosso país também já vem de outros carnavais. Como citei acima é resquício da escravidão e de um projeto(?) abolicionista que não propiciou a integração social desses indivíduos, além da construção de uma cultura que enxerga o afrodescendente como inferior ao mesmo tempo em que foram articuladas fórmulas que tentam ocultar isso.

O que ocorre em relação a este último fator é que ele se manifesta de uma maneira muitas vezes imperceptível e camuflada sobre uma imagética que versa que o Brasil é um país livre de preconceitos. Aliás, isso é próprio de uma nação em que aqueles que estão no poder (políticos e grandes empresários) sempre forjaram ideias como tais e que se perpetuam na própria maneira que nos vemos, por mais deturpado que isso ocorra.

Provas muito claras de que realmente há um grande preconceito racial no Brasil e no mundo, vão de exemplos mais corriqueiros, como as muitas piadinhas de mau gosto sobre negros, ou até coisas mais amplas, como o próprio conceito comum do que seria belo, que de fato é “branco” (já reparou que até mesmo as mulheres negras, orientais e indígenas consideradas belas são as que têm traços mais “ocidentalizados”?).

Ocorre ainda que as pessoas parecem estar fechando os olhos para isso. Apenas enxergam o lado, que é verdadeiro, diga-se de passagem, que os negros e outros grupos excluídos têm a mesma capacidade individual que os brancos. Porém, a verdade é que o preconceito existe sim, por mais que tentem ocultá-lo e influencia bastante nas oportunidades das pessoas de cor em alcançarem uma melhoria social para si próprias. É a realidade do capitalismo, do mercado e do neoliberalismo: prega-se a possibilidade de ascensão social, mas não há uma verdadeira igualdade de oportunidades.

Ou seja, tomando um exemplo mais concreto: um filho de um empresário milionário vai concorrer com você a uma vaga num vestibular ou concurso qualquer. Ele teve a oportunidade de cursar as melhores escolas particulares, estudou cinco idiomas e conhece cinquenta países. Já você, estudou numa escola pública e teve que trabalhar para ajudar no sustento de sua família. Obviamente você não teve as mesmas condições que ele.

Vai me dizer que isso é apenas culpa sua? Que a sociedade não lhe impôs restrições para que atingisse seus sonhos e objetivos? Tenho certeza que muitos vão dizer que o fracasso é apenas seu. Que o sistema nada tem a ver... E você o que me diz?

Não é coincidência que a grande maioria dos pobres seja composta por negros e pardos. E isso é um problema sério, pois não abarca apenas o social, mas também a própria cultura. Problemas sociais facilmente são resolvidos quando bem trabalhados pelos governos, porém questões culturais são, evidentemente, mais complexas e intricadas para se estabelecer alguma resolução. Por exemplo: Tiram-se negros da pobreza através de políticas de afirmação social, porém como eliminar a visão de mundo hegemônica da sociedade que o julga tantas vezes como inferior?

É preciso mudar isso! Mais do que já!

Porém, isso só será possível a partir do momento em que nós mesmos reconhecermos que existe esse preconceito velado, oculto e que se manifesta inconscientemente. É necessário enxergarmos ainda que somos também partícipes e coniventes com ele. E enfim, assumirmos uma postura realmente contrária a isso, que prime pela igualdade humana, pelo respeito ao outro e por um desejo de um futuro melhor para o mundo e para todas as pessoas, independentemente de quaisquer qualificações preconceituosas relacionadas à cor, origem, sexualidade, ou crença religiosa...

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