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domingo, 20 de janeiro de 2013

de fragmentos: pedaço II

Como Sputnik em estouro ela vem. Fogueteia dos neurônios. Ganha um sentido e um sentimento que nunca que teve. Era ainda anos 1990, pelos seus fins, sexta, sétima série, coisa assim.  Lá ecoa um burburinho, um buchicho. Ele toca piano, toca teclado. A professora fica animada. Próximo tema é sobre a ditadura civil-militar no Brasil.

Ela gosta de música. Nem titubeia em propor a tarefa. Vai ordenar de supetão que cante, toque umas três. Coitado, se ruboriza e se eleva em ardor no seu pulmãozinho, um pouco grande, mas ainda em formação. Não vai dar conta. Nunca fez aula de piano direito, de teclado ainda menos. Aqueles sons MIDI são de uma chatice que nada seduz. Apresentava desde aí, nesses anos poucos e agora longes, pouca identificação com a norma.  Nunca se deu com ela bem. Odiava a obrigação do tempo certo de treinar o piano os instrumentos. Muito mais diversão haveria em ensinar as formigas a nadarem em vidro de Coca-Cola, testar suas resistências com refrigerante, ou vislumbrar seu futuro de paleontólogo colecionador das figurinhas de dinossauros que acompanhavam o chocolate. Tinha até o álbum.  Outra coisa não haveria de ser.

Não tinha, no entanto, mais de ser isso por umas semanas. Umas semanas, quando se tem 12, 13 anos, pode se traduzir em passagens de umas duas ou três estações, às vezes com mais cara de inverno, que de verão ou primavera. Tinha que aprender a tocar. Como ia de ser? Tentou tirar de letra de um jeito bem rústico. A melodia não era tão primorosa, mas os acordes estavam bem encaixotados. Tinha de dar um jeito, não podia apresentar a música daquele jeito pros colegas. Não era nem uma, aliás, apesar de ter tirado de ouvido, uma somente. Eram três, é bom rememorar.

Mas quanto a música só a uma pessoa poderia recorrer. Seu pai... e tinha medo dele e o piano era dos sonhos paternos que não lhe pertencia. O pai, homem que se dava de namoro ou até casório com a música e nela se remediava de dias cansados se trancafiando no estúdio improvisado que tinha em sua casa.

O filho não era disso, se cansava tão rápido das notas das partituras. Disciplina não era coisa dele. Quando não tinha ninguém próximo, ele já se aventurava a auscultar pelas teclas e entranhas do instrumento, as melodias que gostava quase de raro com sucesso. Enfastiava-se de pensar que teria que seguir a lição designada pela professora semanalmente. Até dava-se um jeito no final. No final mesmo. Se a aula era na sexta, no sábado que aprendia. Mesmo que custando uns atropelos de mãos durante a execução à mestra.

Então ele seguiu pelo quartinho-estúdio. Tímido, sem jeito de dizer. Ficou olhando o pai com sua execução musical perdida no esquecimento.  O pai para. Pergunta o que quer. Ele lhe diz, com as palavras arranhadas e fatiadas. O pai fica a pensar no que diz. Lembra que tem uma das músicas. Os acordes. Estão lá no livro. O filho diz que tentou tirá-la de ouvido. O pai pede: “Toque então”. Ele se morre pra mostrar a ele.

Os acordezinhos sem arranjo saem de um jeito bobo. Sim, bobo. Como tudo de criança rumando adolescência é frente ao que se faz dúvida. De todo modo, o pai fica  meio impressionado. Não são de tanta técnica, mas caem bem certeiros.  Daí que vai dar parecer bem e o filho sente isso em confiança, o que quase nunca ousava ter.

E então que aprende com gosto que ficará no peito por tempo até agora e vai saber pela primeira vez na vida, com essas três canções, que eram somente tarefa de escola, que nada tem que ser do jeito que está e  isso apesar do mundo lá fora, apesar do mundo cá dentro e “apesar de você”. E, que mesmo com carnaval acabado, é preciso cantar! Mais que nunca, pra cidade que moro, sinto e olho se alegrar! Foi uma feitura que pequena foi crescendo pra algo grande.

Foi nas semanas seguintes sorrindo-se de feliz, e sentiu um carinho destemido para o pai. A partir dele via que podia a música acontecer, que podia tocar ela e com ela se tocar... E se não era carinho de abraços, fazia  esquecida a vontade atravessada de, ao encarar a face progenitora, virar olhos pra baixo. Tocar música na escola era um evento, mas pequenino frente aquele, e de raro aconteceria pelos tempos algo com tal similitude.

De todas as lembranças de meu pai, que não raro pululam feito pulgas, em espaçados movimentos rápidos, de uma forma bem doída, é nessa que tenho aprendido a me agarrar. E o tenho gratidão, por dali ter eu começado a me parir pra mim...

Pai, você não entende meus caminhos! Mas um dia entenderá. E, se conquistar graça de alta consciência, quiçá também entenderei os seus...

De fragmentos: Pedaço I

A Arnaldo pelo embalo de piano que segura melancolia e transmuta em alegria..

Andava todo quebrado, espatifado, devia ter vergonha de andar assim. Não tinha... Era um sujo, mal lavado, cara de tacho, cabeça de cavalo. Friso: não estava, era... Uma condição de existência.

Era fragmento. O que é solto ninguém quer, porque não faz sentido. Quem se apega a pedaço só o faz em tempo curto. Ver vida em fatias tem beleza perecível. Dura enquanto cai bem no sanduíche. Depois logo perde, e se tiver alguém que se apetece, pode ter certeza, garanto que responde pela alcunha de Bolor.

Pois bem, tinha então uns 20 anos de fracasso meritório. Trabalhava qual burro de carga, naquilo que não queria, pra ambição que não lhe pertencia. Não que fosse nobre, pois se fazia mais e mais restolho de seus desejos de menino, enxovalhado pelo temor que interrompia a ousadia de alçar planos possíveis. Tinha sofrimento, que se vangloriava por debaixo do orgulho, pois que havia sido o único bem que conseguiu comprar com a poupança que ajuntara.

Tinha as vontades na mão esquerda, o medo na direita. E pensando, hoje, deve ser por isso que lhe ensinaram desde novo a ser destro. Os veios protuberantes daquele lado que maculavam, desde a pré-escola, como jeito de gente deseducada e animalesca escrever, denunciavam sub-repticiamente que eram desague mais denso de sangue que o coração bombeia.
Ser canhoto é compor letras deturpando subversivamente como se estrutura a forma. Na escola e na família aprendera que certo era seguir bem retilíneo, pela faixa da direita, evitar a contramão. De preferência dê lugar sempre pros outros, esqueça o que quiser. Pra você sempre haverá mais tempo, do que terá para o alheio.

Eram estes os mantras que entoaram para tocar repetitivo no cantinho obscuro sem que nem se apercebesse e de tanto os ouvir começava a acreditar que devia com eles conformar.

E o sol queimava sua face chamuscando chicotadas, pra subir a rua íngreme com carrinho de encomendas com cento e cinco quilos. Era a rotina que não queria. Esquecera que fora homem, e ao corpo estendia o equino de sua face. Eis que se tomou por um furor, que não podia controlar. Deixou todas as coisas e rumou para o escritório. Teria de lhe ouvir. Era desumano trabalhar daquele jeito. Queria seus direitos. Atravessou a porta com passos batendo forte o chão, bateu a mão na mesa do chefe. E berrou em alto som: “- Não trabalho mais assim! Esses sapatos todo furados não me aguentam mais! Eu exijo que calce em minhas patas agora as ferraduras! Ou amanhã eu não mais volto!”

E então preferiram não calça-lo. Mas se não apareceu ao trabalho no dia seguinte, foi nisso que se deu a salvação. 

Dias desses tive notícias... rumina mansamente os prados verdejantes onde mandam os sujeitos que escrevem suas existências em canhoto. Está certo! Deixar de ser direito não podia ser algo que prestasse...