Mostrando postagens com marcador Reflexões Tolas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reflexões Tolas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de abril de 2015

questões burguesas

créditos pela imagem: Jose Maria Cuellar



você ou eu sou/somos só uma imagem
uma conveniente e fugidia ilusão festejante
atrapalhada pela chuva dos confetes de realidade
(nem toda festa é alegria)

diego leão






quinta-feira, 5 de setembro de 2013

de fora para mim pro que devemos ser

O povo não é alienado. Na verdade, o povo, principalmente sua parte mais pauperizada, tem um senso de concretude que vai muito além do que pensam muitos dos que dizem como ele deve agir e saber. Sim, porque o povo encontra estratégias para sobreviver, para não passar fome, para não passar frio, enfim, para garantir a continuidade de seus amanhãs.
 Por vezes, isso não se conclui em manter-se na legalidade.  Por isso as trilhas avessas à norma são uma das possíveis saídas quando os salários não chegam ao fim de mês e as contas sempre batem mais que os parcos trocados juntados pelo suor de seguidas jornadas laborais extenuantes.
O povo sabe da importância do trabalho e de sua relação com o capital. E o mede isso todo dia que lhe falta o pão. O seu suor salgado escorrendo da face ao corpo atesta desejo por dias maiores. Não maiores em tempo. Mas maiores em vida. Pois a vida não é medida numa contagem de minutos, horas ou anos. É tão simplesmente a possibilidade de se rir, chorar, apaixonar, entristecer, sentir. Ver que as cores vão para além das caixas de lápis, das sinestesias artificiais. O Estado deveria garantir a toda cidadã e a todo cidadão sentir o cheiro da chuva que cai na terra que está seca há meses. Ou ainda que toda criança tivesse direito a voar juntinho com as pipas que empina. Que bobagem alguém vai me dizer... céu é tão longe, né? E as pipas nem aguentam o peso. Mas esse céu é bem pequenino e próximo perto das nossas fantasias e do nosso desejo de sermos o que quisermos. Nosso peso pode sublimar aos encantos das nuvens que se esculturam aos nossos olhos.
Deito-me de umbigo pro sol e olho o horizonte lá no alto e outra vez me lembro do povo. É que eu nunca me esqueço pra sempre ter uma nova certeza. A mais nova é que o socialismo deveria se resumir no seguinte termo: a obcecada busca por plenitude humana. Pois se isso não for qual haveria de ser sua serventia?
O maior tumor da sociedade que vivemos, e que só cresce, é o descarado roubo de subjetividade. Confundimo-nos com os produtos, com as mercadorias, com os elixires que supostamente expressariam o sabor que gostaríamos de nos degustar. A autenticidade pode ser dada como moeda de troca para o novo barato de agora com obsolescência previamente programada.
A rotina é um entremeado de grades que rodeiam nossos passos. Mas meus pés calejados não se conformam com esses terrenos tão planos. Eles foram fabricados para as montanhas, para os relevos íngremes, inclusive aqueles medidos nas batidas do coração. Quantos corações quis entrar e eles se deram em propriedade privada ou até privativa. Pois bem! Deveriam socializar os corações. Expropriar todos aqueles que se fazem latifúndio, monocultura, terra improdutiva. Um coração deveria ser livre pra quem quisesse entrar por tempo indefinido. Não deveria ser uma prisão, nem uma fortaleza. Deveria se abrir e se deixar ser aberto.
“É terminantemente proibido que o consumo individual de mundo de ultrapasse a quantidade necessária à vida digna do outro”. Acho que eles se esqueceram de escrever isso na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Capaz de ser porque ela não é para todas e todos de nossa espécie. Ou porque sua universalidade é limitada a algumas poucas galáxias.


Cada uma de nossas respiradas deveria de ser uma oração. Como uma prece que aspira de fora para dentro e é devolvida em louvor e gratidão. Mesmo as angústias que apertam a garganta podem ser expiradas em ternuras pelo instante. Dai-me amor. Dai-me vida. Dai-me candor. Por todos e por mim. Por nós.

domingo, 28 de outubro de 2012

Kafka e Crumb




Semana passada, assisti o documentário Crumb (1994, 120 min., direção de Terry Zwigoff). Coincidentemente, por esses acaso, foi parar em minhas mãos dias depois o livro em quadrinhos Kafka de Crumb. Acho que veio bem a calhar essa ordem dada pelo cosmos...

Conheci Crumb pelas muitas referências ao mítico “Fritz, the cat”, o gato fofinho, porém subversivo, drogadão e obsceno à cara do estereótipo que costumamos ter dos anos 1960. Lembro ainda do álbum Cheap Trills da banda Big Brother & The Holding Company (que, além do que pouco sei era banda  em que cantava Janis Joplin, antes da carreira solo).

Blues é uma coletânea de quadrinhos muito bacana que fala da relação do autor não só com este ritmo especificamente, mas com a própria música de modo geral, como: suas andanças como colecionador de raridades do blues em pequenas cidadezinhas do sul estadunidense e suas experiências com a banda - que tocava em eventos como casamentos, formaturas e coisas do gênera (aqui no Brasil, a expressão máxima são as tiazinhas em fim de noite dançando freneticamente a canção do Cupido ou então se banhando ao brilho da lua).




Essas poucas referências já criam a ideia de um Crumb, que no mínimo seria uma figura muito singular. Mas, Robert Crumb é gente muito mais excêntrica do que esse lero-lero que mandei até aqui. Muito do documentário é focado em sua família, destacando-se os dois irmãos, os quais fazem Crumb parecer poço de águas tranquilas. O mais velho, com uma espécie de fobia social, ao ponto de não sair do quarto há décadas e o outro irmão, uma espécie de mestre iogue fanático, que se deita em cama de pregos e tem hábito de engolir um cordão e puxá-lo novamente para "limpar" suas entranhas. Rejeitados na escola, costumavam estar juntos sempre. Foi com seus irmãos "estranhos" que muito do talento de R. Crumb com os quadrinhos começou aflorar. Chegaram a editar quadrinhos artesanais conjuntamente.

 Crumb gostava de desenhar pessoas de modo bem característico. Tinha medo, rejeição e raiva do feminino, apesar de deseja-las. Mas é relevante notar que suas mulheres são no mais das vezes figuras poderosas, com formas que, por sua vez, costumam jogar pra escanteio a padronização da beleza feminina. A despeito das críticas, em relação a isso, acho que Crumb em sua sinceridade e maluquice, mais estava a par de descortinar preconceitos latentes na sociedade, do que propriamente de ser um misógino, como dizem, ou algo do tipo. Num quadrinho, que integra “Blues”, de uma página que ele faz corar de vergonha qualquer militante libertário que no fundo, no fundo se revela machista. Faz refletir um pouco sobre nossa hipocrisia, e a necessidade de construirmos outras maneiras de agir, mais sensíveis à alteridade e, consequentemente, do modo mais pleno no respeito ao outro.

Kafka era também homem de fobias. Cheio de receios quanto a mulheres, só se permitiu amar duas vezes (ou para ser mais certeiro, uma vez e meia). No mais, as esquivava através de proposições de namoro à distância, quase restritos a cartas, e tinha costume se depreciar, se dizer indigno da vida e da felicidade. 

Era judeu. Isso no início do século XX, num país dividido entre checos e alemães, mas com ambas as partes antissemitas. Pra piorar não se reconhecia judeu, checo ou alemão. E, nesse sem fim de contradições, queria largar tudo e ir pra Palestina, que então judeus começavam a migrar, ao passo que negava seu próprio judaísmo.

Como Crumb, era oprimido pelo pai, um comerciante, que achava que o filho seria uma desgraça. Kafka chegou a escrever um livro que seria sua Carta ao Pai, no qual lhe dizia por que era tão difícil a relação. Contudo, temeroso que era do pai, não a entregou pessoalmente. Deu-a para mãe, que logo lhe devolveu. Kafka não parecia ser homem de forças...

Em determinada ótica Kafka e Crumb se confundem. Se o primeiro é tido como figura reservada e contida. Crumb, por sua vez, chega a ter sua vida tão publicizada a ponto dessas suas fraquezas, extravagâncias e perversões sexuais serem expostas em documentário que participa ativamente.

Contudo, esses quadrinhos que procuro tratar, não são trabalho solo de um Crumb inspirado, e há muito do roteirista David Zane Marowitz com primoroso texto e trabalho de pesquisa e elaboração. Chega ser uma lição de criatividade de como se construir uma narrativa articulando elementos biográficos com a obra do autor. Sucessivamente, contos e livros como “A Metamorfose”, “O Castelo”, “O Processo” e “A Toca” ganham sentido para uma interessantíssima caracterização do personagem principal que é o próprio Kafka. Ou seja, ao contrário do que se poderia imaginar (e eu quase tinha certeza) não é uma mera compilação de textos transmutados em quadrinhos, como costuma ser no mais do mesmo. Mais que isso, é uma belíssima biografia enriquecida com o traço certeiro e afinada com o universo kafkiano que só alguém com a personalidade insana de Crumb poderia realizar.


Aliás, por falar em kafkiano, termo tão recorrentemente usado quase beirando ao senso comum, é algo discutido pelos autores. O tal “kafkiano” seria mal interpretado pelos “açougueiros da cultura moderna” a ponto de ser tido como “existencialista”, “uma teoria do absurdo”, “o caos”, ou mesmo “a busca incansável de Deus” (como queria o amigo que publicou, post mortem, a parte de sua obra então inédita). Para Crumb e Marowitz, kafkiano, é mais do que isso, mesmo que tenha muito desse ar melancólico e de autocondenação, é dotado de humor e que tem a “intricada ironia judaica que se esconde no corpo e obra de Kafka” (p. 11).

Dentre semelhanças (e diferenças), Kafka e Crumb se associam por serem reversos à normatização. Não se enquadram na imposição de valores, na rigidez dogmática das formas de agir, nem aos seus próprios tempos. O louco Crumb, do documentário, chega a revelar que apesar de ter vivido literalmente a lisergia sessentista, não se adequava muito àquilo e ao contrário das dicas de como poderia se tornar mais atraente e “comer quem desejasse”, não aderiu ao visual hippie em voga. Preferia trajar seu chapéu e ternos “antiquados”.  Kafka era frágil, vegetariano, com mil e uma doenças, cheio de manias. Tudo aquilo que não queria a virilidade daqueles tempos de eugenia racial e culto ao corpo brotando por todos os lados.

Considero a obra de um e outro como questionadoras do mundo e não à toa Kafka, que chegou a ter sua obra censurada pelos estalinistas, renasceu das cinzas por sua constante crítica ao poder e autoritarismo no alvorecer da Primavera em Praga.

Rejeitam, cada um a sua maneira, o absolutismo da realidade (ou a imposição de uma dada forma de realismo), e apesar de epidermicamente aparentarem serem controversos, podem ser lidos como reflexos espelhado. Em tempos que os projetos com perspectivas diferenciadas para o mundo encontram-se abalados, caras como Kafka e Crumb podem nos ajudar a matutar de um jeito diferente...

sábado, 27 de outubro de 2012

Meus abris




Tua vida agora tá dividido em dois. Dos vinte anos que tu já viveu. E o pouco tempo que te resta pra viver”.

É sentença dada a Tonho, da família Breves, pelo senhor Ferreira em razão da morte de seu filho, no filme Abril Despedaçado.

Abril é mês estranho para mim. É pouquinho depois do início de meu novo ciclo astrológico. Uma das possíveis origens da palavra é o latim Aprilis, que significa abrir. E, se Vênus abunda em meu mapa astral, Abril é também derivado de Apros, nome etrusco da deusa do amor e em grego antigo derivaria da denominação da espuma marinha que Afrodite teria nascido.

É, para mim, cheio de vida e sofrimento. Muitos meses de abril que vivi me impregnaram lembrança inapagável. Foi neles que minhas duas avós faleceram. Neles que decidi renascer de minhas máculas interiores. Neles que encontrei e sofri paixões.

Por falar em paixões, a sentença dada a Tonho, não se finda aí. É uma privação dessa experiência de amar, de se apaixonar: “Conheceu o amor? E nem vai conhecer...”.

O filme com sua fotografia iluminada, esconde o sombrio, que versa daquele tempo marcado, que se esvai na ampulheta, de areia feita a cor do chão semiárido: “Cada vez que o relógio contar: Mais um, mais um, mais um. Na verdade ele te diz: Menos um, menos um, menos um.”. 

É areia seca, grudada, em gretas de contração, lavada de sangue, secular, de tantos homens morridos e que parece que hão de morrer. A briga nem é de Tonho, mas há ele de ser honrado, como seu pai sempre lhe diz.

Seu pai... homem duro, dono da bolandeira, que os Ferreira deixaram sem terra, sem nada, mas que só tem essa tal honra.  A Tonho resta ao menos cobrar o sangue de seu irmão mais velho já morto, como se fosse obrigação. E, obrigação é pagar com vida, se necessário depois de acertadas as contas. Ao próximo Ferreira cabe também seguir carma-vingança, assassinar a Tonho, que assassinara seu irmão. 

Tonho usa fita preta em ombro  pra sinalizar sua morte: quando for noite de lua cheia e o sangue da camisa daquele que matou amarelar, poderá se efetivar sua sentença.

Tonho tem um irmão vivo, com nome que não se sabe, mas que é chamado de Menino.

Menino sonha com a sereia que o leve pra longe e não entende porque aquilo acontece.  Não lhe é possível entender porque dessa mortandade toda e a ganância expressa na briga de famílias por terra, como lhe diz certa feita o homem do circo. Queria ser peixe do mar, para ficar juntinho da sua sereia, mas o máximo de alcunha que conseguiu foi ser batizado Pacu. Sendo peixe de rio parece restar apenas o desejo inconsumável de cair  pelo destino na imensidão oceânica, pra poder viver amor.

Tonho é jovem de sonho. Se seu pai é homem bruto, que de tão duro faz perder o riso de toda família com a própria gargalhada. Tonho quer viver esse amor que foi sentenciado não viver. Amor que acaba sendo por essa tal sereia, que o Menino ama também em sonho. É sereia de luz na escuridão. É Clara, lampejo luminoso, que vem lhe dar graça e possível redenção. É desabrochar de alegria, de ver em círculo e ciclos rodopiando agarrada à corda, iluminada pelos raios de sol, até eles mesmos caírem. É o que não parece poder dar certo, mas que deveria pra graça da vida, mesmo ela assim escoando através do vidro desenhado.

Mas o Abril chuvoso de sangue não parece poder ter a brancura da lua. Ela é cheia, mas é despedaçada, pois ali morrem possibilidades de vida.  Feito ao ar sufocado pela bronquite que sentia Bandeira da vida inteira que poderia ter sido e que não foi”, dividido em dois ou mais, ou até em estilhaços, Abril é quando as ilusões quedam por peso da realidade. Despedaça-se para os ontens se abrirem em amanhãs, deveras incertos, mas que nutrem a esperança de que esse tal outono que caem folhas, e que mal começou se finde logo, a despeito de saber que na sequência virá inverno, com toda sua dureza...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Invólucro de dedos

às conversas perdidas no passado encontradas em hoje.

Em invólucro
apertada
entre dedos
quis se fechar
Lacrada
invulnerável
inefável

Quis se personificar
solidão em essência
apertada
vendo nas frestas
da grande mão
lampejos de vidas outras

Quis nelas tocar
Seu querer de ser só
viu-se esvaecer
naquilo que olhava
E que era um tantinho
em que se agregava.

Nisso se moldava
se desprendia
membro, membro, cabeça
um por um
em paulatino saía.

E uma por uma
também não mais foi
E se transmutava
numa mais umas
Pessoas várias
que trazia pra si.

Se se isolava
em retraimento
agora se perdia
Mas sentia um desejo
de encontrar a si mesma
que jazia em espírito
ou num ponto de ônibus
desses quaisquer
onde está estacionado o passado.

Licença Creative Commons
A obra
Invólucro de dedos de Diego? Chuck? Glommer? foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição 3.0 Brasil.
Com base na obra disponível em solucomental.blogspot.com.
Podem estar disponíveis permissões adicionais ao âmbito desta licença em solucomental.blogspot.com.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Inoperância rítmica acentuada.

Créditos pela imagem: * NightHawk24 *


Um dia me perguntaram
Por que não grafava poesia assim?
Por que não a "construía"
- como gostavam de dizer -
na batida da asa ritmada?

Eu não dizia
mas muito queria dizer
que simples demais seria a questão.
Que era por não ser
a poesia um edifício
mesmo sendo erigida
na superposição de linhas
uma após outra na vertical.

E que o ritmo ajeitado
que não era regra
porém muito costumeiro
era uma belezura
Mas não era tudo em si
Por si carecia de um algo
que pudesse ser um pouco de mundo,
vestígios do vital.

Eu mesmo rimei umas duas vezes
Uma foi sem querer
A outra foi plágio inconsciente
que os corujões chamam referência

Por essas tais vezes
não recebi elogios
pra apetecer minha egocentria
Tampouco mereci deferência.

Amassei o caderno
com muitos dos escritos
mandei-os pro inferno
Junto com meu tênis e meu terno
que nunca os tive.

No caminhão dos lixeiros
também mandei passear
por longos tempos indefinidos
as formulazinhas de bem escrever
E assim preteri o belo
pra falar o que bem entender
modelado e modulado
por meu próprio fazer

Deixei de lado o ato da construção
escolhi não a Conceição,
mas a arte da confecção.
Poderia ter escolhido
ser fabril e ser febril
Na levada continuada,
cubificada, planificada, planejada,
feitura de arquiteto ou engenheiro.

Eu preferi ser artesão
e fazer de cada obra evento único
que mesmo com semelhar de finalidades
do cotidiano dissesse mais que trivialidades.

Findo por aqui,
numa sensatez bem dosada
é que vai ver
eu nunca aderi ao balançar
dessa tal asa ritmada
pra não sugar à exaustão
a magnitude de seu sangue eterno.

Licença Creative Commons
A obra
Inoperância rítmica acentuada. de Diego? Chuck? Glommer? foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em solucomental.blogspot.com.
Permissões adicionais ao âmbito desta licença podem estar disponíveis em solucomental.blogspot.com.

sábado, 5 de março de 2011

Espuma, sabão e as utopias contra as distopias.

créditos pela imagem: TheGirl78


Todo sectarismo já nasce morto
na política, no amor e na vida.
Todo descrédito pelo outro também
Mesmo que os santos digam amém

Toda tolice será perdoada
até que se tenha humildade
para reconhecer o tolo que se é

Mas nenhuma estupidez será perdoada
quando for feita visando o bem de si só

Logo, logo será ceifado
no corte seguido degolado
Estripado e esquartejado
Não pelas armas
Não pelo físico
Mas na artéria da alma

Padece de vitalidade
A rubra cor que pinta o céu
é a mesma que na rua se permite pintar
as portas dos barracos nas vielas estreitas
das ladeiras íngremes de violência
geradas pelos tapas que dão os opressores
nas faces tristes
justo daqueles que geram sua fortuna

Por agora só resta esfregar
limpar do chão essa vermelhidão
Misturam-se os líquidos
Sangue e sabão.
Corre a vida lá fora
Enquanto teorizamos a revolução.

Licença Creative Commons
A obra
Espuma, sabão e as utopias contra as distopias. de Diego? Chuck? Glommer? foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em www.solucomental.blogspot.com.
Permissões adicionais ao âmbito desta licença podem estar disponíveis em solucomental.blogspot.com.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Revirar a volta

Créditos pela imagem: FrauBlucher

Meu escrever é busca insistente

procurar de mim mesmo

envolto em voltas e mais voltas

dinamitar de verborragias

diarréia palavresca verborréia


Meu escrever é tentativa
frustada de captação de meu viver
Turvo, insólito, despreparado
abraça nebulosas do inesperado

Exaspera-me bruta fera
Assim só pra combinar
primeira e última palavra
do verso meio morto
Todo tolo.

Surpreende!
Diz que sou delinquente!
Meu delito foi te amar
Desconcordantemente
o verbo e o pronome.

Assim disse ela
que respondia pela alcunha de Norma

Norminha para os íntimos
Norma Culta para os comuns
como eu sou, como você deve ser
Tão regrada e sistemática
mas descompassada
perto do fervilhar das línguas
que reinventavam a fonética

a gramática e a própria vida

Bastava um corriqueiro sair à rua

Mesmo assim eu a amava
Ela, a Norma...
que de algum modo ajudou a me fazer
Só lamentava isso dela
Essa tal coisa se enclausurar

se alhear tantas vezes
ao tombar da tradição pelo novo
à reinvenção das negações do passado

Um texto é cheio de reviravoltas a cada instante
Assim como nossa estada sobre (ou sob) a terra também é.


Licença Creative Commons A obra Revirar a volta de Diego? Chuck? Glommer? foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Brasil.
Com base na obra disponível em solucomental.blogspot.com.
Permissões adicionais ao âmbito desta licença podem estar disponíveis em solucomental.blogspot.com.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

valerá

Crédito pela imagem: depininiped


Se te sufocas
o ar que respiras
muito é inevitável
É hora de mudar

Doerá se fizer parte de ti
Sim, eu sei que doerá
Mas
extirpa de teu peito
arranca de teu âmago
Faz brotar que valerá
Pouco custará

Encolhe em ti mesmo
Depois espicha
Espicha a ti mesmo
Lava-te nesse borrão
Borrão de sentimento
tão mais ameno
tão mais lisonjeiro
tão mais de esperança

Para um sonho continuo
espreguiçarás!
Abre o braços
Deixa-te vibrar
encontra o alento


Eu sei que sim
não é fácil acordar
Mas te digo
não, não custará
Um tanto muito valerá
Eu sei que vai passar

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Rojo - Vermelho - Red




Rubra cor do inferno...
Será um belo por-do-sol?
Rosas ajuntadinhas em arranjos florais?
Sangue que lava o chão de dor?
Proletariado fazendo revolução?
Teus olhos lacrimosamente lavados?

Rubra cor do inferno...
Inferno maior é bem aqui.

Licença Creative Commons
Rojo - Vermelho - Red by Diego? Chuck? Glommer? is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compatilhamento pela mesma licença 3.0 Unported License.
Based on a work at solucomental.blogspot.com.
Permissions beyond the scope of this license may be available at solucomental.blogspot.com.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Inatomizado


créditos pela imagem: f3ktion


Eu não sou um indivíduo

Indivíduos são únicos
são particulas isoladas

e eu não quero ser assim

Eu não sou um átomo
Não sou lua sozinha da Terra
Tampouco a piracema do ano
Não sou um evento
de quinta ou décima
vigésima categoria

Talvez seja sujeito
de mim dos outros
para os outros
mesmo que eles
não sejam de mim


Sou caos da alegria

Melancolia organizada
Sou vícios emocionais
Torpores conjunturais
Implosão das estruturas

Sou o que dói
pra quem finge
não ser
ver e não ter

Sou aquele que não é você
mas que encontra sentido
em função do próprio viver
seu e de todos os seres
inumanos ou não


Licença Creative Commons
Inatomizado by Diego? Chuck? Glommer? is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compatilhamento pela mesma licença 3.0 Unported License.
Based on a work at solucomental.blogspot.com.
Permissions beyond the scope of this license may be available at solucomental.blogspot.com.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Assim foi e é

De súbito assim
Foi assim que foi
E eu nem notei
Os dias são segundos
Não dão para nada
Nem pra dizer
Ainda mais quando se é tão bobo

Eu tenho medo
do que virá
sempre foi
espero que
nem sempre será

Os ditos e os não ditos
não raro são malditos
Mas benditos sejam
os que dizem
Pois seus corações
não se apertam
com o que quiseram que fosse
e nunca se atreveram

Eu pouco disse
bastante menos do que quis
Agora sinto dor no peito
Hey, cadê você flor-de-lis?

Perfuma o horizonte
Perfuma a minha vida
Mas adivinha
Pois se depender de mim
Nunca saberá
Nunca saberá que isso quis

Porque tenho medo
Medo do horror
Do terror e mais ainda
do amor

Por isso sou volátil
Por isso nunca sei
Nunca sei pra onde vou
Confundo-me agora
Antes e depois

Às vezes o que escrevo
me soa tão repetitivo
Vai ver que é porque
vivo sempre ciclos de dor
E tento traçá-los assim
Tortamente verticais
Horizontalmente lineares

Sorrio pra todos
menos pra mim.

euqueninguemsabe
Uberlândia, 18/10/2010. Por volta das 23:35 em horário de verão numa segunda-feira de sentimentos de inverno.

domingo, 17 de outubro de 2010

Há vazio
...
Você nunca se sentiu assim?

Há vazio
...
Você me entende?

Há vazio
...
Vou embora.

Há vazio
...
Só vazio

euqueninguemsabe
Uberlândia, 17-10-10. 12:45 h.

domingo, 3 de outubro de 2010

Vivendo as utopias contra as distopias nos trópicos e para além deles

Créditos pela imagem: pablodf


Quando os discursos se desencontrarem mais uma vez, talvez não haja voz. O silêncio talvez diga algo. Muito se gritou, muito se disse, pouco se fez até ali.
Nesse momento se saturará... o grito do oprimido, e daqueles que diziam ao lado dele estar. O grito do opressor, então extirpado de sua condição.
Nesse momento, política não se fará mais em caixinhas, depositórios de papeizinhos, ou em calculadoras sofisticadas. Se fará no dia-a-dia em cada ato público, no trabalho, na mercearia e na vizinhança.
Nesse momento, todos os dias serão eleitorais. Não daqueles que decidiram por você por um tempo indeterminado. Mas serão vislumbrados como eleições perenes e continuadas de sua vida. Você não elegerá indivíduos, elegerá o seu direito de ser, de agir e ao mesmo tempo se solidarizará com os seus. Será humano. Será pleno. Será vivo. Não será mais moribundo. Não mais se reprimirá por visualizar realidades utópicas. A distopia não será mais um tubarão pronto a emergir em algum trópico. Nem acima, nem abaixo ou na linha do país sulamericano se permitirá o autoritarismo, ou a doutrinação do outro.
Se reconhecerá que humanos somos. Que sociedade somos. Que dos outros precisamos. E para nos prolongarmos é preciso irmos além de um pensamento sobre nossa própria vida. Não seremos mais mesquinhos. Não seremos mais egoístas. Não seremos mais tolos. Ou pensaremos que revolucionar é coisa de babacas.
Não precisaremos também que pensem por nós. Não precisaremos que façam por nós. Juntos faremos.
Eu olharei e você olhará e verá que podemos todos viver bem e que todos os luxos são falsidades imagéticas de um lugar que não é nosso.
Nesse dia eu não votarei em Dilmas, em Motosserras, em Marinas ou Agripinas. Nem em Plínios, Salgados, Doces ou Sampaios. Muito menos em Pimentas, em Ruis, Barbosas, Costas ou Cominhos. Também não votarei em Zé Marias ou em Marias Josés. E repudiarei vigorosamente os fascistas recalcados sob a égide musicada de Fidelix e mais ainda de Eimmaéis.
Nessa bandeira estrelada, sob o azul, o verde e o amarelo-ouro verte e verterá por tanto tempo ainda muito sangue. Talvez tenha chegado a hora de tirar as suas cores. Talvez tenha chegado a hora de aboli-la.
Talvez seja a hora de estendê-la nua e crua destituída de toda sua simbologia.
Os garotos e garotas mortos, física ou mentalmente, de todos os dias ressuscitarão revelarão um olhar iluminado, depois de sempre se sentirem cegos por uma venda que mal sabiam que os privava de visualizar o que estava bem às suas frentes.
Eu sei, pois comigo sempre foi assim. Sempre tentarão me privar disso. Tentaram me castrar os sonhos desde que eu nasci. Firme e forte eu fingia ter acreditado que o que me diziam era verdade. Mas eu era só desconfiança. Desbravei o mundo, me perdi por um milhão de tantas vezes. Eu mesmo me confundia e até este momento estou a me encontrar.
Só não permito que me privem de tentar.
Quando isso fizerem talvez seja incapacitado até de sentir. Esquartejado sentimentalmente então não seria mais que simples coisa, pois o sentir e dele experimentar são um amálgama indissociável.
Mas quanto ao silêncio que me referia. Você deve estar a matutar: ele não diz nada, como se converteria no próprio ato de transformar?
É que aqui não falo de voz. Mas de atitude contemplativa. Os gritos de antes só eram necessários porque nos digladiávamos. Preferíamos socar o outro, por mais próximo que fosse, antes de ouvi-lo.
Paradoxalmente, nesse silêncio haverá sim voz. O que não haverá são os surdos funcionais.

Uberlândia, 03/10/2010. Quase às 23:00 h. No mesmo dia que mais uma vez se destacou alguém pra decidir a sua vida e seu direito de ser. Poucos dias depois que quando se pensava que não seriam mais tão audaciosos, tentaram perpetrar um golpe militar num país chamado Equador. Há alguns meses desde quando começaram a expulsar ciganos do país que dizem ser grande gerador da erudição e sabedoria para o mundo moderno. Há alguns anos desde que comecei a me despojar da crença de que as coisas eram sólidas e impermeáveis. Um velho barbudo, que não era Santa Claus, me disse que elas sempre se desmancham no ar...


Licença Creative Commons
Vivendo as utopias contra as distopias nos trópicos e para além deles by Diego?Chuck?Glommer? is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compatilhamento pela mesma licença 3.0 Unported License.
Based on a work at
solucomental.blogspot.com.
Permissions beyond the scope of this license may be available at
solucomental.blogspot.com.

sábado, 2 de outubro de 2010

É que há

créditos pela imagem: Juliano Mattos


Depois que a chuva acabar
Restará
Lixos pelo chão
As poças logo secam

Depois que o som acabar
E antes do sol raiar
Você se sentirá só
Mesmo junto a tantos

Em meio a muitos
Muita solidão é que há


Licença Creative Commons
É que há by Diego? Chuck? Glommer? is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compatilhamento pela mesma licença 3.0 Unported License.
Based on a work at solucomental.blogspot.com.
Permissions beyond the scope of this license may be available at solucomental.blogspot.com.

domingo, 19 de setembro de 2010

Temporiza( a )dor


Imagem: marta.tci


Experimente o elixir
Da curta vida
Mais curta que curta-metragem
Posso advertir que
Só porque é curta
Não é proibido que a curta.

Palavras, palavras, palavras
Repetidas, repetidas, repetidas
Sem nexo, com nexo, conexo, desconexo
Aloco-as em parcas arrumações abstratas
Desarranjam-se em frações de esquecimento
Registrar é vicio dos desmemoriados

Flui o ontem em rios de hoje
O que se foi em águas do que virá
Pororoca das dez ilusões vindouras
Naufrágio das desilusões de outrora
Fugirei em meu barco numa outra hora
Para as bandas dessa correnteza
Que em lendas dizem que verte para o mar

Leio Confucio em seus ditames
Pena ser ele muito confuso
Para quem só é levado para um lugar
Que não imagina o que é
Mesmo questionando porquê
Como está ou onde vai se chegar

A brevidade não é coisa de idade
Se fosse, as crianças seriam assim
Jovens eternas mortas de tédio
Brincando em playgrounds atemporais
Pueris como os anjos celestiais

O velho não se angustiria com a morte
Estaria a cada segundo mais forte
Mesmo no peito tendo um corte
Profundo, intenso, ilógico e inesperado.

O tempo não é imaginário
Alguns se esquecem dele
Tentam aprisioná-lo
Fechá-lo em caixinhas especiais
Mas isso só funciona ali
Nas mentes que fingem que ele não existe
Enquanto ele as corrói sorrateiramente.


Licença Creative Commons
Temporizador by Diego? Chuck? Glommer? is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas 3.0 Unported License.
Based on a work at www.solucomental.blogspot.com.
Permissions beyond the scope of this license may be available at http://www.solucomental.blogspot.com/.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Foda-se.

créditos pela imagem: Miriam Cardoso

Queria escrever para desancar o choro que está guardado em mim não sei bem onde. Mas as palavras se escondem, se enfiam num buraco negro que dizem estar no meu estômago, bem depois de minhas tripas. Estão presas entre correntes de carne viva. Estão desnorteadas, desbaratadas, descortinadas, espancadas, intoxicadas e flageladas. Elas e as lágrimas precisam se desatar de tudo isso, mas nem mesmo a mais mortal das armas de corte, forjada pelas mãos e punhos do próprio Hefesto, é capaz de fazer com elas se deflagrem e possam se espalhar no ar, tal como sublima a pastilha naftalínica.

Não sei o que se passa. Não é amor, nem ódio, muito menos rancor ou saudade. Talvez seja a dor de há muito não sentir nada disso. Um sentimento de aflição por um esvaziar de si mesmo... Que lembra a areia paulatinamente caindo pela ampulheta.

Fausto, Fausto... Como te culpo por teres desejado tanto esse maldito progresso. E mais ainda por terdes criado essa tal modernidade que ninguém se reconhece. Eu só desejei a minha liberdade, mas tu sempre vieste com tuas ideias despóticas de falsidade e sequer te justificaste nalgum dia.

Deus, deus... Primeiramente em maiúsculas e depois em minúsculas, pois vós sempre fostes omisso. Enquanto ocorria toda a desgraça aqui no solo que és vossa criação, omitias-te como se não fosse de vosso interesse. Por isso de hoje em diante me recuso a fazer o pai nosso (que aliás nunca foi meu) e a clamar por vosso nome. Nunca me ouvistes. Por que ouvirias agora?

Perdoe-me por lhe dizer, mas ninguém o entenderá. Você andará perdido e tentará gritar por socorro, mas suas cordas vocais estarão dilaceradas e nada será real a não ser os seus tormentos. Digo por experiência própria. Palavras de quem sempre oscilou entre o ser e o não ser e só foi amado por não ser... Não ser o que é.

Sempre foi assim. Eles não ouvem. Não querem saber o porque de suas dores. Porém, você (e eu) nunca quis(emos) saber o que eles sentiam. Minha, sua hipocrisia se encontra bem no lugar onde fingimos não saber que ela ali está. Afinal sabemos (embora também finjamos não saber) que a maior das conveniências é adentrar na ilusão imbuído pelo espírito medíocre da inexorabilidade.

Logo mais a vida se esvai. Vai-se mudo pelo mundo. Seus sorrisos tão cálidos não dizem nada do que é. Suas estórias, histórias, conversas e piadas nunca foram o que quis dizer. Disse para os outros o que eles gostariam que pronunciasse. Sua palavra é imunda, deslocada e fragmentada. Carece de sentido para você mesmo e, para os outros, soa mais complicado que o gaguejar de alguém que fala aramaico.

Preciso ser o meu não ser. Um tanto agora e logo mais. Fala da vida o que bem quis, o grito exasperado de quem ousa ser muito feliz. Mas nem precisam me encantoar para que eu me entregue e me faça de desentendido do sofrimento de mim e o que está ao meu redor. Falta o doce cheiro que vem com o desabrochar de belas flores sincronizadas com o nascer do novo dia.

Preciso acabar esse texto. Os críticos sedentos por seu fim que se fodam, pois ele delicia a eles e deprime a mim.




Creative Commons License
Foda-se. by http://www.solucomental.blogspot.com is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 3.0 Brasil License.
Based on a work at www.solucomental.blogspot.com.
Permissions beyond the scope of this license may be available at http://www.solucomental.blogspot.com.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Cortado e composto: Pelo real, pelo sonho e o imaginado.


Créditos pela imagem: Adriano Agulló



Meu ser gera amores. Mas meu ser gera incômodos. Por sua... minha forma de ser, rancores, pudores, odores... Terrores. Às vezes quero me fechar pra vida, mas a vida não quer se fechar para mim. No instante seguinte, quero me abrir ao mundo, mas a cada palmo de chão que ando desesperado, portas pesadas de pesadelo se cerram bem junto a ponta do meu nariz.

Ontem mesmo queria ouvir música de ódio. Do mundo, de tudo. Hoje ouço som de melancolia. Talvez hoje seja ontem... eu não sou muito bom em estabelecer sequências. E quem sabe até sentia melancolia ontem e ódio hoje? Afinal, essas palavras foram para mim inventadas antes dos meus sentimentos. Será que é isso mesmo que sinto? Será que me condicionaram a pensar / me sentir assim? Será que sou um idiota divagando sobre inutilidades e nada mais? Será que nunca soube quem sou? Será? Será?!Será! Será. Será... Será?

Uma manhã e nada mais. Acordo bem como já há muito tempo não acordava. Farei então um acordo com o dia. Farei o que bem entender... Isolarei de tudo que me prende. Não gosto de prisões. Ou gosto? Afinal, se pensar bem talvez até sejam boas... Isto é, pelo menos quando se torna prisioneiro por vontade própria, pois aí, aprisionado me sentiria feliz.

Às vezes confundo minhas quimeras com o que percebo do real e nunca soube se alguns momentos do que penso que vivi, em minha cabeça sonhos eram. Em flashes de passado vejo tudo o que foi e o que não foi. Confundo-me nas fantasias da sexualidade latente para mim incompreensível nos meus sete anos. Será que com desejo eu a acariciei? Será que hoje nego tudo isso incrédulo de que poderia querê-la, quando ainda eu era tão infantil? Será que seu olhar assustado, que para mim ainda gravo, foi parte de uma noite em que eu dormia?
Perco-me nada mais.

Eu dormia... não nessa noite que não sei se foi uma noite ou um dia. Dormia quando via meu corpo dormir. Ficava ali olhando assustado. Eu olhando para ele e querendo para ele voltar enquanto flutuava pela casa tentando me encontrar. Sufocado decidia tentar deixar tudo acontecer. Mas não! Oh, céus! E, vejam que ironia! Eu que ateu já fui clamando pelos céus! Será que estaria me sentindo no inferno e procurando seu dicotômico para me agarrar? Não sei... Tentava então acordar pra me libertar, ou melhor, me livrar daquele sonho de realidade. Pensava que talvez fosse meu espírito se evadindo de mim. Isso me causava tanto temor. Nunca me dei bem com essas coisas do além, apesar de vivê-las à toda hora.

E os choques?! Ó, como eram cruéis! Sentia-os por todos os lados. De minhas entranhas até a epiderme. Brotavam do meu meio como circunferências de luz e dor e então se espalhavam. E eu ali, meu outro eu, que de carne não parecia ser, desejando em mim (ou em nós) se reencontrar. Mas não conseguíamos. Meu eu que na cama estava, e que presunçosamente se dizia ser eu em verdade, não recebia de seus membros os comandos de sua mente. Era como se estivesse atado por cordas mágicas invisíveis.

Era tudo tão horrível! Por fim, depois de muito lutar com o que parecia jamais findar, então eu acordava (ou entrava em outro sonho?) e sentia tanta dor. Na cabeça e uma dor desordenada que não sei nem explicar, que só servia para me deixar transtornado com o que viesse a acontecer em seguida. Transtorno, aliás, é uma palavra que me surge bem conveniente, pois se ousei isso descrever, nunca soube entender o que de fato era. Tanta confusão! E eu horas nela tentando me dissolver. Outras horas fugindo como se galopasse numa opulenta e veloz égua que só passasse em planejados caminhos de segurança sem sequer olhar para os lados. Decido que nisso não quero mais pensar...

Melhor mesmo não pensar... Melhor não perder tempo escrevendo bobagens. Quem sabe amanhã algum psiquiatra metido a besta me diagnostique como esquizofrênico sem saber que ele próprio também é? Tenho que aproveitar a vida até me enterrarem num hospício.

Creative Commons License
Cortado e composto: Pelo real, pelo sonho e o imaginado. by Diego, Chuck e Glommer! is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Brasil License.
Based on a work at www.solucomental.blogspot.com.
Permissions beyond the scope of this license may be available at http://www.solucomental.blogspot.com.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Conto do Louco sem nome - Parte 2

Imagem: SirLeMojo


Era comum o louco falar de uma tal Bethânia de estupendos cabelos, mas que não eram louros e que, portanto, se assemelhavam a fios de metal que não eram ouro. Eram eles prateados e se era bela, não tinha a beleza das musas gregas, mas a de uma falsa gueixa que sequer seria japonesa. Também nunca, nem em pensamento, fora pura e, se atiçava o desejo dos homens bi e heterossexuais e das lésbicas, era porque tinha a fama de fazer sexo como uma gata em cio eterno.
Um dia, Bethânia idealizou e praticou um ardil para aprisionar junto de si um padre, que apesar de gordo e feio, sentia um profundo tesão. E foi assim que comprou LSD com traficantes e o misturou ao vinho que o sacristão beberia durante a missa. O padre, mesmo tendo muita resistência ao álcool e já ter fumado muita maconha na adolescência, acabou se entregando às ilusões daquela droga. Falou muitos impropérios contra deus, o papa, bispos e toda hierarquia do catolicismo e até se revelou ateu. As velhinhas que praticamente moravam na igreja para expurgarem os muitos pecados que – a despeito da prática de mais de cinqüenta anos, ainda vinham a acumular – olhavam estupefatas aquelas ações de um homem que há poucos minutos pregara o evangelho. Mal sabiam que, se ele falava agora a verdade do que pensava, era por estar sob efeito de entorpecentes...
Tão logo acabou a missa, Bethânia deu um jeito de ir a sacristia para encontrar o tal padre, que enfim estava só. Deu então um jeito de conduzi-lo a seu carro e levá-lo para o sótão de sua casa. Chegando lá a primeira coisa que fez foi injetar sonífero no homem para que ela fizesse uma cirurgia e extraísse suas cordas vocais. Afinal, não gostava muito de gente que falava... Talvez aí a razão de seu ódio por quase todo mundo...
No entanto, quando pensava que finalmente poderia com ele propiciar seus prazeres carnais, descobre que o homem era castrado. Censurou-se bastante por não ter se apercebido da voz fina que muito se distinguia quando se entoavam as canções de louvor a Deus. O pior de tudo é que como cortara as cordas vocais não poderia mais nem se deleitar com aquele doce canto de castrati, e isso em tempos de que eles já não eram mais comuns.
Ademais, se não se importava com a natureza do ser com que fizesse “amor”, por outro lado não suportaria não ter alguma retribuição. O que nunca aconteceria com aquele homem triste e amedrontado. Finalmente se apercebeu que cometera um grande erro e ficou temerosa do que a justiça poderia fazê-la pagar. Pegou então uma navalha se vestiu de homem e se pôs a errar pelo mundo vestida como mendigo. Viveu assim durante uns três anos numa cidade maior, próxima a sua, e tendo morrido de frio no último inverno.
“E o padre? O que houve com ele?” – Certamente o leitor atento estará se perguntando algo assim. Pois digo a verdade, que sempre digo, pelo menos quando é do meu interesse ou quando julgo que ela assim é.
Crianças que estavam nas redondezas, um dia depois da fuga da mulher, chutaram uma bola na vidraça da janela do sótão. Tocaram e tocaram a campainha e ninguém atendeu. Pois se houvesse morador naquela casa seria ele um fantasma. E é bem sabido que eles não existem à luz do dia – pelo menos é isso que os escritores de contos e os roteiristas de filmes de terror nos fazem acreditar. Afinal, eles atentos que são, bem sabem que as trevas nos despertam muito mais temor que a claridade do sol nas tardes e manhãs...
Oh, não! Mais uma vez eu em minhas digressões! Por favor, caro leitor, seja paciente e me censure não lendo as partes que perceber que incorro a poluir ainda mais este texto que por si só já considero tão ruim.
Mas voltando ao caso, as tais crianças, que eram três e se chamavam respectivamente X, Y e Z, eram bem atrevidas e como todas a crianças que jogam futebol na rua não estavam dispostas a perder uma bola. Fizeram uma votação e Z venceu (ou perdeu?).
Era ele tido pelos outros garotos como muito lerdo e sempre era o último a concluir as coisas. Os meninos fizeram então troças a respeito da má sorte de Z. Ele hesitou um bocado, mas apesar de não ser rápido, era bastante valente e seguiu a trepar pelas paredes até que ficasse sobre a casa.
Demorou, mas conseguiu chegar à parte de cima. Facilmente conseguiu abrir a janela a partir do buraco que eles próprios fizeram, tomando cuidado com o vidro quebrado. E quando se embrenhava no sótão à procura da bola, eis que avista o padre. O qual muito tentou perguntar, mas nunca obtinha resposta. Achou até que fazia graça. “Padre safado!” – pensou.
Só que de todo modo era aquilo muito estranho e então resolveu descer as escadas para abrir a porta de baixo para os X e Y pudessem ver. E X quando chegou lá, muito esperto que era, sabendo dos hábitos estranhos de Bethânia, concluiu que o padre havia sido raptado. Y, que era todo ouvidos, entendeu o que deveria fazer e saiu correndo, com seu estilingue na mão, para telefonar à polícia. Prontamente foram lá. O padre escreveu o que aconteceu e um policial mais descontrolado chegou a gargalhar histericamente daquilo. Nada se resolveu, pois não era do feitio dos investigadores solucionar todos os casos, pois se assim fosse, talvez um dia eles não tivessem mais emprego.
O padre, a despeito de tudo, hoje ainda reza as missas para alegrias dos surdos, pois ela é celebrada a partir da linguagem de libras!
Se esta história não pode ser descrita como um padrão nas histórias desse louco, que até o momento não citei o nome, isto se deve ao fato de que também não era diretamente coisa da cabeça dele. Dizia ter sido para ele contada por um tal Carlos, que vivia nos seus sonhos, e ser da noite que era, muito sabia do que acontecia nos submundos da cidade que morava.
Carlos, o boêmio, ficava a conversar com o louco, quando este, caído em sono estava. Por vezes o louco lhe mandava ir embora, mas teimoso que era, Carlos nunca obedecia. E assim, ficava a narrar suas aventuras noturnas, enquanto se embebedava naqueles bordéis, bares e inferninhos de imaginação. Ele dirigia a palavra ao louco sempre olhando para o céu e não era raro quando alguém lhe perguntava se estaria falando com Deus. Ele então respondia: “Por favor, respeitem nosso Senhor! Jamais seria Ele um tolo gigante doente das idéias!”. E assim caíam na gargalhada uns homens com faces parecidas que só se distinguia uma das outras pelas barbas mal-feitas de uns e pela quantidade de dentes que faltava em outros.


(Continua...)

Veja: Parte 1 de "Conto do Louco Sem Nome"

Creative Commons License
Conto do Louco sem nome - Parte 2 by Diego? Glommer? is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at
www.solucomental.blogspot.com.
Permissions beyond the scope of this license may be available at
www.solucomental.blogspot.com.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Conto do louco sem nome - Parte 1


* História Estranha que publicarei em não sei quantas partes. :p


I
magem: Delincuentista


Era ele um louco que sequer se lembrava há quanto tempo que já era louco. Às manhãs saía para qualquer lugar movimentado como a rodoviária ou os terminais de ônibus urbanos. Ali podia sempre encontrar gente para ouvir seus causos.

As reações das pessoas quando ouviam aquelas histórias eram muitas. Alguns de pronto saíam de perto. Outros ouviam até o fim atenciosamente, mas, geralmente, por sentirem pena daquele que julgavam não ter pleno domínio de suas faculdades mentais. Tantos mais gargalhavam e zombeteavam dizendo que não passavam de estúpidas invenções de uma mente insana. Certamente, até mesmo aquela que parecesse a mais nobre das atitudes, sempre era motivada por uma idéia de que a loucura seria um grande mal.

O fato é que apesar de serem engenhosas as palavras daquele homem, de nada tinham valor, pois era ele um louco! E loucos quase nunca são levados em consideração. São tidos como abjetos demais para uma sociedade em que se preza a padronização e a sistematização dos costumes e das ações. Aliás, a própria loucura não seria nada mais, nada menos do que um desvio dos modelos de condutas tidas como legítimas?

Porém nada disso importa. Não importam essas minhas interpretações a respeito do que seria a loucura, ou meus julgamentos acerca de moralidade ou ainda qualquer opinião pessoal. O que deveria fazer seria penetrar na mente de meu personagem que não existe e, pelo menos tentar, a partir disso escrever uma história original e interessante. Pois bem... É o que me porei a fazer, sem, no entanto, me policiar por qualquer digressão que venha a cometer. Alguns vícios, quando se escreve, são quase inevitáveis, tanto mais no caso de um amador, como eu sou.

Para aquele louco, todo dia era um novo dia desconexo do anterior. Não tinha na cabeça essa noção de progressão da realidade que trazemos conosco. Se hoje era dia vinte e seis não teria problema se amanhã fosse dia dois. Tampouco se o mês que precedesse maio fosse outubro. Ou ainda que ano dois mil se desse ao mesmo tempo em que ocorria o ano cinco mil e trezentos e trinta e três. E se ninguém falava de algum mês que desse a seqüência ao décimo segundo, ou de algum dia após o trigésimo primeiro, não hesitava em se situar às vezes no dia quarenta e três de quinzembro.

Deste modo, era quase inevitável o gracejo daqueles que ouviam o modo bastante característico que ele começava suas narrativas, que não raro fazia em cima de um banco situado em lugares, como disse anteriormente, bem cheios de gente. Dizia: “Era trinta e três de quarentembro do ano três antes de depois do dia que Maria concebeu o menino filho de Deus...”.

Na cabeça da gente comum aquilo era hilário e assim logo já desqualificavam aquele homem. Viam-no como um demente coberto por vestes maltrapilhas e que trazia nos pés sapatos sujos e já bem gastos. Além disso, era cômico vê-lo falar daqueles tempos com periodizações absurdas e que nada tinham a ver com aquilo que estavam acostumados a ver nos relógios e nos calendários.

Também pouco interessava o que ele viria a dizer depois. Eram só palavras.... Talvez pudessem até serem tidas como belas se viessem da pena, da esferográfica, da máquina de escrever ou do teclado do computador de um renomado escritor. Mas vindas da boca daquele homem... Nunca chegariam perto do belo trabalho criado por um intelectual e tampouco teriam a graça da legitima poesia.

Mas se era aquele um homem tido como louco e, se as atitudes loucas são muito distintas das ações que se tem como normais, não é de se admirar que ele pouco se importava com alguma aceitação. O artista, o escritor, o poeta, o mecânico, o eletricista, o executivo, a cabeleireira e o músico, por mais que se pretendam inovadores e vanguardistas, sempre buscam alguma aprovação, seja esta advinda de uma só pessoa, de pequenos grupos ou das grandes massas. Já os loucos não têm esse tipo preocupação. Fazem o que fazem porque simplesmente isso lhes deu vontade.

Por isso, dia nenhum ele falhava àquele contar de histórias que tanto o alegrava pelo seu simples fazer. Era uma libertação, talvez não de si, mas tinha esse sentido de alguma forma, pois em sua mente estavam mesmo aprisionados aqueles personagens, lugares e épocas que costumava descrever. Porém, ressalto que não me refiro a essa abstrata e batida concepção que os escritores costumam ter do seu processo de criação. Para ele não tinha esse sentido de “produtos da imaginação”. Tudo realmente se vivificava e fazia parte do universo daquele homem.

Por isso não era raro, quando no meio de alguma história, ele cumprimentasse alguém que os que o observavam não viam, mas se tivessem prestado realmente atenção no que contara em algum momento anterior, teriam percebido que esse estranho “alguém” fazia parte daquele mundo que narrava. Inclusive, quando havia poucas pessoas e essas em face às suas incapacidades de enxergarem aquele qualquer ao qual o homem se dirigia, mas se apercebendo de que delas mesmo não se tratava, encontravam mais motivos de escárnio para com ele.


(Continua...)


Creative Commons License
Conto do louco sem nome - Parte 1 by Diego? Glommer? is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at solucomental.blogspot.com.
Permissions beyond the scope of this license may be available at http://solucomental.blogspot.com/.