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domingo, 19 de setembro de 2010

Temporiza( a )dor


Imagem: marta.tci


Experimente o elixir
Da curta vida
Mais curta que curta-metragem
Posso advertir que
Só porque é curta
Não é proibido que a curta.

Palavras, palavras, palavras
Repetidas, repetidas, repetidas
Sem nexo, com nexo, conexo, desconexo
Aloco-as em parcas arrumações abstratas
Desarranjam-se em frações de esquecimento
Registrar é vicio dos desmemoriados

Flui o ontem em rios de hoje
O que se foi em águas do que virá
Pororoca das dez ilusões vindouras
Naufrágio das desilusões de outrora
Fugirei em meu barco numa outra hora
Para as bandas dessa correnteza
Que em lendas dizem que verte para o mar

Leio Confucio em seus ditames
Pena ser ele muito confuso
Para quem só é levado para um lugar
Que não imagina o que é
Mesmo questionando porquê
Como está ou onde vai se chegar

A brevidade não é coisa de idade
Se fosse, as crianças seriam assim
Jovens eternas mortas de tédio
Brincando em playgrounds atemporais
Pueris como os anjos celestiais

O velho não se angustiria com a morte
Estaria a cada segundo mais forte
Mesmo no peito tendo um corte
Profundo, intenso, ilógico e inesperado.

O tempo não é imaginário
Alguns se esquecem dele
Tentam aprisioná-lo
Fechá-lo em caixinhas especiais
Mas isso só funciona ali
Nas mentes que fingem que ele não existe
Enquanto ele as corrói sorrateiramente.


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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Nossa relação com o passado...

Uma cidade sem passado
Assisti neste final de semana, por acaso, um filme que me chamou bastante a atenção. Chama-se: “Uma cidade sem passado” [mais detalhes aqui]. É uma produção alemã do início dos anos 90 e que é um misto de comédia, drama e documentário.
Vou resumir a historinha dele...
Uma garota de uma pequena cidade da Alemanha Ocidental é convidada a participar de um concurso de redação. Dentre os dois temas propostos ela decide pelo seguinte: “Minha cidade durante o III Reich”. O que ela queria com isso? Provar que a igreja se manteve íntegra durante o nazismo.
Porém já nos seus primeiros esforços para fazer a pesquisa, ela verifica que não é bem assim e que as pessoas não queriam que ela ficasse revirando coisas daquele período.
O que ocorria era que muita gente esteve envolvida com o regime e essas pessoas faziam questão de não serem mais associadas àquilo. Além de tudo havia a construção de uma imagem contraditória da cidade como um foco de resistência.
Era um passado convenientemente esquecível, não só para aqueles que se envergonhavam de suas ações, mas também para seus amigos, suas famílias e todas as pessoas ligadas a ele de alguma forma... Era enfim uma ferida não só de uns e outros, mas de um povo. E remexê-la não era de nenhum modo indolor.
Agora imagine só quantas coisas permanecem ocultas e sequer sabemos? Elas não entraram nos livros de história, não são revividas nas comemorações cívicas, não fazem parte da memória popular.
Talvez por aí, dentre outras coisas, tenha se cristalizado essa concepção de que somos seres passivos e de que não podemos mudar a realidade.
Fazer-nos acreditar que é assim. É o objetivo daqueles para quem é cômoda a atual situação! Brecht, em seus poemas já ressaltava isso...
Creio, no entanto, que esse é o principal compromisso da história hoje em dia: enxergar as contradições do passado, mesmo quando nos obrigarem a usar lentes escuras e embaçadas. Mas há de se convir que quem fecha os olhos por vontade própria, sequer enxergará o óbvio, mesmo que esteja a poucos centímetros de si...