Mostrando postagens com marcador Memória. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Memória. Mostrar todas as postagens

sábado, 6 de junho de 2015

Memórias Possíveis?

Toda memória é um troço meio machucado. Por trás de cada lembrança mesmo que acompanhada de sorrisos, acaba vindo sempre um sensação de peito se comprimindo. Ficando assim meio apertado.
 A memória que é sempre um pouco invenção faz-se tempo que já não existe mais.  Tal como se ladrasse querendo se salvaguardar pra dizer que somos alguma coisa na vida e no mundo.

Toda memória que predomina em algum lugar efetiva-se enquanto atentado às outras tantas que também querem falar.

Uma memória é o que foi, mas também é o que poderia ter sido. Quantas paixões e quantos amores se tornaram projetos falhos, mas que em algum momento foram possibilidades? Quantas ações poderiam ser apenas sequência de nossos planejamentos sonhados? Quantas vezes as utopias poderiam ter esmagado a tirania daquilo que nos impede de sermos em completude?

A memória é como uma lesma que passeia pelo presente. Insiste em não nos deixar esquecer nossos piores aspectos, nossos piores erros, nossos mais assustadores traumas. Às vezes se torna tão incômoda que o único caminho é ocultá-la. Fingirmos que esquecemos. Porém, quando a escondemos ela cresce mais e torna cada vez mais tenebroso revisita-la. Toma então para si em partes nossa mente lá onde fazemos de tudo para não sabermos como algo que também nos é.

Às vezes a memória é como um encontro. Nela nos percebemos enquanto bichos humanos. Afinal, apenas homens e mulheres são seres no tempo. Apenas nós nos identificamos no passado, requerendo-nos sermos outra coisa no futuro. Nisso a beleza, nisso a lamentação. Porque aí se desvela um castigo, mas que coloca a partir das contradições as chances de redenção.


É que a ousadia de um novo tempo necessariamente haverá de evocar alguma memória. O presente é puro e límpido, mesmo que não o aceitemos como é. Contudo, ele nunca se desvinculará totalmente do que se fez o peso e a leveza de todos os tempos vividos pela humanidade.  

sábado, 27 de outubro de 2012

Meus abris




Tua vida agora tá dividido em dois. Dos vinte anos que tu já viveu. E o pouco tempo que te resta pra viver”.

É sentença dada a Tonho, da família Breves, pelo senhor Ferreira em razão da morte de seu filho, no filme Abril Despedaçado.

Abril é mês estranho para mim. É pouquinho depois do início de meu novo ciclo astrológico. Uma das possíveis origens da palavra é o latim Aprilis, que significa abrir. E, se Vênus abunda em meu mapa astral, Abril é também derivado de Apros, nome etrusco da deusa do amor e em grego antigo derivaria da denominação da espuma marinha que Afrodite teria nascido.

É, para mim, cheio de vida e sofrimento. Muitos meses de abril que vivi me impregnaram lembrança inapagável. Foi neles que minhas duas avós faleceram. Neles que decidi renascer de minhas máculas interiores. Neles que encontrei e sofri paixões.

Por falar em paixões, a sentença dada a Tonho, não se finda aí. É uma privação dessa experiência de amar, de se apaixonar: “Conheceu o amor? E nem vai conhecer...”.

O filme com sua fotografia iluminada, esconde o sombrio, que versa daquele tempo marcado, que se esvai na ampulheta, de areia feita a cor do chão semiárido: “Cada vez que o relógio contar: Mais um, mais um, mais um. Na verdade ele te diz: Menos um, menos um, menos um.”. 

É areia seca, grudada, em gretas de contração, lavada de sangue, secular, de tantos homens morridos e que parece que hão de morrer. A briga nem é de Tonho, mas há ele de ser honrado, como seu pai sempre lhe diz.

Seu pai... homem duro, dono da bolandeira, que os Ferreira deixaram sem terra, sem nada, mas que só tem essa tal honra.  A Tonho resta ao menos cobrar o sangue de seu irmão mais velho já morto, como se fosse obrigação. E, obrigação é pagar com vida, se necessário depois de acertadas as contas. Ao próximo Ferreira cabe também seguir carma-vingança, assassinar a Tonho, que assassinara seu irmão. 

Tonho usa fita preta em ombro  pra sinalizar sua morte: quando for noite de lua cheia e o sangue da camisa daquele que matou amarelar, poderá se efetivar sua sentença.

Tonho tem um irmão vivo, com nome que não se sabe, mas que é chamado de Menino.

Menino sonha com a sereia que o leve pra longe e não entende porque aquilo acontece.  Não lhe é possível entender porque dessa mortandade toda e a ganância expressa na briga de famílias por terra, como lhe diz certa feita o homem do circo. Queria ser peixe do mar, para ficar juntinho da sua sereia, mas o máximo de alcunha que conseguiu foi ser batizado Pacu. Sendo peixe de rio parece restar apenas o desejo inconsumável de cair  pelo destino na imensidão oceânica, pra poder viver amor.

Tonho é jovem de sonho. Se seu pai é homem bruto, que de tão duro faz perder o riso de toda família com a própria gargalhada. Tonho quer viver esse amor que foi sentenciado não viver. Amor que acaba sendo por essa tal sereia, que o Menino ama também em sonho. É sereia de luz na escuridão. É Clara, lampejo luminoso, que vem lhe dar graça e possível redenção. É desabrochar de alegria, de ver em círculo e ciclos rodopiando agarrada à corda, iluminada pelos raios de sol, até eles mesmos caírem. É o que não parece poder dar certo, mas que deveria pra graça da vida, mesmo ela assim escoando através do vidro desenhado.

Mas o Abril chuvoso de sangue não parece poder ter a brancura da lua. Ela é cheia, mas é despedaçada, pois ali morrem possibilidades de vida.  Feito ao ar sufocado pela bronquite que sentia Bandeira da vida inteira que poderia ter sido e que não foi”, dividido em dois ou mais, ou até em estilhaços, Abril é quando as ilusões quedam por peso da realidade. Despedaça-se para os ontens se abrirem em amanhãs, deveras incertos, mas que nutrem a esperança de que esse tal outono que caem folhas, e que mal começou se finde logo, a despeito de saber que na sequência virá inverno, com toda sua dureza...

"Feito folhas secas no chão..."


                                                                                                * Nota: este texto não pretende ser uma resenha ou algo do tipo. Apenas alguns de meus desajustados pitacos e devaneios.


Lembro-me que em algum ano do ensino médio, a professora de redação pediu que escrevêssemos um texto. Não me lembro do que se tratava, mas terminava mais ou menos assim: “(...) e ali ficaram. Feito folhas secas no chão. Como os retirantes no quadro de Portinari”.



Havia, além da referência direta à pintura, uma outra, sub-reptícia, mas também não muito difícil de identificar. A secura que eu tentava evidenciar através da imagem das folhas, era a secura de “Vidas Secas” de Graciliano Ramos. Por aqueles tempos eu teria lido pela primeira vez a obra. Acredito que não tinha dela mesma compreensão (para pior ou para melhor) que tenho hoje... Posso dizer, contudo, que me indignava a situação daquelas figuras que se emergiam nas páginas, esquálidas, que mal falavam, que grunhiam, como chega a dizer o autor. Ao mesmo tempo as palavras do livro também ásperas me exerciam algum fascínio. 

Não eram letras descompassadas, se integravam àquelas imagens de vidas duras no semiárido e a expressão que encontrava era naquela tal pintura do Portinari, mesmo que não tivesse ela propriamente alguma relação direta, mesmo tendo muito mais gente na família de retirantes do pintor e não ter nenhuma cadelinha.

Já na faculdade, resolvi certa vez fazer uma disciplina no curso de Letras. Modernismo Brasileiro. Foi uma experiência bacana. Quando fomos estudar a segunda geração modernista eis que me deparo com Vidas Secas de novo. Pude fazer uma leitura mais atenta dessa vez. Comprovei a genialidade de Ramos. Pude ver coisa que não via antes. Era realmente uma obra bonita e que tinha uma atenção com muito debate da época que foi escrita. Rebatia para bem longe a ideia de determinismo geográfico para formação física humana. Naquele momento, década de 1940, para não falar da expressão máxima da crueldade com o genocídio nazifascista, também tínhamos por nossas bandas, os integralistas e outros grupos com a ideia de eugenia, de clareamento de raça, de que o meio determina o homem e essas coisas perigosas que servem para todo tipo de preconceito e racismo. Ramos, vai por caminho diferente, e em Vidas Secas não nega que a forma física de seus personagens tenha alguma relação com o clima do sertão nordestino, mas atenta que nem todos são assim. O fazendeiro para qual Fabiano, o pai da família que se retira, vem a trabalhar, não se parece assim. Nem os policiais que vem a prender Fabiano. Comunista, militante que era, tendo sido preso inclusive, Graciliano Ramos, sabia que as formas esquálidas e miseráveis, tinham a ver mais com a desigualdade, com a exploração e com o abuso de poder. Questionando o determinismo do meio e evidenciando as profundas contradições sociais, desmistifica-se ideia de qualquer superioridade genética. Se algo determina a condição social das pessoas parece ser sua classe, a hierarquia e o histórico de opressões que se fundem ao racismo, ao preconceito e à exploração do outro.
 O patrão de Fabiano, poderia comer bem, às custas da exploração de seu trabalho. Pagando-lhe menos, em regime de servidão, como vem a perceber sua esposa, Sinhá Vitória. Mas que poder tem Fabiano, naquela condição, de reivindicar seus direitos? Aliás, tentando expandir o questionamento, havia direitos numa sociedade de privilégios (para poucos)? (A pergunta permanece atual...).

Há ainda a versão cinematográfica da obra dirigida por Nelson Pereira dos Santos, de 1963. Bela fotografia em preto e branco e, mesmo que não seja novidade o que digo, vale dizer que há muito brilhantismo na adaptação para a tela. A primeira sequência filmando de modo quase estático uma paisagem do sertão nordestino só ganha um primeiro movimento com a personagem da cachorra Baleia a frente de seus donos. É relevante esse momento. Baleia, tanto no livro, como no filme, tem notável importância. Seu próprio nome já singulariza, e nos atira a ironia que contrista, de uma cachorra magricela naquela secura toda ter nome do maior mamífero marinho. 

Baleia, contudo, não é só isso, pois é no animal, também ironicamente, que reside humanidade em sentido elevado. Compartilha a presa da caçada, mesmo faminta, com os donos e se contenta com míseros ossinhos (isso não aparece no filme). Ela que dá algum carinho ao menino mais velho, quando apanha da mãe, por perguntar “o que é o inferno?”.

Os donos mal falam e no mais das vezes grunhem e o papagaio, que pela fome dos donos acaba morrendo para servir como alimento, mal sabe falar por conta disso. Os filhos do casal sequer tinham nome. No filme em nenhum momento são chamados pela alcunha. No livro, são chamados de “menino mais velho” e “menino mais novo”.

Numa das cenas, na primeira metade do filme, a confusão que vivem os personagens é evidenciada ao falarem de Seu Tomás da Bolandeira, homem próximo a eles, que ninguém sabia pra onde havia ido, mas que sabia ler e tinha uma cama de couro. Ter uma cama de couro é o grande sonho de Sinhá Vitória. As falas se Fabiano e de Sinhá Vitória se sobrepõem uma a outra, sem comporem um diálogo, saem de forma desordenada e caótica, como se não se preocupassem com algum entendimento.

Nelson Pereira dos Santos, concebeu uma linearidade para tratar da história, que não ocorre no livro. Neste, há idas e vindas, e há a concepção de que com exceção do primeiro capítulo “Mudança” e do último “Fuga” podem ser lidos em outras ordens pelo leitor. Contudo, o início e o fim, reforçam a ideia cíclica, de que os revezes sempre retornam que podem ser atingidos pelas dificuldades da seca, pela miséria, pelo patrão, ou por quem detém algum poder (policiais, fiscais de impostos, por exemplo). Leitor, que também era, Santos fez sua leitura do livro para a película.

No filme o ciclo abre e se fecha com um som semelhante a um berrante, nas imagens estáticas, que só há o movimento da família chegando, no início, e indo, no fim. Sem saber para onde de certo. Não há menção específica sobre quais eram os locais. Sabe-se que estão no sertão nordestino e que vão para o sul. O sertão poderia ser qualquer lugar? Quais as ilusões, miragens e fantasias dessa fuga para o sul? Se Portinari já pintava, Belchior cantava em sua Fotografia 3x4:


          “Eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei

          Jovem que desce do norte pra cidade grande
          Os pés cansados e feridos de andar legua tirana...nana”


(Minha associação nem foi muito original. rs. Ao procurar um vídeo da música achei esta montagem abaixo)

Do “mundo coberto de penas” (capítulo do livro) de Fabiano, parece haver muitos penares, sonhos que são folhas secas no chão. Deve ser daí, em referências desorganizadas, no meu inconsciente juvenil, que também surgiu essa imagem. Talvez esta noite vendo o filme tenha reavivado um pouco disso... Proustianamente, feito à semelhança do poder ativador de madalena com chá...


Em meio a pequenez de minhas lembranças, Graciliano Ramos e Nelson Pereira dos Santos, lembram que há muito mais fora de minha cabeça. E, se no sertão, que ao contrário do que dizia (ou dizem do) Guimarães Rosa,  não é o mundo, é ali em Vidas Secas, não um pouco, mas um muito do Brasil... em suas desigualdades, desencantos e esperança de nossa gente. O encerramento de livro e filme, assim como ambos em totalidade, sintetizam transcendência que poderia ser  mera denúncia. Por tal motivo que Santos, ciente disso, não deixou de inscrever em letras brancas antes de fechar o filme as palavras de Ramos, que poetizavam toda aquela saga, que não era só daquela família, mas de outros tantos... 

"Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos.” (p. 128)