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quinta-feira, 30 de abril de 2015

sobre-palavras




Diz se das palavras muitas coisas. E chego a quase me contentar em segurança que sejam apenas o veículo com o qual escrevo este texto.
É que por vezes seria bom que tivessem uma fixidez mais sólida que a dureza estrutural que se pode seccionar a langue e parole. Pois, afinal, se fossem as palavras enrijecidas como pedra não haveria temor com qualquer corte que viesse delas.
Mas é que eu gosto... eu gosto do sangue que me extrai a palavra-navalha, que se corta e recorta e nunca sai na integralidade do meu pensamento. Porque na palavra eu sempre espero a mais pérfida traição que não é senão de mim mesmo. E nesse movimento se descortina o meu desengano, o desentorpecer com doses de realidade.
Nesse sentido, cada palavra machuca e esfacela a realidade, intervêm na ordenação que se inventa como lógica das coisas. Subverte a obviedade do que se diz natural, com ou sem a intenção de ser.
A palavra é um gemido que clama o ser para fazer-se humano. É como ambição nunca morrida por uma possível redenção para a vida com similaridade de emoção à de achar doce esquecido durante larica noturna.

Gosto da expressão palavra amiga, apesar dela me deixar entristecido. Nunca tomei um porre com uma palavra ao meu lado na mesa do bar. O máximo que fizemos juntos foi elas se confabularem em sons que mediavam o diálogo entre os que se embebedavam comigo.

Às vezes penso as palavras como se fossem um romance que se coloca ali bem distante. Pairando em mim com sua indiferença. Desenho-as e as declamo e estão no próximo instante bem fora de mim.
Todo calor que manifesta na palavra que digo num momento de prazer, jamais terá a mesma temperatura e sabor da pele. Mesmo que as palavras venham a tocar e a incendiar os desejos submergidos na mente.
Pa-la-vra (junção de sílabas, fonemas): um fragmento de fragmentos que não raro ousa tentar ser o mundo mas que nunca o será. Que nomeia o mundo. E que por vezes adjetiva-o como imundo a despeito de que para existir tenha de sugar muita coisa da beleza de mundo.
Palavra é um encanto que se joga para se cativarem paixões. A definição para paixões poderia ser: o momento quando todos os pontos lógicos da realidade parecem sumir. Contudo, as paixões são contraditórias. Pedem a todo o momento para se encarcerarem dentro de nós, mas com o tempo rebelam-se e desmantelam todas as grades que as impedem de se transbordarem em tamanho.
Palavra... soturna e às vezes gentil distorção do acontecido, do que se viveu. Esse vivido só ganha relevo para o homem ou para mulher, quando alguma coisa pode ser dita.

A neutralidade dos fatos (que são feitos existir) nada mais é que pintura descascada que tenta esconder a imanente dinamicidade da vida.

O ser humano só começa a irromper do casulo para ser libertação quando se esvai do falseamento de significados da palavra mecânica. O ato da palavra que antes era simples e até natural vai se fazendo pouco a pouco de modo a borboletear o que aparecia como a obviedade na forma de um negativo congelado do real, que agora apenas isso não pode mais ser. Pouco a pouco o ser pode dizer mais e mais que é este o seu mundo e que portanto pode mudá-lo e refazer as relações que o oprimem.


diego leão

domingo, 20 de janeiro de 2013

de fragmentos: pedaço II

Como Sputnik em estouro ela vem. Fogueteia dos neurônios. Ganha um sentido e um sentimento que nunca que teve. Era ainda anos 1990, pelos seus fins, sexta, sétima série, coisa assim.  Lá ecoa um burburinho, um buchicho. Ele toca piano, toca teclado. A professora fica animada. Próximo tema é sobre a ditadura civil-militar no Brasil.

Ela gosta de música. Nem titubeia em propor a tarefa. Vai ordenar de supetão que cante, toque umas três. Coitado, se ruboriza e se eleva em ardor no seu pulmãozinho, um pouco grande, mas ainda em formação. Não vai dar conta. Nunca fez aula de piano direito, de teclado ainda menos. Aqueles sons MIDI são de uma chatice que nada seduz. Apresentava desde aí, nesses anos poucos e agora longes, pouca identificação com a norma.  Nunca se deu com ela bem. Odiava a obrigação do tempo certo de treinar o piano os instrumentos. Muito mais diversão haveria em ensinar as formigas a nadarem em vidro de Coca-Cola, testar suas resistências com refrigerante, ou vislumbrar seu futuro de paleontólogo colecionador das figurinhas de dinossauros que acompanhavam o chocolate. Tinha até o álbum.  Outra coisa não haveria de ser.

Não tinha, no entanto, mais de ser isso por umas semanas. Umas semanas, quando se tem 12, 13 anos, pode se traduzir em passagens de umas duas ou três estações, às vezes com mais cara de inverno, que de verão ou primavera. Tinha que aprender a tocar. Como ia de ser? Tentou tirar de letra de um jeito bem rústico. A melodia não era tão primorosa, mas os acordes estavam bem encaixotados. Tinha de dar um jeito, não podia apresentar a música daquele jeito pros colegas. Não era nem uma, aliás, apesar de ter tirado de ouvido, uma somente. Eram três, é bom rememorar.

Mas quanto a música só a uma pessoa poderia recorrer. Seu pai... e tinha medo dele e o piano era dos sonhos paternos que não lhe pertencia. O pai, homem que se dava de namoro ou até casório com a música e nela se remediava de dias cansados se trancafiando no estúdio improvisado que tinha em sua casa.

O filho não era disso, se cansava tão rápido das notas das partituras. Disciplina não era coisa dele. Quando não tinha ninguém próximo, ele já se aventurava a auscultar pelas teclas e entranhas do instrumento, as melodias que gostava quase de raro com sucesso. Enfastiava-se de pensar que teria que seguir a lição designada pela professora semanalmente. Até dava-se um jeito no final. No final mesmo. Se a aula era na sexta, no sábado que aprendia. Mesmo que custando uns atropelos de mãos durante a execução à mestra.

Então ele seguiu pelo quartinho-estúdio. Tímido, sem jeito de dizer. Ficou olhando o pai com sua execução musical perdida no esquecimento.  O pai para. Pergunta o que quer. Ele lhe diz, com as palavras arranhadas e fatiadas. O pai fica a pensar no que diz. Lembra que tem uma das músicas. Os acordes. Estão lá no livro. O filho diz que tentou tirá-la de ouvido. O pai pede: “Toque então”. Ele se morre pra mostrar a ele.

Os acordezinhos sem arranjo saem de um jeito bobo. Sim, bobo. Como tudo de criança rumando adolescência é frente ao que se faz dúvida. De todo modo, o pai fica  meio impressionado. Não são de tanta técnica, mas caem bem certeiros.  Daí que vai dar parecer bem e o filho sente isso em confiança, o que quase nunca ousava ter.

E então que aprende com gosto que ficará no peito por tempo até agora e vai saber pela primeira vez na vida, com essas três canções, que eram somente tarefa de escola, que nada tem que ser do jeito que está e  isso apesar do mundo lá fora, apesar do mundo cá dentro e “apesar de você”. E, que mesmo com carnaval acabado, é preciso cantar! Mais que nunca, pra cidade que moro, sinto e olho se alegrar! Foi uma feitura que pequena foi crescendo pra algo grande.

Foi nas semanas seguintes sorrindo-se de feliz, e sentiu um carinho destemido para o pai. A partir dele via que podia a música acontecer, que podia tocar ela e com ela se tocar... E se não era carinho de abraços, fazia  esquecida a vontade atravessada de, ao encarar a face progenitora, virar olhos pra baixo. Tocar música na escola era um evento, mas pequenino frente aquele, e de raro aconteceria pelos tempos algo com tal similitude.

De todas as lembranças de meu pai, que não raro pululam feito pulgas, em espaçados movimentos rápidos, de uma forma bem doída, é nessa que tenho aprendido a me agarrar. E o tenho gratidão, por dali ter eu começado a me parir pra mim...

Pai, você não entende meus caminhos! Mas um dia entenderá. E, se conquistar graça de alta consciência, quiçá também entenderei os seus...

De fragmentos: Pedaço I

A Arnaldo pelo embalo de piano que segura melancolia e transmuta em alegria..

Andava todo quebrado, espatifado, devia ter vergonha de andar assim. Não tinha... Era um sujo, mal lavado, cara de tacho, cabeça de cavalo. Friso: não estava, era... Uma condição de existência.

Era fragmento. O que é solto ninguém quer, porque não faz sentido. Quem se apega a pedaço só o faz em tempo curto. Ver vida em fatias tem beleza perecível. Dura enquanto cai bem no sanduíche. Depois logo perde, e se tiver alguém que se apetece, pode ter certeza, garanto que responde pela alcunha de Bolor.

Pois bem, tinha então uns 20 anos de fracasso meritório. Trabalhava qual burro de carga, naquilo que não queria, pra ambição que não lhe pertencia. Não que fosse nobre, pois se fazia mais e mais restolho de seus desejos de menino, enxovalhado pelo temor que interrompia a ousadia de alçar planos possíveis. Tinha sofrimento, que se vangloriava por debaixo do orgulho, pois que havia sido o único bem que conseguiu comprar com a poupança que ajuntara.

Tinha as vontades na mão esquerda, o medo na direita. E pensando, hoje, deve ser por isso que lhe ensinaram desde novo a ser destro. Os veios protuberantes daquele lado que maculavam, desde a pré-escola, como jeito de gente deseducada e animalesca escrever, denunciavam sub-repticiamente que eram desague mais denso de sangue que o coração bombeia.
Ser canhoto é compor letras deturpando subversivamente como se estrutura a forma. Na escola e na família aprendera que certo era seguir bem retilíneo, pela faixa da direita, evitar a contramão. De preferência dê lugar sempre pros outros, esqueça o que quiser. Pra você sempre haverá mais tempo, do que terá para o alheio.

Eram estes os mantras que entoaram para tocar repetitivo no cantinho obscuro sem que nem se apercebesse e de tanto os ouvir começava a acreditar que devia com eles conformar.

E o sol queimava sua face chamuscando chicotadas, pra subir a rua íngreme com carrinho de encomendas com cento e cinco quilos. Era a rotina que não queria. Esquecera que fora homem, e ao corpo estendia o equino de sua face. Eis que se tomou por um furor, que não podia controlar. Deixou todas as coisas e rumou para o escritório. Teria de lhe ouvir. Era desumano trabalhar daquele jeito. Queria seus direitos. Atravessou a porta com passos batendo forte o chão, bateu a mão na mesa do chefe. E berrou em alto som: “- Não trabalho mais assim! Esses sapatos todo furados não me aguentam mais! Eu exijo que calce em minhas patas agora as ferraduras! Ou amanhã eu não mais volto!”

E então preferiram não calça-lo. Mas se não apareceu ao trabalho no dia seguinte, foi nisso que se deu a salvação. 

Dias desses tive notícias... rumina mansamente os prados verdejantes onde mandam os sujeitos que escrevem suas existências em canhoto. Está certo! Deixar de ser direito não podia ser algo que prestasse...

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Ela, ele, o amor, e eu.


Créditos pela imagem: supercoco

Ele a amava. Era um amor bobo. O que não precisava para aqueles tempos, nem pro que emana quando salta aquelas lembranças. Era uma chata, inconveniente, desnecessária. Nunca havia cogitado antes algo com ela.

Ela era linda! Foi como a descobriu certa feita. Na beleza que emerge na descoberta dos receptáculos de seu gozo. Na sua firmeza. Na sua angústia agridoce. No desfrute da infinitude de seus seios. Nos seus dentes cuidadosos cravejando minha pele.

Ele a amava, e “amava” é o tempo-contradição do verbo. Quem ama, ama de um ponto de partida que não pode ter chegada. Pode se amar no futuro. Pode se amar no presente. Pode se amar desde o passado. E no presente e no futuro. No futuro e depois do futuro. Mas nunca só no passado. Nunca só no presente. Nem nunca num futuro que tem finalmente. O amor desconhece o calendário. Faz pequenina a história. Faz brochar o materialismo. Joga na mesa, em pleno jantar, a inconsistência e a fragilidade das esquematizações, dos sistemas, das teorias. Ele não tem regras ou leis e esfaqueia a obviedade.

Então devo dizer, de sincero, ele não a amava.

Não amava, pois me lembro de seu pior momento. Não foi só por ela, mas tomou cinco comprimidos de uma cicuta de tarja preta pra dormir até depois de todas as manhãs. Ele não amava, pois quem ama quer a vida indefinidamente. E quer o outro pra vida. Mesmo que o outro não queira a vida. Mesmo que a vida não lhe queira com o outro.

Ele a amava, pois era feminino. Ela era masculina. Não era perversão, era só amor. Ela era Ares e ele Afrodite. Marte e Vênus eram. Excitava-lhe a amorosidade essa fúria de guerra. Bem como seus ombros e corpo largos. Ele a desejava até o recôndito da alma e nas paredes em veludo que prosseguiam seus lábios.

Pois bem, com o coração a amava. Nos filmes interrompidos em beijos, amassos e as carícias profusivamente inventadas. Amava com os olhos contemplativos a seu sono, na vigília mais besta por bem nunca noticiada.

O amor por ela, para ele era o ódio. Pois era desespero no espaço de toda separação e reconciliação. Era a vitimização garantida no fluxo hormonal de cada mês. A cada TPM um fim e o soçobrar do orgulho como brinde. A indignidade ladrando no peito. Era um atestado! Um atestado gigante de minoridade e mediocridade voluntárias.

Amava, contudo, quando inseguro enraizava seus dedos nos dela. Na euforia das concessões raras. Na paixãozinha convalescida, decepcionada com as negações tão mais frequentes. As mãos juntas eram para ele seu carinho simbólico. Ela não queria simbolismos. Não queria tomar parte dessa junção, menos ainda lhe permitir significar.

Era ela tudo que sempre quis. Pelo menos havia se esquecido de querer outra coisa. Demorou e demorou a deixar de dividir o tempo em antes dela e depois dela. Era assim que via seu pregresso e progresso, sua volta na linha de seus próprios fatos, que exacerbados despontavam como alfinetes de dentro, na crise asmática de cada uma de suas solidões.

Seu amor era ridículo. Era capaz de vaguear a madrugada pela promessa de absolvição de crimes não cometidos, pelos quais lhe pregaram na testa, em arbitrário, uma nota apenas: “Condenado. Setor de Relacionamentos Humanos. Vigilância Sanitária”.

Ele a amava. Até que decidiu dela fugir passando por três estados e chegando a perder a mala e as roupas no caminho, mas em contrapartida, vendo a ressurgir alguma hombridade há tanto já olvidada.

Não, ele não deixou de amá-la naquele ponto. Era preciso mais algumas estações: passando pelos pontos dos bairros Mágoa, Decepção Depressiva e Ilusão Desiludida.

Não mesmo. Não havia ali deixado de amá-la, pois era um amor de átomo radiativo. Invisível, inchando na destruição de si. Era transfiguração incessante da esperança em cancro molenga, despido de qualquer traço de nobreza, incrustado na lava lascívia da Terra.

É verdade. Ele a amava. Não podia ser eu. Eu que ri pra mim quando ela disse, quando depois de tudo ter se passado, numa ocasião de encontro momentâneo, que podíamos voltar no tempo. Mas ele não volta, só circula o relógio, mas a cada volta completa, aumenta metade de um dia. E a cada duas metades de dia, tem se um novo dia. Que não pode ser como ontem, nem antes de ontem e nem antes dos outros antes.

Isso foi só quando ele havia morrido. Não era ele com quem ela abraçava seu corpo num momento logo atrás. Era eu, só ela que não era capaz de ver. De saber que não podia mais ser ele, depois da poeira se assentar sobre todos aqueles meses. Não podia ser, não dava mais para ser. E é bem verdade que ele não queria ser duro. Era necessidade urgente brotar carne revivida e se deixar perecer. A perenidade que era muito dura, se pode dizer. Então é que foi: eu estrangulei até o sufoco. Não faltaram lágrimas, força, indecisão e um sentimento que não era de perda, mas de perdido.

Mas não teve pena, nem dó. Era um dever e os traumas estavam proibidos para qualquer data vindoura.

Foi assim... ele se foi. Jazeu e tornou pó. Nem vale lembrar mais uma linha.

Devo confessar, contudo, dá menos temor falar de si em terceira pessoa.

Fim.


Uberlândia, 17-22 de junho de 2012.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Manga dos tempos

Créditos pela imagem: Lais Castro ( ex Nuage Bleu)

Sessenta passados, negro, alto, forte, camisa branca, calça preta, uniforme de vigilante. Era imponente. Vindo assim, parecia um bloco de pedra que surge do nada. De certo, veio pra dizer que não era hora pra eu ali estar. Era domingo, não era dia de ficar circulando por aí. De certo era muito rígido em suas funções, não iria me perdoar.

 Sua performance e condição sólidas, no entanto, se liquefizeram em milésimos de centésimos de segundos.
Ele não veio pra dar procedimento à “lei”. Ele só quer uma manga... Não hoje, mas amanhã.
- Será que eu acho uma boa pra fazer suco amanhã.

Digo que o problema é que estão caindo no chão. Ele diz: “É, mas essas que caíram de ontem pra hoje dão pra fazer suco de hoje pra amanhã”. Ele é engenhoso. Faz artesanato dos tempos, usa os três numa fala só, e isso, por uma manga, uma simples manguinha.

O problema dessas mangas que estão esborrachadas no chão, ele diz, que é a contaminação. Essa dos vermes, dos bichinhos, que andam na terra, passeiam pela grama.
Ele tem solução: “Tem gente que tira a polpa da manga e coloca no congelador. Quero ver contaminação aguentar!”.

Joga pedra pra arrancar mais umas. Tira a sacola amassada do bolsa, guarda as frutas. E sai andando por entre os prédios degustando o seu suco de amanhã...

Uberlândia, 18/11/2012 – 14:30h

domingo, 18 de novembro de 2012

Vassoureira


Créditos pela imagem: FernandoOliveira

Tia Sônia Vassoureira. A gargalhada desavergonhada estilhaça os vitrais da intelectualidade. Esbofeteia foucaultianos, freudianos, pós-modernos, marxistas, marxianos, marcianos e quem mais se arrogar de sabido.

Tia Sônia, a vassoureira!? Isso não existe! Não é profissão de gente, diz a jovem plantada debaixo da árvore por dias com livro de contos. Tem razão. Tia Sônia é mais que isso, de fato! Não digo mais que vassoureira. Tia Sônia é mais que gente!

Mais que gente porque ela varre mais que o chão, ela varre o universo inteirinho. Até os cometas e os cisquinhos do chão. Sua vassoura é um cetro deificado, com ele canta Madonna, baila Bee Gees. É seu pedestal microfônico. E é seu amigo. Seu parceiro de dança. O difusor da alegria e o tapa na ordem. Ela é o descompasso. Deixa enrubescido até o reitor.

Tia Sônia, Vassoureira! A boca arreganhada e os dentes mostrando para se afirmar triunfalmente! - Vassoureira da universidade!, faz questão de frisar. Não é qualquer uma. E tem mesmo um ar doutoral.

Ser vassoureira da universidade é ruir as certezas. É debochar o dicionário, os significados formais, a língua culta e tudo mais. É desafogar a expressividade imersa no lodo. É a humanidade florindo onde havia saudades de um arregalo de pétalas.

Tia Sônia é vassoureira. Ela pode ser. Porque brinca com as palavras com a autoridade de quem é estrela de filme. Ela tem carta branca pra blasfemar o roteiro. Faxineira, auxiliar de serviços, isso tem um monte! Isso é pouco pra ela ser. E seria pouco se fosse atriz, cantora, humorista, dançarina ou poetisa. Ela é o que se acha que não pode ser. Ela é VAS-SOU-REI-RA! Entenda! Ela é única e sabe o quão grande é ser isso.

Tia Sônia diz pra procura-la no Youtube. Ela coordena o passo, lidera a dança. É a rainha da praia. – Procura lá!, diz sem vacilar. Dá à vista seu cintilar de talento.

Tia Sônia, vassoureira. Ri-se de tudo. Daqui três meses ela volta. Com o acerto e o seguro desemprego esgotados. Volta pra gente. Fungando profundo e gosto o ar com aroma de erva. Zombeteia os estudantes que não lhe entendem, que não sabem enternecer-se com sua magnitude.

Tia Sônia não deveria estar com uniforme de empreiteira. Ela deveria ser imortal, declarada patrimônio cultural eterno da universidade. Deveria ser tombada! Ou então receber uma cátedra. Até porque quando ela chega a nitidez nos absorve e fica tão claro o quanto a gente é tolo...

Uberlândia, 18/11/2012 – 14:03h

domingo, 4 de novembro de 2012

Sono safado


Eu tenho trauma do sono. É quando eu perco o controle. O dia inteiro posso me dar conta de quem sou, o que faço, o que quero transparecer, forjar identidades, brincar com o personalismo de minhas personalidades.

Mas quando eu me rendo - e durmo - eu não posso. Sou qualquer coisa. Sou brinquedinho de meus medos, de compulsões ocultas e ocultistas, de meus eus escondidos.

Quando durmo, eu não posso. E daí porque eu tento e tento e tento e pouco durmo. Tenho medo de ser quem eu não quero. De cometer aquela gafe, entregar o jogo pra geral saber que “eu não sou tão bom assim”. Eu tenho receio de dormindo demonstrar que eu tenho medo até do sono, ou que eu sou tão egocêntrico a ponto de pensar o mundo conspirando para e contra mim. Não bastava eu ser a última bolacha do pacote, tenho ainda que me sentir a mais recheada. 

O tanto de “eu” desse texto revela que o digo, não é mais do que verídico, chega a ser quase problema venéreo...

Pois eu lhes digo: sono é o descontrole! É quando você não tem etiqueta, nem ética. Você segura o dia inteiro os gases próximo dos outros, mas dormindo solta um ronco mais alto que trombeta de banda escolar pra casa inteira ouvir. Seu corpo se mexe de um lado pra outro, você baba, respira, sua, sofre, ri, deseja e no frigir dos ovos, ou mais certeiramente, no abrir dos olhos, aquilo tudo ficou perdido, sem consciência, sem lembrança, perdido em labirintos de mente.

O sono é feito a língua pro Barthes, ele é fascista! Te induz a ele sem piedade, quando você nem mesmo o quer! Quando se tem pilhas e pilhas de coisa a ser feita e ele lhe fica a te chamar numa voz doce, envolvente, querendo impor, dizendo que a gente deveria abraça-lo. 

O sono... o sono! Ele é braço direito do autoritarismo das horas tentando impor ordenamento lógico ao nosso cotidiano. Vou lhes revelar: o sono quer a gente feito máquina! Quer nos despir de humanidade. Se o relógio é o caxias cíclico, que dá voltas, faz com que as coisas retornem no tempo dos acenderes e apagares de luzes celestiais, o sono é daquele tipinho impertinente que ajuda a fiscalizar se a gente faz tudo certinho, bonitinho, nos conformes.

Ah, mas quer saber? Eu amo o sono. Ele é delicioso. Ele é mais doce que pudim! Como é boa a noite que eu durmo abraçadinho dele. Fica tudo mais bonito. Sono, você é meu grande amigo. Da canseira, você me faz tão renovado. Me prepara pra um dia novo, de tantas alegrias.

Se eu fosse politeísta, podes crer que serias divino pra mim!

Só que devo revelar... até disso tenho medo. Numa dessas, você se torna Hipnos. E, se me restaura com o  véu noturno, anda implacável ao lado de seu par gêmeo Tânato, que basta querer pra me privar da maravilha luminosa dos amanhãs vindouros.

Pois ora bolas! Eu tenho mesmo é raiva do sono! Ele nunca foi meu amigo. Todo mundo dorme, só eu e uns dois que não. Eu tento me enamorar dele logo no início da noite, tem vez que até antes. Quando eu deito na cama junto dele, ele dá uma de traiçoeiro, arisco, de garota volúvel, de irritadiço, fica a querer me mandar pro chão, pr’outro lugar onde não esteja.

Caprichoso, no dia seguinte vem me cobrar o nosso amor não consumado. O sono é a musiquinha que toca na rádio: “me iludiu e depois foi embora”. Me dá uns pesadelos hora que tô acordado, e quando eu durmo nunca me dá um carinho, um chameguinho, nem uma canção de ninar pra eu poder ser mais sereno.

O sono podia transar comigo. Ele não quer. Só fica a me excitar, a me alisar com strip-tease. No muito me deixa em estado contemplativo com sua genitália. Fica como a rosa do Pequeno-Príncipe, ali perto-distante na transparência vitrificada da redoma, só pra se admirar.

O sono é uma puta! Nunca me beija na boca! Me cobra caro e cumpre protocolarmente nossa foda como a disposição de ingredientes e instruções de uma receita gastronômica.  Bem a calhar, pois banca o chef de cousine, que na hora de me por no forno, só pra ratificar a sacanagem, me leva pro micro-ondas.

É... vou te dizer...

Eu fico mesmo encafifado com o sono! Ele que vá se danar! Nunca rola química entre a gente. Rolo na cama, fecho, abro o olho. Pego um livro. Vou pro computador. Escrevo. Ouço uma música. Apago a luz. Acendo a luz. Deito de um jeito, deito de outro. Tomo remédio tem dia. Tem dia que não... Tenho medo de prejudicar meus outros sonos. Medito. Oro. Faço ginástica. Acaricio o vento. Me angustio com as coisas. Sorrio pra mais umas. Penso, penso, penso, penso... pra cabeça não aguentar mais. Daí eu me canso. Sem nem perceber eu durmo...


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Uberlândia, 04/11/2012 - 01:48h.





segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Conto do Louco sem nome - Parte 4

Créditos pela imagem: juliana.moraes

Vingança! Vingança! Vingança!
Vingança. Vingança.
Vingança...
Mas que vingança uma mulher tão doce e pura como Judite poderia tramar?
Sentia ódio, vontade de extravasar aquela dor sendo dessa vez algoz daquele que a fizera sofrer. No entanto, estava perdida. Impotente...
Era algo como se uma grande bola com superfície semelhante a um ralador de queijo se expandisse descontroladamente de seu peito, mas a mesma fosse incapaz de romper a sua pele.
Talvez a fúria e o ressentimento a impedissem de ter algum pensamento racional. Num desses acessos pensou em matar o tal Carlos. Não friamente, pois em sua mente só ocorriam imagens sádicas desses possíveis atos.
Um machado...
Cabeça.
Sangue!
Lágrimas...
Sorriso.
Angústia se esvaindo...
Depois de tudo um vazio...
Uma sensação de ter feito algo sem saber o porquê. Mais tormento...
Um machado ensangüentado e um sorriso precedidos de lágrimas que caíam num crânio rachado, não seria esta a melhor cena congelada em sua mente para a libertação de sua própria angústia. Seria apenas um desafogo, que no fim resultaria em mergulho num novo e poluído lago de desolação.
Decidiu então engolir seus sentimentos, para saber melhor o que fazer. Deixar se acalmar... Por uns tempos. Meses talvez... Anos, quem sabe?!
O tempo é relativo. Para uns tudo que acontece agora terá um grande significado daqui a dez anos, para outros isso de agora será eternamente uma grande estupidez. Para muitos coisas corriqueiras se tornarão belas ou memoráveis daqui a um tempo, para alguns poucas coisas serão dignas de serem lembradas, mesmo num futuro próximo. Nossa memória é seletiva. Decidimos o que é conveniente não ser esquecido. Mesmo quando não temos isso muito claro para nós mesmos. E em certas circunstâncias precisamos viver, absorver outras coisas para encontrarmos outros caminhos... Refúgios em prisões que nos resguardam de nós mesmos... Daquilo que somos, mas não queremos ser...
Decidiu se casar. Casar com Carlos... Transparecer que cedera a seus cortejos.
Idéia maluca pode parecer. Até mesmo incoerente...
Carlos lhe cobria do que achava que era o melhor do amor. Jóias, belas roupas, muitos presentes e ele mesmo sempre presente. Vivia em função de Judite. Casou-se com ela para a fazer feliz.
Mas ela era indiferente...
Se Carlos a tinha em sua casa. Se era sua companheira nos papéis judiciais que tão pouco valem, ela lhe era mais ausente do que quando descaradamente o desprezava. Isso o atormentava e o entristecia... Lembrava-se daquela vez que...
Catabloom!
- Hei, seu mendigo de merda! Saí daqui que da próxima vez que ficar falando esse tanto de asneira vai sentir muito mais que a sola do meu coturno!
Isso quem falava era o segurança do terminal de ônibus em que o nosso amigo louco contava suas estórias.
O louco caiu no chão com o chute, bateu a cara num banco de concreto ao lado e ficou todo sujo do próprio sangue. Gritava: “Fela da puta do carai duma figa rapariga num inferno”. Porém, não brigou. Apenas saiu do lugar.
Caminhava a passos rápidos, primeiramente, depois lentos... Depois lentos e rápidos e no fim foi parar numa praça. E escolheu uma platéia de pombos para continuar o que contava, mas que não lembrava muito bem do que seria.
- Boa tarde, meus caros amigos, muito mais nobres que toda a espécie humana. Porque apesar de seus piolhos e das doenças que trazem junto de si, são muito mais sublimes que qualquer um dos nossos. Porque têm asas! E têm a aparência do espírito santo! Apesar que eu não acho que ele seria cinzento e sujo como a maioria de vocês...
Alguns pombos pousavam sobre o homem. Ele não se importava... Suas roupas com isso ficavam mais coloridas, pois se misturavam a elas agora plumas e fezes dos pássaros.
Braços abertos, um rodopio, um cantarolar de uma música em língua desconhecida!
Ah, era perfeito! Cadê minha câmera para captar aquilo?!
Ei, uma faca! Faca, pombo. Pombo, faca!? O nosso amigo tinha se alimentado até aquele momento?
Entendi melhor aquilo quando ele degolou o pombo e ficou gargalhando, pois tinha algo para comer em seu jantar.
- Haaaaaaaaahhhhhhhh! Você tem cérebro de passarinho mesmo, heim?! Vai virar papá pro papai então! Haaaaaaahhhhhhhhh! Mas antes vou continuar a estorinha pros coleguinhas que aqui me ouvem... Um, dez, cinco, dezenove, vinte e oito, dezedez.... Nenhum... Nem gosto de gente mesmo...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Conto do Louco sem nome - Parte 3


Imagem: devilpato1



Numa dessas noites, Carlos lhe contara também de uma tal Judite, nobre prostituta da zona leste da cidade de sonhos. Seria uma mulher muito procurada pelos homens, pois, se soubesse escrever e desenhar certamente seria capaz de dar segmento ao Kamasutra como se ele fosse uma seqüência de dez volumes. Não disse antes, mas é conveniente revelar a vocês que muitos dos homens da cidade não tinham cor.

Não eram brancos, negros, amarelos ou de cores intermediárias. Eram transparentes!

Não em tudo, os órgãos internos eram bem visíveis à distância. Se eram transparente, eram transparentes de pele. Homens assim eram muito procurados, pois as mulheres os tinham como belos. Acreditavam que eram uma espécie de metáfora, além das palavras ocas, daquela coisa de “enxergar o coração de alguém”.

Ademais, fascinava o fato que só havia homens transparentes. As mulheres assim nunca eram. Alguns chegavam a dizer que o motivo disso se devia ao fato de que as mulheres são arcabouços de mistérios e que ninguém jamais veria que tipo de coisa qualquer uma delas realmente guarda. Talvez até tenha certa lógica, pois as mulheres são mesmo muito mais complexas em atos, pensamentos e ações do que os machos ávidos por praticidade. Mas voltemos à história...

Dia desses, um dos tais homens sem cor consegue noivar com Judite. Ela se apaixonara pela graciosidade das veias daquele rapaz, se é que se pode chamar de rapaz um homem com mais de cinqüenta, mas como sua pele era transparente também não se viam suas rugas.

Quando soube disso o jovem Carlos, que vagava pelas zonas cantando o amor – que em verdade nunca conheceu além do que falava ele próprio e do que diziam os poetas e compositores musicais - se pôs a chorar , e de tal forma que seu pai dizia que ele mais parecia uma bica igual a que tinha em seu sítio e que vertia muita água.

O desespero se devia ao fato de que o jovem tinha Judite como mulher ideal, já que era uma grande puta e no país de onde veio elas eram muito admiradas e respeitadas.

Todo mundo queria casar com uma puta! Lá era assim! Pois era garantia de dinheiro, bom sexo e de nunca ser corno! Pois se faziam sexo com outros era por ser essa a essência de um fazer com qual conquistavam o direito de comer o pão.

E traição isso nunca poderia ser... Afinal só é traído quem não sabe o que acontece.

Carlos então passou a elaborar uma forma para que Judite começasse a odiar o rapaz transparente. Sabia que ela odiava o roxo.

Sim! Odiava essa cor, pois quando era criança se lembrava dos olhos de sua mãe, que costumava dizer que estavam maquiados. Mas sabia muito bem que os punhos do pai nunca poderiam ser tidos como artefatos para embelezamento...

O malvado - pelo menos é assim que quero transparecer que seja em minha versão da história - decidiu que transformaria o homem transparente em roxo. Teria lido em alguma ocasião que eles eram muito sensíveis à tinta guache, ao contrário das outras pessoas em que ela saía facilmente com água.

Foi à papelaria, comprou muita tinta. E, como morava num sobrado, onde o Tansparente passava todos os dias, ficou aguardando a sua passagem na hora que era habitual.

Enquanto a tinta tocava a pele transparente, o homem se mordia de dor. Se contorcia e as pessoas na rua tentavam socorrê-lo. Já viu um sapo se derretendo pelo sal? A situação era bem essa....

Foi levado ao médico, mas não houve solução...

Estava fadado a ser roxo pelo resto da vida, além de sofrer com uma série de complicações que, a partir daí, lhe seriam cotidianas. O pior, Judite nem quis vê-lo. Tinha trauma da cor. Jamais poderia suportar aquilo...

Assim, rejeitado e roxo, o homem transparente não suportou seu fardo e se suicidou, dois meses depois, em profunda depressão...

Só que Judite, apesar da proteção que a polícia local dava a Carlos, sabia muito bem o culpado de tamanha atrocidade. Não poderia deixar isso impune. Ainda mais quando o ridículo continuava a atormentá-la, implorando para que ficassem juntos.

Disse que ia se vingar... E se vingou.



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[Continua...]



quinta-feira, 23 de julho de 2009

Conto do Louco sem nome - Parte 2

Imagem: SirLeMojo


Era comum o louco falar de uma tal Bethânia de estupendos cabelos, mas que não eram louros e que, portanto, se assemelhavam a fios de metal que não eram ouro. Eram eles prateados e se era bela, não tinha a beleza das musas gregas, mas a de uma falsa gueixa que sequer seria japonesa. Também nunca, nem em pensamento, fora pura e, se atiçava o desejo dos homens bi e heterossexuais e das lésbicas, era porque tinha a fama de fazer sexo como uma gata em cio eterno.
Um dia, Bethânia idealizou e praticou um ardil para aprisionar junto de si um padre, que apesar de gordo e feio, sentia um profundo tesão. E foi assim que comprou LSD com traficantes e o misturou ao vinho que o sacristão beberia durante a missa. O padre, mesmo tendo muita resistência ao álcool e já ter fumado muita maconha na adolescência, acabou se entregando às ilusões daquela droga. Falou muitos impropérios contra deus, o papa, bispos e toda hierarquia do catolicismo e até se revelou ateu. As velhinhas que praticamente moravam na igreja para expurgarem os muitos pecados que – a despeito da prática de mais de cinqüenta anos, ainda vinham a acumular – olhavam estupefatas aquelas ações de um homem que há poucos minutos pregara o evangelho. Mal sabiam que, se ele falava agora a verdade do que pensava, era por estar sob efeito de entorpecentes...
Tão logo acabou a missa, Bethânia deu um jeito de ir a sacristia para encontrar o tal padre, que enfim estava só. Deu então um jeito de conduzi-lo a seu carro e levá-lo para o sótão de sua casa. Chegando lá a primeira coisa que fez foi injetar sonífero no homem para que ela fizesse uma cirurgia e extraísse suas cordas vocais. Afinal, não gostava muito de gente que falava... Talvez aí a razão de seu ódio por quase todo mundo...
No entanto, quando pensava que finalmente poderia com ele propiciar seus prazeres carnais, descobre que o homem era castrado. Censurou-se bastante por não ter se apercebido da voz fina que muito se distinguia quando se entoavam as canções de louvor a Deus. O pior de tudo é que como cortara as cordas vocais não poderia mais nem se deleitar com aquele doce canto de castrati, e isso em tempos de que eles já não eram mais comuns.
Ademais, se não se importava com a natureza do ser com que fizesse “amor”, por outro lado não suportaria não ter alguma retribuição. O que nunca aconteceria com aquele homem triste e amedrontado. Finalmente se apercebeu que cometera um grande erro e ficou temerosa do que a justiça poderia fazê-la pagar. Pegou então uma navalha se vestiu de homem e se pôs a errar pelo mundo vestida como mendigo. Viveu assim durante uns três anos numa cidade maior, próxima a sua, e tendo morrido de frio no último inverno.
“E o padre? O que houve com ele?” – Certamente o leitor atento estará se perguntando algo assim. Pois digo a verdade, que sempre digo, pelo menos quando é do meu interesse ou quando julgo que ela assim é.
Crianças que estavam nas redondezas, um dia depois da fuga da mulher, chutaram uma bola na vidraça da janela do sótão. Tocaram e tocaram a campainha e ninguém atendeu. Pois se houvesse morador naquela casa seria ele um fantasma. E é bem sabido que eles não existem à luz do dia – pelo menos é isso que os escritores de contos e os roteiristas de filmes de terror nos fazem acreditar. Afinal, eles atentos que são, bem sabem que as trevas nos despertam muito mais temor que a claridade do sol nas tardes e manhãs...
Oh, não! Mais uma vez eu em minhas digressões! Por favor, caro leitor, seja paciente e me censure não lendo as partes que perceber que incorro a poluir ainda mais este texto que por si só já considero tão ruim.
Mas voltando ao caso, as tais crianças, que eram três e se chamavam respectivamente X, Y e Z, eram bem atrevidas e como todas a crianças que jogam futebol na rua não estavam dispostas a perder uma bola. Fizeram uma votação e Z venceu (ou perdeu?).
Era ele tido pelos outros garotos como muito lerdo e sempre era o último a concluir as coisas. Os meninos fizeram então troças a respeito da má sorte de Z. Ele hesitou um bocado, mas apesar de não ser rápido, era bastante valente e seguiu a trepar pelas paredes até que ficasse sobre a casa.
Demorou, mas conseguiu chegar à parte de cima. Facilmente conseguiu abrir a janela a partir do buraco que eles próprios fizeram, tomando cuidado com o vidro quebrado. E quando se embrenhava no sótão à procura da bola, eis que avista o padre. O qual muito tentou perguntar, mas nunca obtinha resposta. Achou até que fazia graça. “Padre safado!” – pensou.
Só que de todo modo era aquilo muito estranho e então resolveu descer as escadas para abrir a porta de baixo para os X e Y pudessem ver. E X quando chegou lá, muito esperto que era, sabendo dos hábitos estranhos de Bethânia, concluiu que o padre havia sido raptado. Y, que era todo ouvidos, entendeu o que deveria fazer e saiu correndo, com seu estilingue na mão, para telefonar à polícia. Prontamente foram lá. O padre escreveu o que aconteceu e um policial mais descontrolado chegou a gargalhar histericamente daquilo. Nada se resolveu, pois não era do feitio dos investigadores solucionar todos os casos, pois se assim fosse, talvez um dia eles não tivessem mais emprego.
O padre, a despeito de tudo, hoje ainda reza as missas para alegrias dos surdos, pois ela é celebrada a partir da linguagem de libras!
Se esta história não pode ser descrita como um padrão nas histórias desse louco, que até o momento não citei o nome, isto se deve ao fato de que também não era diretamente coisa da cabeça dele. Dizia ter sido para ele contada por um tal Carlos, que vivia nos seus sonhos, e ser da noite que era, muito sabia do que acontecia nos submundos da cidade que morava.
Carlos, o boêmio, ficava a conversar com o louco, quando este, caído em sono estava. Por vezes o louco lhe mandava ir embora, mas teimoso que era, Carlos nunca obedecia. E assim, ficava a narrar suas aventuras noturnas, enquanto se embebedava naqueles bordéis, bares e inferninhos de imaginação. Ele dirigia a palavra ao louco sempre olhando para o céu e não era raro quando alguém lhe perguntava se estaria falando com Deus. Ele então respondia: “Por favor, respeitem nosso Senhor! Jamais seria Ele um tolo gigante doente das idéias!”. E assim caíam na gargalhada uns homens com faces parecidas que só se distinguia uma das outras pelas barbas mal-feitas de uns e pela quantidade de dentes que faltava em outros.


(Continua...)

Veja: Parte 1 de "Conto do Louco Sem Nome"

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quarta-feira, 22 de julho de 2009

Conto do louco sem nome - Parte 1


* História Estranha que publicarei em não sei quantas partes. :p


I
magem: Delincuentista


Era ele um louco que sequer se lembrava há quanto tempo que já era louco. Às manhãs saía para qualquer lugar movimentado como a rodoviária ou os terminais de ônibus urbanos. Ali podia sempre encontrar gente para ouvir seus causos.

As reações das pessoas quando ouviam aquelas histórias eram muitas. Alguns de pronto saíam de perto. Outros ouviam até o fim atenciosamente, mas, geralmente, por sentirem pena daquele que julgavam não ter pleno domínio de suas faculdades mentais. Tantos mais gargalhavam e zombeteavam dizendo que não passavam de estúpidas invenções de uma mente insana. Certamente, até mesmo aquela que parecesse a mais nobre das atitudes, sempre era motivada por uma idéia de que a loucura seria um grande mal.

O fato é que apesar de serem engenhosas as palavras daquele homem, de nada tinham valor, pois era ele um louco! E loucos quase nunca são levados em consideração. São tidos como abjetos demais para uma sociedade em que se preza a padronização e a sistematização dos costumes e das ações. Aliás, a própria loucura não seria nada mais, nada menos do que um desvio dos modelos de condutas tidas como legítimas?

Porém nada disso importa. Não importam essas minhas interpretações a respeito do que seria a loucura, ou meus julgamentos acerca de moralidade ou ainda qualquer opinião pessoal. O que deveria fazer seria penetrar na mente de meu personagem que não existe e, pelo menos tentar, a partir disso escrever uma história original e interessante. Pois bem... É o que me porei a fazer, sem, no entanto, me policiar por qualquer digressão que venha a cometer. Alguns vícios, quando se escreve, são quase inevitáveis, tanto mais no caso de um amador, como eu sou.

Para aquele louco, todo dia era um novo dia desconexo do anterior. Não tinha na cabeça essa noção de progressão da realidade que trazemos conosco. Se hoje era dia vinte e seis não teria problema se amanhã fosse dia dois. Tampouco se o mês que precedesse maio fosse outubro. Ou ainda que ano dois mil se desse ao mesmo tempo em que ocorria o ano cinco mil e trezentos e trinta e três. E se ninguém falava de algum mês que desse a seqüência ao décimo segundo, ou de algum dia após o trigésimo primeiro, não hesitava em se situar às vezes no dia quarenta e três de quinzembro.

Deste modo, era quase inevitável o gracejo daqueles que ouviam o modo bastante característico que ele começava suas narrativas, que não raro fazia em cima de um banco situado em lugares, como disse anteriormente, bem cheios de gente. Dizia: “Era trinta e três de quarentembro do ano três antes de depois do dia que Maria concebeu o menino filho de Deus...”.

Na cabeça da gente comum aquilo era hilário e assim logo já desqualificavam aquele homem. Viam-no como um demente coberto por vestes maltrapilhas e que trazia nos pés sapatos sujos e já bem gastos. Além disso, era cômico vê-lo falar daqueles tempos com periodizações absurdas e que nada tinham a ver com aquilo que estavam acostumados a ver nos relógios e nos calendários.

Também pouco interessava o que ele viria a dizer depois. Eram só palavras.... Talvez pudessem até serem tidas como belas se viessem da pena, da esferográfica, da máquina de escrever ou do teclado do computador de um renomado escritor. Mas vindas da boca daquele homem... Nunca chegariam perto do belo trabalho criado por um intelectual e tampouco teriam a graça da legitima poesia.

Mas se era aquele um homem tido como louco e, se as atitudes loucas são muito distintas das ações que se tem como normais, não é de se admirar que ele pouco se importava com alguma aceitação. O artista, o escritor, o poeta, o mecânico, o eletricista, o executivo, a cabeleireira e o músico, por mais que se pretendam inovadores e vanguardistas, sempre buscam alguma aprovação, seja esta advinda de uma só pessoa, de pequenos grupos ou das grandes massas. Já os loucos não têm esse tipo preocupação. Fazem o que fazem porque simplesmente isso lhes deu vontade.

Por isso, dia nenhum ele falhava àquele contar de histórias que tanto o alegrava pelo seu simples fazer. Era uma libertação, talvez não de si, mas tinha esse sentido de alguma forma, pois em sua mente estavam mesmo aprisionados aqueles personagens, lugares e épocas que costumava descrever. Porém, ressalto que não me refiro a essa abstrata e batida concepção que os escritores costumam ter do seu processo de criação. Para ele não tinha esse sentido de “produtos da imaginação”. Tudo realmente se vivificava e fazia parte do universo daquele homem.

Por isso não era raro, quando no meio de alguma história, ele cumprimentasse alguém que os que o observavam não viam, mas se tivessem prestado realmente atenção no que contara em algum momento anterior, teriam percebido que esse estranho “alguém” fazia parte daquele mundo que narrava. Inclusive, quando havia poucas pessoas e essas em face às suas incapacidades de enxergarem aquele qualquer ao qual o homem se dirigia, mas se apercebendo de que delas mesmo não se tratava, encontravam mais motivos de escárnio para com ele.


(Continua...)


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domingo, 28 de junho de 2009

Mulher...


O batom deslizava... Realçava aquela boca de traços muito vivos e que parecia até ser dotada de magnetismo, pois aquele que a olhasse logo queria por ali se aventurar e já desejava sentir o gosto da saliva contida ali dentro. De fato, eram lábios que despertavam a libido e é bem provável que um romântico, voluntariamente preso em seu parvo universo de faz-de-conta, dissesse que neles conteria o “misterioso néctar dos deuses” ou algo do tipo, mesmo sem jamais tê-los beijado.

Retocava com maquiagem os contornos do restante de face, que não perdiam uns para os outros no que se refere à beleza. Atenta, se olhava no espelho a todo instante. Parecia não estar muito satisfeita. Passava outra vez um líquido para remover o que já tinha feito.

O mais certo era que nem precisasse de se embelezar, mas insistia. Qualquer homem heterossexual diria que estava linda e isso era nítido para qualquer um. Porém, as mulheres, mesmo gostando, não acreditam na superficialidade desses elogios e muito menos que se produziram suficientemente ou que ficaram da forma que desejavam.

Os homens, além disso, apenas vêem os aspectos de todo o conjunto. Não reparam nos detalhes que são tão caros a elas. Não enxergam o novo colar, a mudança sutil na cor do cabelo ou a combinação entre o vestido e os sapatos.

Assim, ela continuava a se ajeitar. Tinha um compromisso e queria estar maximamente estonteante para o felizardo que a encontrasse. Queria ainda que não só ele, mas qualquer um que a encontrasse ficasse tão atraído a ponto de querer vomitar todo o desejo que por ela sentia por não ser capaz de contê-lo.

O cabelo já estava arrumado. Tinha ido a um salão de beleza, onde também ajeitou os pés e mãos.

Olhou-se no espelho mais uma vez. Fez uma careta, mas em seguida gesticulou um sinal de aprovação. Não estava em pleno contentamento, mas era bem óbvio que estava atraente.

Dirigiu-se então ao guarda-roupa. Tinha ali cerca de vinte vestidos. Olhou-os por tempo suficiente para que no relógio o ponteiro dos segundos completasse mais que duas voltas e então decidiu retirar quatro dali. Em seguida provou todos. Não gostou. Mas com o último ainda no corpo, fitou os outros pendurados e viu um promissor.

Parecia ser coisa do acaso, estava ele bem atrás do conjunto que ganhara de sua avó há uns dois ou três anos e que considerava extremamente brega. Experimentou. Este sim! – disse após um suspiro que denotava um misto de alívio e satisfação.

Por baixo do vestido, uma lingerie prateada, colocada com a intenção de enlouquecer o sujeito que viria a se deleitar com seu contornos através do tato e daquela esplêndida visão.

Escolhia agora o que calçar. Decidiu rápido e da mesma forma foi com a bolsa e os brincos. O vestido parecia ser a base para tudo. Depois de tê-lo escolhido, todas as possibilidades de orientar seu visual pareciam já se definirem no seu pensamento.

Fez uma ligação. Pediu para que um tal Carlos a encontrasse na porta do prédio em cinco minutos. Antes de sair verificou se não havia com o que se preocupar. Olhou se o botijão de gás estava com a torneira fechada, se havia comida na gaiola para o passarinho e se não tinha nenhuma lâmpada acesa desnecessariamente. Certificou-se que estava tudo nos conformes e pegou a chave.

Saiu, trancou a porta. Seguiu andando e pegou o elevador.

Olhou para a velhinha que já estava ali e disse “boa noite”. Esta, por sua vez, depois de reparar a forma com que estava vestida e se ater principalmente ao decote na altura dos seios, respondeu, mas não sem uma cara de desaprovação. Ela notou isso, mas pouco se importou. Afinal, pelos trejeitos e pela bíblia que trazia junto à barriga, tinha notado que a tal senhora era evangélica daquelas bem ortodoxas.

A idosa desceu no terceiro andar. Ficou ali só. Ficou admirando as unhas. Gostou do trabalho da manicure. Pensou: “Vou voltar àquele salão”. Chegando ao térreo foi sua vez de sair.

Cumprimentou o porteiro, que ficou lhe admirando e trespassando a língua nos dentes até um bom tempo depois dela se afastar. Chegou à rua. Carlos não havia chegado.

Parecia tensa. Olhou no relógio. 21:39. Nove minutos atrasada. Mas logo, um veículo estacionou bem ao pé de onde estava.

- Desculpa, Flávia. Tive que fazer uma corrida urgente para um cara que ia lá pro aeroporto. Mas acho que tá em tempo ainda, né? Entra aí! – disse o motorista.

- Ah! Tudo bem... Vou ligar. Digo que já estou saindo, ele vai entender. – dizia ela enquanto entrava no carro.

Tirou então o celular da bolsa, digitou um número e o aproximou junto à orelha.

- Oi! Tudo bem, querido?... Olha, desculpa... Eu me atrasei, tá?... Mas já estou saindo... Sabe como é, né?... Mulher demora pra se aprontar... Tudo bem, então... Logo, logo a gente se vê... Só liguei para não deixar você preocupado... Beijo...

Carlos então olhou para o retrovisor perguntou:

- É para aquele lugar no bairro dos grã-finos que a gente foi semana passada mesmo?

- É sim, Carlos...

- Ah, sujeito de sorte aquele. Além de ser rico ainda tá com uma gata igual você...

- Carlos...

- Ah, foi mal. É que tem horas que eu não me controlo... Ainda mais perto de mulher bonita.

- Hummm... Sei, sei... Mas me respeita, o.k.? Sou uma cliente, não se esqueça!

- Melhor eu me calar, né? Assim eu evito falar merda. He-he-he!

- Pois é... Talvez seja melhor mesmo. – disse Flávia, de um modo tão simpático, que em momento algum parecia grosseira.

- Mas beleza. Logo, logo a gente chega.

Seguiu-se então um silêncio só interrompido pelo barulho dos carros que passavam na pista ao lado em direção contrária e cortando o vento. Ela observava a dinâmica da cidade. As luzes, os prédios, gente caminhando, e principalmente os bares. Estes sempre cheios de gente usando o pretexto de que ali estavam para beber para na verdade procurar alguma outra coisa.

Ninguém vai a eles só para isso – iniciava o pensamento. Quem vai sempre procura alguma coisa. Muitos vão atrás de sexo, tantos outros para saírem um pouco da rotina tediosa e alguns simplesmente para conversar. De todo modo, sempre parecia ser algo como refúgio contra a solidão. Se as grandes cidades são reduto de muitos milhares e até de milhões de pessoas, por outro lado elas se sentem tão perdidas que nunca parecem encontrar de fato umas às outras. Por isso, sempre estão a buscar alguém para que se sintam reconhecidas. Às vezes, acham que encontram e se acomodam com isso. Porém, uma hora descobrem que não é bem assim. Todo mundo tem um modo de ser, sendo que por mais que nos engajemos nessa busca do outro ideal, ela nunca se fará. Cada um é cada um, e entre o que se demonstra ser e o que se é, sempre há um vazio maior que de um cânion. Logo ninguém nunca nos compreenderá de fato e tampouco compreenderemos totalmente outro alguém.

Por esses motivos, Flávia não buscava o “par ideal”. Tinha noção de si como mulher forte e decidida. Não tinha tempo para essas bobagens melosas. Daí talvez viesse uma das principais origens da frieza que emanava e era bem perceptível para os que fossem mais atentos, e que por sua vez era bem comum às pessoas que carregam um certo desalento para com a vida...

Sua prioridade era se estabelecer profissionalmente e garantir uma condição social segura. Por isso, jovem que era, se dedicava aos estudos e em pouco tempo estaria formada, inclusive. Projetava então muitos planos.

“Abrir uma empresa. Sair daquele apartamento apertado. Construir uma casa... Fazer...”.

- Hey, Fábia! Já chegou, heim?! Parece que você tá tão longe que nem percebeu... – disse Carlos, sempre um tanto zombeteiro.

- Ahm!? Ah, desculpa... Estava pensando em algumas coisas. Acabei viajando na maionese aqui. Mas, de qualquer forma, eu não me chamo “Fábia”.

- Hehe! É tudo parecido.

- Humpf... Então... Quanto é?

- 42,95 pra você, princesa.

- Hum... Tudo bem... – Disse enquanto retirava da bolsa uma pequena carteira e dali uma nota de cinqüenta.

Enquanto isso, o taxista ficava com a cabeça virada para trás esperando e com o olhar ao mesmo tempo direcionado às mãos da moça que tiravam o dinheiro e os seus seios, que não eram fartos, mas eram bem do tipo que atiçaria qualquer apreciador das formas femininas. Flávia se apercebeu disso, ficou meio desconcertada, mas já estava acostumada com esse tipo de situação. Fez-se de boba. Entregou então o dinheiro e disse:

- Fica com o troco!

- Gracias, querida! Precisando, você já sabe, né? É só me ligar que estou sempre a postos pra você. Até mais! – dizia Carlos, com um ar malicioso, enquanto sem deixar piscar os olhos admirava a moça saindo do carro.

Já de fora ela retribuiu de modo apático o insistente aceno do homem. Estava mesmo era com vontade de xingá-lo. Como era chato, pensava. Só ainda continuava a chamá-lo para ir aos lugares, porque era costume e porque apesar de tudo ele sempre dava um descontinho nas corridas. Mas não continuaria assim... O que ele tirava do preço era uma ninharia visto o desconforto que sua companhia causava. Ia chamar outro já da próxima vez... Afinal, taxista era o que não faltava numa cidade daquele tamanho.

Enquanto pensava nessas coisas, ela rumava em direção ao portão da casa que era seu destino. Tocou o interfone e sem falar nada já ouviu:

- É você, Flávia?

- Sim, sou eu.

Logo se abriu o portão e era possível ouvir a voz dizendo para que entrasse.

Flávia caminhou lentamente apreciando o belo jardim. Chegou a parar um bocado para admirar uma roseira.

Agora que estava praticamente lá, já não parecia ter muita pressa.

Ao pé das escadas que davam à porta principal, estava um homem à sua espera. Bem alinhado, com porte de atleta e na altura de seus quarenta anos. Sorria, bem como aqueles sorrisos pré-fabricados nada caros e que se desenhavam facilmente debaixo dos bigodinhos dos galãs na era do cinema em preto e branco.

- Pensei que nunca fosse chegar...

- Ah... Já saí um pouco atrasada... Te disse na hora que eu liguei... Além de tudo, mesmo nessas horas o trânsito não costuma ser fácil.

- Não importa. O importante é sua presença aqui agora me propiciando essa exuberante e encantadora visão que é a que tenho de sua pessoa – dizia o homem.

- Obrigada, André... Não concordo, mas se é o que diz... – dizia enquanto disfarçava o agrado que sentia ouvindo aquelas palavras açucaradas.

- Pois pode acreditar. É a mais óbvia das verdades – dizia, enquanto estendia a mão para conduzir Flávia pela casa.

Ela já tinha ido ali outras vezes. Mas nunca deixava de se admirar com a arquitetura ou com os belos móveis que não eram poucos.

- Hoje virão alguns amigos meus aqui com suas namoradas. Para exibi-las. Coisa de homem sabe? Essa coisa de concorrer para ver quem é o maior conquistador. Mas tenho certeza de uma coisa: quando a virem se corroerão de inveja.

Flávia olhou meio indiferente. Achava tola aquela atitude. Porém não deixava de se sentir lisonjeada.

Logo eles chegaram. E, como André bem disse, seus amigos, mesmo com as namoradas bem do lado, mal conseguiam se controlar e sempre acabavam a ficar olhando admirados para o corpo e rosto de Flávia. Como sempre ela se apercebia disso, mas deixava transparecer que não.

No seu íntimo achava ridículos todos os homens porque se atinham tanto às suas carnes, que eram incapazes de perceber que nela havia muito mais e que tinha sentimentos. Mas não ficava a se lamentar por isso... Por suas experiências concluíra que os machos, a melhor definição que encontrou para aqueles animais, eram todos assim. Até André que era muito amável, facilmente se revelava tão superficial quanto o restante.

Enquanto isso seguiam todos a se divertirem ali, jogando conversa fora e cada um dos “machos” contando suas peripécias com o intuito de se afirmarem sobre os demais. Vez ou outra se escutava uma gargalhada masculina estridente. Para ela tudo aquilo já se tornava enfadonho...

Até tentara conversar com a namorada de um dos amigos de André. Mas depois de trocarem umas poucas palavras, achou tudo o que a outra falava tão sem graça e fútil que quase ficou enojada e chegou a ponto de sair dizendo que ia ao banheiro e logo voltava. A tal mulher não aguardou e seguiu a fofocar com outras que eram mais de sua espécie. Melhor assim, pois se estivesse a esperar, ficaria assim até o fim dos tempos.

Em meio à “fuga” um homem abordou Flávia. Depois de cumprimentá-la puxou conversa perguntando onde ela e André se conheceram...

- Eu o conheci num bar. Desses da moda... Você sabe... Quando a gente é solteira costuma ir muito a esses lugares.

- Ah, sim... E começaram a namorar já ali? – disse o homem.

- Na verdade, demorou um pouco para a gente começar pra valer. Ele me convidou para sair. Eu aceitei. E assim foi, durante umas três vezes. Aí então rolou um beijo quando a gente saía de um cineminha... E aí resumindo tudo: a gente ficou como está hoje.

- Interessante. Pois digo que André é um sortudo. Pois arrumar uma mulher tão bonita e além de tudo de aparência tão pura não é coisa para qualquer um.

- Ah, obrigada pela gentileza... Senhor...

- Marcelo. Pode me chamar assim. E não me venha com essa de senhor... Eu me sentiria muito mal sabendo que uma gracinha me tem como um velhote.

- Ha-ha! Você é muito gentil e agradável... Marcelo.

- Que nada. Só digo o que é verdade.

- Bem, tenho que sair... A gente se vê por aí no decorrer da noite.

- Espero que sim! – dizia Marcelo, que mesmo com sua noiva nos arredores e tendo André como amigo, observava a moça a se afastar tal qual um bebê faminto anseia receber o leite materno.

Foi assim que ela saiu. Sendo que o mais atento poderia notar que ela ria discreta, e certamente o motivo era por achar um tolo, aquele com quem acabara de falar.

A noite se seguiu tranqüila, apesar de todo o tédio, até a hora que finalmente esse Marcelo e os demais amigos de André saíram e ela enfim se viu quase a só com ele. Ele trancou a porta da frente, disse à empregada que poderia dormir e que se preocupasse com restante da limpeza somente no outro dia. Ela entendeu e se retirou.

Logo ele se sentou no sofá, e chamou Flávia para também se acomodar ali. Ela se aproximou. Ele a tomou em seus braços. Passou as mãos no seu rosto. A beijou. Seguiram-se tantos outros toques. A penetração. Corpos indo e vindo. Posições variadas. E mais idas e vindas dos corpos. Gozo para ele. Ela não sentiu nada de mais, mas fingiu se satisfazer. Um cigarro é aceso e compartilhado. Teve os cabelos afagados por ele e se fingiu sonolenta.

Convida-a para irem ao quarto, dissimulando o fato de queria mais e dizendo que iriam descansar. Ele abre a porta e a joga na cama, gargalha e sobe em cima de seu corpo seminu. Repetem o que fizeram na sala, de forma que ela não era capaz de perceber muita diferença em relação à primeira vez.

Muitos diriam que eu tenha narrado essas cenas fria e mecanicamente. Mas esta foi apenas uma tentativa de adequar o desenrolar dos fatos tais quais eram segundo a percepção que Flávia tinha deles. Pois ela não tinha grandes fantasias e, se não via o sexo como depravação, tampouco enxergava nele algum resquício de amor, cujos nomes, muitos se remetiam como sinônimos. No entanto, não chegava a ser totalmente cética a respeito dessa relação entre ambos (entre amor e sexo). Só que nunca tinha vivido tal coisa para nela ter plena fé. Considerava que era como deus. O qual acreditava desacreditando e de um modo que se nunca teve certeza de que existia, sabia que sua vida seria muito mais triste se algum dia um cientista que não tivesse algo de muito útil para fazer comprovasse que era só coisa da imaginação do ser humano, para que tivesse alguma perspectiva além do estado de podridão que se dá a sete palmos da superfície do solo.

A transa se encerrou. André virou para o outro lado e logo dormiu. Flávia continuou ali deitada e refletindo com o olhar para o teto que nada via devido à escuridão. Pensava daquele jeito que pensamos quando estamos preocupados com tantas coisas e estas ficam a martelar a nossa cabeça, tomam o lugar do sono e por mais que queiramos fingir que não estamos incomodados elas nos atormentam mais que um tenebroso pesadelo.

Com muito custo ela enfim adormeceu. Não que tivesse esquecido as preocupações, mas estas haviam lhe cansado ao seu limite. Não sonhou. Até porque isso lhe ocorria poucas vezes e ainda menos se não fosse em sua cama. Não estava acostumada à de André, apesar de não ser a primeira vez que ali se deitava.

Acordou e olhou para o relógio. 9:00 da manhã. Sobre o criado mudo estava um envelope com dinheiro e junto a ele um bilhete que dizia:

“Querida Flávia, obrigado pela noite agradabilíssima.

Você é a mulher mais linda que há no mundo e é capaz de deixar qualquer um alucinado com um simples movimento.

Enfim, me perdoe por ter saído assim subitamente, mas tinha compromissos lá na empresa.

Deixei o dinheiro neste envelope o qual já deve ter visto. Creio que tenha aí, além do que lhe devo, uma quantia suficiente para que pague o táxi.

Beijos ternos!

André”

Leu com indiferença. Também já estava acostumada a esse tipo de elogios e melhor era pensar que não fossem nada além de galanteios. Sabia como são os homens e de toda sua propensão para a falsidade para garantirem que ocorra o sexo ou que se repita outras vezes. Talvez – pensava – fosse este o motivo pelo qual se explicava o fato de que a maior parte dos grandes poetas fossem do sexo masculino. Afinal, homens inteligentes têm mesmo esse dom de saber dizer belas palavras vazias para agradar.

Além de tudo se não se importava era por ser sensata e ter claro em mente que aquilo nada mais era que trabalho.

Sendo assim não se permitiu qualquer esboço de emoção e se pôs a conferir o dinheiro. Em seguida se vestiu. Era prevenida e trazia um jeans e uma blusa na bolsa.

Saiu então apressada e pegou o táxi que mandou seguir até a faculdade. Com um pouco de sorte no trânsito e destreza do taxista talvez conseguisse lá chegar a tempo e pegasse pelo menos as últimas aulas.



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