segunda-feira, 6 de abril de 2015
questões burguesas
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
de fora para mim pro que devemos ser
domingo, 28 de outubro de 2012
Kafka e Crumb
Crumb gostava de desenhar pessoas de modo bem característico. Tinha medo, rejeição e raiva do feminino, apesar de deseja-las. Mas é
relevante notar que suas mulheres são no mais das vezes figuras poderosas, com
formas que, por sua vez, costumam jogar pra escanteio a padronização da beleza
feminina. A despeito das críticas, em relação a isso, acho que Crumb em sua
sinceridade e maluquice, mais estava a par de descortinar preconceitos latentes na sociedade, do que propriamente de ser um misógino, como dizem, ou algo do tipo. Num
quadrinho, que integra “Blues”, de uma página que ele faz corar de vergonha
qualquer militante libertário que no fundo, no fundo se revela machista. Faz
refletir um pouco sobre nossa hipocrisia, e a necessidade de construirmos
outras maneiras de agir, mais sensíveis à alteridade e, consequentemente, do
modo mais pleno no respeito ao outro.Era judeu. Isso no início do século XX, num país dividido entre checos e alemães, mas com ambas as partes antissemitas. Pra piorar não se reconhecia judeu, checo ou alemão. E, nesse sem fim de contradições, queria largar tudo e ir pra Palestina, que então judeus começavam a migrar, ao passo que negava seu próprio judaísmo.
Considero a obra de um e outro como questionadoras do mundo e não à toa Kafka, que chegou a ter sua obra censurada pelos estalinistas, renasceu das cinzas por sua constante crítica ao poder e autoritarismo no alvorecer da Primavera em Praga.
sábado, 27 de outubro de 2012
Meus abris
É sentença dada a Tonho, da família Breves, pelo senhor Ferreira em razão da morte de seu filho, no filme Abril Despedaçado.
O filme com sua fotografia iluminada, esconde o sombrio, que versa daquele tempo marcado, que se esvai na ampulheta, de areia feita a cor do chão semiárido: “Cada vez que o relógio contar: Mais um, mais um, mais um. Na verdade ele te diz: Menos um, menos um, menos um.”.
É areia seca, grudada, em gretas de contração, lavada de sangue, secular, de tantos homens morridos e que parece que hão de morrer. A briga nem é de Tonho, mas há ele de ser honrado, como seu pai sempre lhe diz.
Seu pai... homem duro, dono da bolandeira, que os Ferreira deixaram sem terra, sem nada, mas que só tem essa tal honra. A Tonho resta ao menos cobrar o sangue de seu irmão mais velho já morto, como se fosse obrigação. E, obrigação é pagar com vida, se necessário depois de acertadas as contas. Ao próximo Ferreira cabe também seguir carma-vingança, assassinar a Tonho, que assassinara seu irmão.
Tonho tem um irmão vivo, com nome que não se sabe, mas que é chamado de Menino.
Menino sonha com a sereia que o leve pra longe e não entende porque aquilo acontece. Não lhe é possível entender porque dessa mortandade toda e a ganância expressa na briga de famílias por terra, como lhe diz certa feita o homem do circo. Queria ser peixe do mar, para ficar juntinho da sua sereia, mas o máximo de alcunha que conseguiu foi ser batizado Pacu. Sendo peixe de rio parece restar apenas o desejo inconsumável de cair pelo destino na imensidão oceânica, pra poder viver amor.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Invólucro de dedos
Em invólucro
apertada
entre dedos
quis se fechar
Lacrada
invulnerável
inefável
Quis se personificar
solidão em essência
apertada
vendo nas frestas
da grande mão
lampejos de vidas outras
Quis nelas tocar
Seu querer de ser só
viu-se esvaecer
naquilo que olhava
E que era um tantinho
em que se agregava.
Nisso se moldava
se desprendia
membro, membro, cabeça
um por um
em paulatino saía.
E uma por uma
também não mais foi
E se transmutava
numa mais umas
Pessoas várias
que trazia pra si.
Se se isolava
em retraimento
agora se perdia
Mas sentia um desejo
de encontrar a si mesma
que jazia em espírito
ou num ponto de ônibus
desses quaisquer
onde está estacionado o passado.

A obra Invólucro de dedos de Diego? Chuck? Glommer? foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição 3.0 Brasil.
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quarta-feira, 16 de março de 2011
Inoperância rítmica acentuada.
Um dia me perguntaram
Por que não grafava poesia assim?
Por que não a "construía"
- como gostavam de dizer -
na batida da asa ritmada?
Eu não dizia
mas muito queria dizer
que simples demais seria a questão.
Que era por não ser
a poesia um edifício
mesmo sendo erigida
na superposição de linhas
uma após outra na vertical.
E que o ritmo ajeitado
que não era regra
porém muito costumeiro
era uma belezura
Mas não era tudo em si
Por si carecia de um algo
que pudesse ser um pouco de mundo,
vestígios do vital.
Eu mesmo rimei umas duas vezes
Uma foi sem querer
A outra foi plágio inconsciente
que os corujões chamam referência
Por essas tais vezes
não recebi elogios
pra apetecer minha egocentria
Tampouco mereci deferência.
Amassei o caderno
com muitos dos escritos
mandei-os pro inferno
Junto com meu tênis e meu terno
que nunca os tive.
No caminhão dos lixeiros
também mandei passear
por longos tempos indefinidos
as formulazinhas de bem escrever
E assim preteri o belo
pra falar o que bem entender
modelado e modulado
por meu próprio fazer
Deixei de lado o ato da construção
escolhi não a Conceição,
mas a arte da confecção.
Poderia ter escolhido
ser fabril e ser febril
Na levada continuada,
cubificada, planificada, planejada,
feitura de arquiteto ou engenheiro.
Eu preferi ser artesão
e fazer de cada obra evento único
que mesmo com semelhar de finalidades
do cotidiano dissesse mais que trivialidades.
Findo por aqui,
numa sensatez bem dosada
é que vai ver
eu nunca aderi ao balançar
dessa tal asa ritmada
pra não sugar à exaustão
a magnitude de seu sangue eterno.

A obra Inoperância rítmica acentuada. de Diego? Chuck? Glommer? foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
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sábado, 5 de março de 2011
Espuma, sabão e as utopias contra as distopias.
Todo sectarismo já nasce morto
na política, no amor e na vida.
Todo descrédito pelo outro também
Mesmo que os santos digam amém
Toda tolice será perdoada
até que se tenha humildade
para reconhecer o tolo que se é
Mas nenhuma estupidez será perdoada
quando for feita visando o bem de si só
Logo, logo será ceifado
no corte seguido degolado
Estripado e esquartejado
Não pelas armas
Não pelo físico
Mas na artéria da alma
Padece de vitalidade
A rubra cor que pinta o céu
é a mesma que na rua se permite pintar
as portas dos barracos nas vielas estreitas
das ladeiras íngremes de violência
geradas pelos tapas que dão os opressores
nas faces tristes
justo daqueles que geram sua fortuna
Por agora só resta esfregar
limpar do chão essa vermelhidão
Misturam-se os líquidos
Sangue e sabão.
Corre a vida lá fora
Enquanto teorizamos a revolução.

A obra Espuma, sabão e as utopias contra as distopias. de Diego? Chuck? Glommer? foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada.
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Revirar a volta
Meu escrever é busca insistente
procurar de mim mesmo
envolto em voltas e mais voltas
dinamitar de verborragias
diarréia palavresca verborréia
Meu escrever é tentativa
frustada de captação de meu viver
Turvo, insólito, despreparado
abraça nebulosas do inesperado
Exaspera-me bruta fera
Assim só pra combinar
primeira e última palavra
do verso meio morto
Todo tolo.
Surpreende!
Diz que sou delinquente!
Meu delito foi te amar
Desconcordantemente
o verbo e o pronome.
Assim disse ela
que respondia pela alcunha de Norma
Norminha para os íntimos
Norma Culta para os comuns
como eu sou, como você deve ser
Tão regrada e sistemática
mas descompassada
perto do fervilhar das línguas
que reinventavam a fonética
a gramática e a própria vida
Bastava um corriqueiro sair à rua
Mesmo assim eu a amava
Ela, a Norma...
que de algum modo ajudou a me fazer
Só lamentava isso dela
Essa tal coisa se enclausurar
se alhear tantas vezes
ao tombar da tradição pelo novo
à reinvenção das negações do passado
Um texto é cheio de reviravoltas a cada instante
Assim como nossa estada sobre (ou sob) a terra também é.
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quarta-feira, 3 de novembro de 2010
valerá
Se te sufocas
o ar que respiras
muito é inevitável
É hora de mudar
Doerá se fizer parte de ti
Sim, eu sei que doerá
Mas
extirpa de teu peito
arranca de teu âmago
Faz brotar que valerá
Pouco custará
Encolhe em ti mesmo
Depois espicha
Espicha a ti mesmo
Lava-te nesse borrão
Borrão de sentimento
tão mais ameno
tão mais lisonjeiro
tão mais de esperança
Para um sonho continuo
espreguiçarás!
Abre o braços
Deixa-te vibrar
encontra o alento
Eu sei que sim
não é fácil acordar
Mas te digo
não, não custará
Um tanto muito valerá
Eu sei que vai passar
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Rojo - Vermelho - Red

Rubra cor do inferno...
Será um belo por-do-sol?
Rosas ajuntadinhas em arranjos florais?
Sangue que lava o chão de dor?
Proletariado fazendo revolução?
Teus olhos lacrimosamente lavados?
Rubra cor do inferno...
Inferno maior é bem aqui.

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quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Inatomizado
Eu não sou um indivíduo
Indivíduos são únicos
são particulas isoladas
e eu não quero ser assim
Eu não sou um átomo
Não sou lua sozinha da Terra
Tampouco a piracema do ano
Não sou um evento
de quinta ou décima
vigésima categoria
Talvez seja sujeito
de mim dos outros
para os outros
mesmo que eles
não sejam de mim
Sou caos da alegria
Melancolia organizada
Sou vícios emocionais
Torpores conjunturais
Implosão das estruturas
Sou o que dói
pra quem finge
não ser ver e não ter
Sou aquele que não é você
mas que encontra sentido
em função do próprio viver
seu e de todos os seres
inumanos ou não

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segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Assim foi e é
Foi assim que foi
E eu nem notei
Os dias são segundos
Não dão para nada
Nem pra dizer
Ainda mais quando se é tão bobo
Eu tenho medo
do que virá
sempre foi
espero que
nem sempre será
Os ditos e os não ditos
não raro são malditos
Mas benditos sejam
os que dizem
Pois seus corações
não se apertam
com o que quiseram que fosse
e nunca se atreveram
Eu pouco disse
bastante menos do que quis
Agora sinto dor no peito
Hey, cadê você flor-de-lis?
Perfuma o horizonte
Perfuma a minha vida
Mas adivinha
Pois se depender de mim
Nunca saberá
Nunca saberá que isso quis
Porque tenho medo
Medo do horror
Do terror e mais ainda
do amor
Por isso sou volátil
Por isso nunca sei
Nunca sei pra onde vou
Confundo-me agora
Antes e depois
Às vezes o que escrevo
me soa tão repetitivo
Vai ver que é porque
vivo sempre ciclos de dor
E tento traçá-los assim
Tortamente verticais
Horizontalmente lineares
Sorrio pra todos
menos pra mim.
Uberlândia, 18/10/2010. Por volta das 23:35 em horário de verão numa segunda-feira de sentimentos de inverno.
domingo, 17 de outubro de 2010
...
Você nunca se sentiu assim?
Há vazio
...
Você me entende?
Há vazio
...
Vou embora.
Há vazio
...
Só vazio
Uberlândia, 17-10-10. 12:45 h.
domingo, 3 de outubro de 2010
Vivendo as utopias contra as distopias nos trópicos e para além deles
Créditos pela imagem: pablodfNesse momento se saturará... o grito do oprimido, e daqueles que diziam ao lado dele estar. O grito do opressor, então extirpado de sua condição.
Nesse momento, política não se fará mais em caixinhas, depositórios de papeizinhos, ou em calculadoras sofisticadas. Se fará no dia-a-dia em cada ato público, no trabalho, na mercearia e na vizinhança.
Nesse momento, todos os dias serão eleitorais. Não daqueles que decidiram por você por um tempo indeterminado. Mas serão vislumbrados como eleições perenes e continuadas de sua vida. Você não elegerá indivíduos, elegerá o seu direito de ser, de agir e ao mesmo tempo se solidarizará com os seus. Será humano. Será pleno. Será vivo. Não será mais moribundo. Não mais se reprimirá por visualizar realidades utópicas. A distopia não será mais um tubarão pronto a emergir em algum trópico. Nem acima, nem abaixo ou na linha do país sulamericano se permitirá o autoritarismo, ou a doutrinação do outro.
Se reconhecerá que humanos somos. Que sociedade somos. Que dos outros precisamos. E para nos prolongarmos é preciso irmos além de um pensamento sobre nossa própria vida. Não seremos mais mesquinhos. Não seremos mais egoístas. Não seremos mais tolos. Ou pensaremos que revolucionar é coisa de babacas.
Não precisaremos também que pensem por nós. Não precisaremos que façam por nós. Juntos faremos.
Eu olharei e você olhará e verá que podemos todos viver bem e que todos os luxos são falsidades imagéticas de um lugar que não é nosso.
Nesse dia eu não votarei em Dilmas, em Motosserras, em Marinas ou Agripinas. Nem em Plínios, Salgados, Doces ou Sampaios. Muito menos em Pimentas, em Ruis, Barbosas, Costas ou Cominhos. Também não votarei em Zé Marias ou em Marias Josés. E repudiarei vigorosamente os fascistas recalcados sob a égide musicada de Fidelix e mais ainda de Eimmaéis.
Nessa bandeira estrelada, sob o azul, o verde e o amarelo-ouro verte e verterá por tanto tempo ainda muito sangue. Talvez tenha chegado a hora de tirar as suas cores. Talvez tenha chegado a hora de aboli-la.
Talvez seja a hora de estendê-la nua e crua destituída de toda sua simbologia.
Os garotos e garotas mortos, física ou mentalmente, de todos os dias ressuscitarão revelarão um olhar iluminado, depois de sempre se sentirem cegos por uma venda que mal sabiam que os privava de visualizar o que estava bem às suas frentes.
Eu sei, pois comigo sempre foi assim. Sempre tentarão me privar disso. Tentaram me castrar os sonhos desde que eu nasci. Firme e forte eu fingia ter acreditado que o que me diziam era verdade. Mas eu era só desconfiança. Desbravei o mundo, me perdi por um milhão de tantas vezes. Eu mesmo me confundia e até este momento estou a me encontrar.
Só não permito que me privem de tentar.
Quando isso fizerem talvez seja incapacitado até de sentir. Esquartejado sentimentalmente então não seria mais que simples coisa, pois o sentir e dele experimentar são um amálgama indissociável.
Mas quanto ao silêncio que me referia. Você deve estar a matutar: ele não diz nada, como se converteria no próprio ato de transformar?
É que aqui não falo de voz. Mas de atitude contemplativa. Os gritos de antes só eram necessários porque nos digladiávamos. Preferíamos socar o outro, por mais próximo que fosse, antes de ouvi-lo.
Paradoxalmente, nesse silêncio haverá sim voz. O que não haverá são os surdos funcionais.
Uberlândia, 03/10/2010. Quase às 23:00 h. No mesmo dia que mais uma vez se destacou alguém pra decidir a sua vida e seu direito de ser. Poucos dias depois que quando se pensava que não seriam mais tão audaciosos, tentaram perpetrar um golpe militar num país chamado Equador. Há alguns meses desde quando começaram a expulsar ciganos do país que dizem ser grande gerador da erudição e sabedoria para o mundo moderno. Há alguns anos desde que comecei a me despojar da crença de que as coisas eram sólidas e impermeáveis. Um velho barbudo, que não era Santa Claus, me disse que elas sempre se desmancham no ar...

Vivendo as utopias contra as distopias nos trópicos e para além deles by Diego?Chuck?Glommer? is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compatilhamento pela mesma licença 3.0 Unported License.
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sábado, 2 de outubro de 2010
É que há
Depois que a chuva acabar
Restará
Lixos pelo chão
As poças logo secam
Depois que o som acabar
E antes do sol raiar
Você se sentirá só
Mesmo junto a tantos
Em meio a muitos
Muita solidão é que há

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domingo, 19 de setembro de 2010
Temporiza( a )dor

Experimente o elixir
Da curta vida
Mais curta que curta-metragem
Posso advertir que
Só porque é curta
Não é proibido que a curta.
Palavras, palavras, palavras
Repetidas, repetidas, repetidas
Sem nexo, com nexo, conexo, desconexo
Aloco-as em parcas arrumações abstratas
Desarranjam-se em frações de esquecimento
Registrar é vicio dos desmemoriados
Flui o ontem em rios de hoje
O que se foi em águas do que virá
Pororoca das dez ilusões vindouras
Naufrágio das desilusões de outrora
Fugirei em meu barco numa outra hora
Para as bandas dessa correnteza
Que em lendas dizem que verte para o mar
Leio Confucio em seus ditames
Pena ser ele muito confuso
Para quem só é levado para um lugar
Que não imagina o que é
Mesmo questionando porquê
Como está ou onde vai se chegar
A brevidade não é coisa de idade
Se fosse, as crianças seriam assim
Jovens eternas mortas de tédio
Brincando em playgrounds atemporais
Pueris como os anjos celestiais
O velho não se angustiria com a morte
Estaria a cada segundo mais forte
Mesmo no peito tendo um corte
Profundo, intenso, ilógico e inesperado.
O tempo não é imaginário
Alguns se esquecem dele
Tentam aprisioná-lo
Fechá-lo em caixinhas especiais
Mas isso só funciona ali
Nas mentes que fingem que ele não existe
Enquanto ele as corrói sorrateiramente.

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quinta-feira, 11 de março de 2010
Foda-se.
Queria escrever para desancar o choro que está guardado em mim não sei bem onde. Mas as palavras se escondem, se enfiam num buraco negro que dizem estar no meu estômago, bem depois de minhas tripas. Estão presas entre correntes de carne viva. Estão desnorteadas, desbaratadas, descortinadas, espancadas, intoxicadas e flageladas. Elas e as lágrimas precisam se desatar de tudo isso, mas nem mesmo a mais mortal das armas de corte, forjada pelas mãos e punhos do próprio Hefesto, é capaz de fazer com elas se deflagrem e possam se espalhar no ar, tal como sublima a pastilha naftalínica.
Não sei o que se passa. Não é amor, nem ódio, muito menos rancor ou saudade. Talvez seja a dor de há muito não sentir nada disso. Um sentimento de aflição por um esvaziar de si mesmo... Que lembra a areia paulatinamente caindo pela ampulheta.
Fausto, Fausto... Como te culpo por teres desejado tanto esse maldito progresso. E mais ainda por terdes criado essa tal modernidade que ninguém se reconhece. Eu só desejei a minha liberdade, mas tu sempre vieste com tuas ideias despóticas de falsidade e sequer te justificaste nalgum dia.
Deus, deus... Primeiramente em maiúsculas e depois em minúsculas, pois vós sempre fostes omisso. Enquanto ocorria toda a desgraça aqui no solo que és vossa criação, omitias-te como se não fosse de vosso interesse. Por isso de hoje em diante me recuso a fazer o pai nosso (que aliás nunca foi meu) e a clamar por vosso nome. Nunca me ouvistes. Por que ouvirias agora?
Perdoe-me por lhe dizer, mas ninguém o entenderá. Você andará perdido e tentará gritar por socorro, mas suas cordas vocais estarão dilaceradas e nada será real a não ser os seus tormentos. Digo por experiência própria. Palavras de quem sempre oscilou entre o ser e o não ser e só foi amado por não ser... Não ser o que é.
Sempre foi assim. Eles não ouvem. Não querem saber o porque de suas dores. Porém, você (e eu) nunca quis(emos) saber o que eles sentiam. Minha, sua hipocrisia se encontra bem no lugar onde fingimos não saber que ela ali está. Afinal sabemos (embora também finjamos não saber) que a maior das conveniências é adentrar na ilusão imbuído pelo espírito medíocre da inexorabilidade.
Logo mais a vida se esvai. Vai-se mudo pelo mundo. Seus sorrisos tão cálidos não dizem nada do que é. Suas estórias, histórias, conversas e piadas nunca foram o que quis dizer. Disse para os outros o que eles gostariam que pronunciasse. Sua palavra é imunda, deslocada e fragmentada. Carece de sentido para você mesmo e, para os outros, soa mais complicado que o gaguejar de alguém que fala aramaico.
Preciso ser o meu não ser. Um tanto agora e logo mais. Fala da vida o que bem quis, o grito exasperado de quem ousa ser muito feliz. Mas nem precisam me encantoar para que eu me entregue e me faça de desentendido do sofrimento de mim e o que está ao meu redor. Falta o doce cheiro que vem com o desabrochar de belas flores sincronizadas com o nascer do novo dia.
Preciso acabar esse texto. Os críticos sedentos por seu fim que se fodam, pois ele delicia a eles e deprime a mim.

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domingo, 17 de janeiro de 2010
Cortado e composto: Pelo real, pelo sonho e o imaginado.

Meu ser gera amores. Mas meu ser gera incômodos. Por sua... minha forma de ser, rancores, pudores, odores... Terrores. Às vezes quero me fechar pra vida, mas a vida não quer se fechar para mim. No instante seguinte, quero me abrir ao mundo, mas a cada palmo de chão que ando desesperado, portas pesadas de pesadelo se cerram bem junto a ponta do meu nariz.
Ontem mesmo queria ouvir música de ódio. Do mundo, de tudo. Hoje ouço som de melancolia. Talvez hoje seja ontem... eu não sou muito bom em estabelecer sequências. E quem sabe até sentia melancolia ontem e ódio hoje? Afinal, essas palavras foram para mim inventadas antes dos meus sentimentos. Será que é isso mesmo que sinto? Será que me condicionaram a pensar / me sentir assim? Será que sou um idiota divagando sobre inutilidades e nada mais? Será que nunca soube quem sou? Será? Será?!Será! Será. Será... Será?
Uma manhã e nada mais. Acordo bem como já há muito tempo não acordava. Farei então um acordo com o dia. Farei o que bem entender... Isolarei de tudo que me prende. Não gosto de prisões. Ou gosto? Afinal, se pensar bem talvez até sejam boas... Isto é, pelo menos quando se torna prisioneiro por vontade própria, pois aí, aprisionado me sentiria feliz.
Às vezes confundo minhas quimeras com o que percebo do real e nunca soube se alguns momentos do que penso que vivi, em minha cabeça sonhos eram. Em flashes de passado vejo tudo o que foi e o que não foi. Confundo-me nas fantasias da sexualidade latente para mim incompreensível nos meus sete anos. Será que com desejo eu a acariciei? Será que hoje nego tudo isso incrédulo de que poderia querê-la, quando ainda eu era tão infantil? Será que seu olhar assustado, que para mim ainda gravo, foi parte de uma noite em que eu dormia?
Perco-me nada mais.
Eu dormia... não nessa noite que não sei se foi uma noite ou um dia. Dormia quando via meu corpo dormir. Ficava ali olhando assustado. Eu olhando para ele e querendo para ele voltar enquanto flutuava pela casa tentando me encontrar. Sufocado decidia tentar deixar tudo acontecer. Mas não! Oh, céus! E, vejam que ironia! Eu que ateu já fui clamando pelos céus! Será que estaria me sentindo no inferno e procurando seu dicotômico para me agarrar? Não sei... Tentava então acordar pra me libertar, ou melhor, me livrar daquele sonho de realidade. Pensava que talvez fosse meu espírito se evadindo de mim. Isso me causava tanto temor. Nunca me dei bem com essas coisas do além, apesar de vivê-las à toda hora.
E os choques?! Ó, como eram cruéis! Sentia-os por todos os lados. De minhas entranhas até a epiderme. Brotavam do meu meio como circunferências de luz e dor e então se espalhavam. E eu ali, meu outro eu, que de carne não parecia ser, desejando em mim (ou em nós) se reencontrar. Mas não conseguíamos. Meu eu que na cama estava, e que presunçosamente se dizia ser eu em verdade, não recebia de seus membros os comandos de sua mente. Era como se estivesse atado por cordas mágicas invisíveis.
Era tudo tão horrível! Por fim, depois de muito lutar com o que parecia jamais findar, então eu acordava (ou entrava em outro sonho?) e sentia tanta dor. Na cabeça e uma dor desordenada que não sei nem explicar, que só servia para me deixar transtornado com o que viesse a acontecer em seguida. Transtorno, aliás, é uma palavra que me surge bem conveniente, pois se ousei isso descrever, nunca soube entender o que de fato era. Tanta confusão! E eu horas nela tentando me dissolver. Outras horas fugindo como se galopasse numa opulenta e veloz égua que só passasse em planejados caminhos de segurança sem sequer olhar para os lados. Decido que nisso não quero mais pensar...
Melhor mesmo não pensar... Melhor não perder tempo escrevendo bobagens. Quem sabe amanhã algum psiquiatra metido a besta me diagnostique como esquizofrênico sem saber que ele próprio também é? Tenho que aproveitar a vida até me enterrarem num hospício.

Cortado e composto: Pelo real, pelo sonho e o imaginado. by Diego, Chuck e Glommer! is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Brasil License.
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quinta-feira, 23 de julho de 2009
Conto do Louco sem nome - Parte 2
Imagem: SirLeMojoUm dia, Bethânia idealizou e praticou um ardil para aprisionar junto de si um padre, que apesar de gordo e feio, sentia um profundo tesão. E foi assim que comprou LSD com traficantes e o misturou ao vinho que o sacristão beberia durante a missa. O padre, mesmo tendo muita resistência ao álcool e já ter fumado muita maconha na adolescência, acabou se entregando às ilusões daquela droga. Falou muitos impropérios contra deus, o papa, bispos e toda hierarquia do catolicismo e até se revelou ateu. As velhinhas que praticamente moravam na igreja para expurgarem os muitos pecados que – a despeito da prática de mais de cinqüenta anos, ainda vinham a acumular – olhavam estupefatas aquelas ações de um homem que há poucos minutos pregara o evangelho. Mal sabiam que, se ele falava agora a verdade do que pensava, era por estar sob efeito de entorpecentes...
Tão logo acabou a missa, Bethânia deu um jeito de ir a sacristia para encontrar o tal padre, que enfim estava só. Deu então um jeito de conduzi-lo a seu carro e levá-lo para o sótão de sua casa. Chegando lá a primeira coisa que fez foi injetar sonífero no homem para que ela fizesse uma cirurgia e extraísse suas cordas vocais. Afinal, não gostava muito de gente que falava... Talvez aí a razão de seu ódio por quase todo mundo...
No entanto, quando pensava que finalmente poderia com ele propiciar seus prazeres carnais, descobre que o homem era castrado. Censurou-se bastante por não ter se apercebido da voz fina que muito se distinguia quando se entoavam as canções de louvor a Deus. O pior de tudo é que como cortara as cordas vocais não poderia mais nem se deleitar com aquele doce canto de castrati, e isso em tempos de que eles já não eram mais comuns.
Ademais, se não se importava com a natureza do ser com que fizesse “amor”, por outro lado não suportaria não ter alguma retribuição. O que nunca aconteceria com aquele homem triste e amedrontado. Finalmente se apercebeu que cometera um grande erro e ficou temerosa do que a justiça poderia fazê-la pagar. Pegou então uma navalha se vestiu de homem e se pôs a errar pelo mundo vestida como mendigo. Viveu assim durante uns três anos numa cidade maior, próxima a sua, e tendo morrido de frio no último inverno.
“E o padre? O que houve com ele?” – Certamente o leitor atento estará se perguntando algo assim. Pois digo a verdade, que sempre digo, pelo menos quando é do meu interesse ou quando julgo que ela assim é.
Crianças que estavam nas redondezas, um dia depois da fuga da mulher, chutaram uma bola na vidraça da janela do sótão. Tocaram e tocaram a campainha e ninguém atendeu. Pois se houvesse morador naquela casa seria ele um fantasma. E é bem sabido que eles não existem à luz do dia – pelo menos é isso que os escritores de contos e os roteiristas de filmes de terror nos fazem acreditar. Afinal, eles atentos que são, bem sabem que as trevas nos despertam muito mais temor que a claridade do sol nas tardes e manhãs...
Oh, não! Mais uma vez eu em minhas digressões! Por favor, caro leitor, seja paciente e me censure não lendo as partes que perceber que incorro a poluir ainda mais este texto que por si só já considero tão ruim.
Mas voltando ao caso, as tais crianças, que eram três e se chamavam respectivamente X, Y e Z, eram bem atrevidas e como todas a crianças que jogam futebol na rua não estavam dispostas a perder uma bola. Fizeram uma votação e Z venceu (ou perdeu?).
Era ele tido pelos outros garotos como muito lerdo e sempre era o último a concluir as coisas. Os meninos fizeram então troças a respeito da má sorte de Z. Ele hesitou um bocado, mas apesar de não ser rápido, era bastante valente e seguiu a trepar pelas paredes até que ficasse sobre a casa.
Demorou, mas conseguiu chegar à parte de cima. Facilmente conseguiu abrir a janela a partir do buraco que eles próprios fizeram, tomando cuidado com o vidro quebrado. E quando se embrenhava no sótão à procura da bola, eis que avista o padre. O qual muito tentou perguntar, mas nunca obtinha resposta. Achou até que fazia graça. “Padre safado!” – pensou.
Só que de todo modo era aquilo muito estranho e então resolveu descer as escadas para abrir a porta de baixo para os X e Y pudessem ver. E X quando chegou lá, muito esperto que era, sabendo dos hábitos estranhos de Bethânia, concluiu que o padre havia sido raptado. Y, que era todo ouvidos, entendeu o que deveria fazer e saiu correndo, com seu estilingue na mão, para telefonar à polícia. Prontamente foram lá. O padre escreveu o que aconteceu e um policial mais descontrolado chegou a gargalhar histericamente daquilo. Nada se resolveu, pois não era do feitio dos investigadores solucionar todos os casos, pois se assim fosse, talvez um dia eles não tivessem mais emprego.
O padre, a despeito de tudo, hoje ainda reza as missas para alegrias dos surdos, pois ela é celebrada a partir da linguagem de libras!
Se esta história não pode ser descrita como um padrão nas histórias desse louco, que até o momento não citei o nome, isto se deve ao fato de que também não era diretamente coisa da cabeça dele. Dizia ter sido para ele contada por um tal Carlos, que vivia nos seus sonhos, e ser da noite que era, muito sabia do que acontecia nos submundos da cidade que morava.
Carlos, o boêmio, ficava a conversar com o louco, quando este, caído em sono estava. Por vezes o louco lhe mandava ir embora, mas teimoso que era, Carlos nunca obedecia. E assim, ficava a narrar suas aventuras noturnas, enquanto se embebedava naqueles bordéis, bares e inferninhos de imaginação. Ele dirigia a palavra ao louco sempre olhando para o céu e não era raro quando alguém lhe perguntava se estaria falando com Deus. Ele então respondia: “Por favor, respeitem nosso Senhor! Jamais seria Ele um tolo gigante doente das idéias!”. E assim caíam na gargalhada uns homens com faces parecidas que só se distinguia uma das outras pelas barbas mal-feitas de uns e pela quantidade de dentes que faltava em outros.
(Continua...)
Veja: Parte 1 de "Conto do Louco Sem Nome"
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quarta-feira, 22 de julho de 2009
Conto do louco sem nome - Parte 1
Era ele um louco que sequer se lembrava há quanto tempo que já era louco. Às manhãs saía para qualquer lugar movimentado como a rodoviária ou os terminais de ônibus urbanos. Ali podia sempre encontrar gente para ouvir seus causos.
As reações das pessoas quando ouviam aquelas histórias eram muitas. Alguns de pronto saíam de perto. Outros ouviam até o fim atenciosamente, mas, geralmente, por sentirem pena daquele que julgavam não ter pleno domínio de suas faculdades mentais. Tantos mais gargalhavam e zombeteavam dizendo que não passavam de estúpidas invenções de uma mente insana. Certamente, até mesmo aquela que parecesse a mais nobre das atitudes, sempre era motivada por uma idéia de que a loucura seria um grande mal.
O fato é que apesar de serem engenhosas as palavras daquele homem, de nada tinham valor, pois era ele um louco! E loucos quase nunca são levados em consideração. São tidos como abjetos demais para uma sociedade em que se preza a padronização e a sistematização dos costumes e das ações. Aliás, a própria loucura não seria nada mais, nada menos do que um desvio dos modelos de condutas tidas como legítimas?
Porém nada disso importa. Não importam essas minhas interpretações a respeito do que seria a loucura, ou meus julgamentos acerca de moralidade ou ainda qualquer opinião pessoal. O que deveria fazer seria penetrar na mente de meu personagem que não existe e, pelo menos tentar, a partir disso escrever uma história original e interessante. Pois bem... É o que me porei a fazer, sem, no entanto, me policiar por qualquer digressão que venha a cometer. Alguns vícios, quando se escreve, são quase inevitáveis, tanto mais no caso de um amador, como eu sou.
Para aquele louco, todo dia era um novo dia desconexo do anterior. Não tinha na cabeça essa noção de progressão da realidade que trazemos conosco. Se hoje era dia vinte e seis não teria problema se amanhã fosse dia dois. Tampouco se o mês que precedesse maio fosse outubro. Ou ainda que ano dois mil se desse ao mesmo tempo em que ocorria o ano cinco mil e trezentos e trinta e três. E se ninguém falava de algum mês que desse a seqüência ao décimo segundo, ou de algum dia após o trigésimo primeiro, não hesitava em se situar às vezes no dia quarenta e três de quinzembro.
Deste modo, era quase inevitável o gracejo daqueles que ouviam o modo bastante característico que ele começava suas narrativas, que não raro fazia em cima de um banco situado em lugares, como disse anteriormente, bem cheios de gente. Dizia: “Era trinta e três de quarentembro do ano três antes de depois do dia que Maria concebeu o menino filho de Deus...”.
Na cabeça da gente comum aquilo era hilário e assim logo já desqualificavam aquele homem. Viam-no como um demente coberto por vestes maltrapilhas e que trazia nos pés sapatos sujos e já bem gastos. Além disso, era cômico vê-lo falar daqueles tempos com periodizações absurdas e que nada tinham a ver com aquilo que estavam acostumados a ver nos relógios e nos calendários.
Também pouco interessava o que ele viria a dizer depois. Eram só palavras.... Talvez pudessem até serem tidas como belas se viessem da pena, da esferográfica, da máquina de escrever ou do teclado do computador de um renomado escritor. Mas vindas da boca daquele homem... Nunca chegariam perto do belo trabalho criado por um intelectual e tampouco teriam a graça da legitima poesia.
Mas se era aquele um homem tido como louco e, se as atitudes loucas são muito distintas das ações que se tem como normais, não é de se admirar que ele pouco se importava com alguma aceitação. O artista, o escritor, o poeta, o mecânico, o eletricista, o executivo, a cabeleireira e o músico, por mais que se pretendam inovadores e vanguardistas, sempre buscam alguma aprovação, seja esta advinda de uma só pessoa, de pequenos grupos ou das grandes massas. Já os loucos não têm esse tipo preocupação. Fazem o que fazem porque simplesmente isso lhes deu vontade.
Por isso, dia nenhum ele falhava àquele contar de histórias que tanto o alegrava pelo seu simples fazer. Era uma libertação, talvez não de si, mas tinha esse sentido de alguma forma, pois em sua mente estavam mesmo aprisionados aqueles personagens, lugares e épocas que costumava descrever. Porém, ressalto que não me refiro a essa abstrata e batida concepção que os escritores costumam ter do seu processo de criação. Para ele não tinha esse sentido de “produtos da imaginação”. Tudo realmente se vivificava e fazia parte do universo daquele homem.
Por isso não era raro, quando no meio de alguma história, ele cumprimentasse alguém que os que o observavam não viam, mas se tivessem prestado realmente atenção no que contara em algum momento anterior, teriam percebido que esse estranho “alguém” fazia parte daquele mundo que narrava. Inclusive, quando havia poucas pessoas e essas em face às suas incapacidades de enxergarem aquele qualquer ao qual o homem se dirigia, mas se apercebendo de que delas mesmo não se tratava, encontravam mais motivos de escárnio para com ele.
(Continua...)

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