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sábado, 6 de junho de 2015

Memórias Possíveis?

Toda memória é um troço meio machucado. Por trás de cada lembrança mesmo que acompanhada de sorrisos, acaba vindo sempre um sensação de peito se comprimindo. Ficando assim meio apertado.
 A memória que é sempre um pouco invenção faz-se tempo que já não existe mais.  Tal como se ladrasse querendo se salvaguardar pra dizer que somos alguma coisa na vida e no mundo.

Toda memória que predomina em algum lugar efetiva-se enquanto atentado às outras tantas que também querem falar.

Uma memória é o que foi, mas também é o que poderia ter sido. Quantas paixões e quantos amores se tornaram projetos falhos, mas que em algum momento foram possibilidades? Quantas ações poderiam ser apenas sequência de nossos planejamentos sonhados? Quantas vezes as utopias poderiam ter esmagado a tirania daquilo que nos impede de sermos em completude?

A memória é como uma lesma que passeia pelo presente. Insiste em não nos deixar esquecer nossos piores aspectos, nossos piores erros, nossos mais assustadores traumas. Às vezes se torna tão incômoda que o único caminho é ocultá-la. Fingirmos que esquecemos. Porém, quando a escondemos ela cresce mais e torna cada vez mais tenebroso revisita-la. Toma então para si em partes nossa mente lá onde fazemos de tudo para não sabermos como algo que também nos é.

Às vezes a memória é como um encontro. Nela nos percebemos enquanto bichos humanos. Afinal, apenas homens e mulheres são seres no tempo. Apenas nós nos identificamos no passado, requerendo-nos sermos outra coisa no futuro. Nisso a beleza, nisso a lamentação. Porque aí se desvela um castigo, mas que coloca a partir das contradições as chances de redenção.


É que a ousadia de um novo tempo necessariamente haverá de evocar alguma memória. O presente é puro e límpido, mesmo que não o aceitemos como é. Contudo, ele nunca se desvinculará totalmente do que se fez o peso e a leveza de todos os tempos vividos pela humanidade.  

domingo, 20 de janeiro de 2013

de fragmentos: pedaço II

Como Sputnik em estouro ela vem. Fogueteia dos neurônios. Ganha um sentido e um sentimento que nunca que teve. Era ainda anos 1990, pelos seus fins, sexta, sétima série, coisa assim.  Lá ecoa um burburinho, um buchicho. Ele toca piano, toca teclado. A professora fica animada. Próximo tema é sobre a ditadura civil-militar no Brasil.

Ela gosta de música. Nem titubeia em propor a tarefa. Vai ordenar de supetão que cante, toque umas três. Coitado, se ruboriza e se eleva em ardor no seu pulmãozinho, um pouco grande, mas ainda em formação. Não vai dar conta. Nunca fez aula de piano direito, de teclado ainda menos. Aqueles sons MIDI são de uma chatice que nada seduz. Apresentava desde aí, nesses anos poucos e agora longes, pouca identificação com a norma.  Nunca se deu com ela bem. Odiava a obrigação do tempo certo de treinar o piano os instrumentos. Muito mais diversão haveria em ensinar as formigas a nadarem em vidro de Coca-Cola, testar suas resistências com refrigerante, ou vislumbrar seu futuro de paleontólogo colecionador das figurinhas de dinossauros que acompanhavam o chocolate. Tinha até o álbum.  Outra coisa não haveria de ser.

Não tinha, no entanto, mais de ser isso por umas semanas. Umas semanas, quando se tem 12, 13 anos, pode se traduzir em passagens de umas duas ou três estações, às vezes com mais cara de inverno, que de verão ou primavera. Tinha que aprender a tocar. Como ia de ser? Tentou tirar de letra de um jeito bem rústico. A melodia não era tão primorosa, mas os acordes estavam bem encaixotados. Tinha de dar um jeito, não podia apresentar a música daquele jeito pros colegas. Não era nem uma, aliás, apesar de ter tirado de ouvido, uma somente. Eram três, é bom rememorar.

Mas quanto a música só a uma pessoa poderia recorrer. Seu pai... e tinha medo dele e o piano era dos sonhos paternos que não lhe pertencia. O pai, homem que se dava de namoro ou até casório com a música e nela se remediava de dias cansados se trancafiando no estúdio improvisado que tinha em sua casa.

O filho não era disso, se cansava tão rápido das notas das partituras. Disciplina não era coisa dele. Quando não tinha ninguém próximo, ele já se aventurava a auscultar pelas teclas e entranhas do instrumento, as melodias que gostava quase de raro com sucesso. Enfastiava-se de pensar que teria que seguir a lição designada pela professora semanalmente. Até dava-se um jeito no final. No final mesmo. Se a aula era na sexta, no sábado que aprendia. Mesmo que custando uns atropelos de mãos durante a execução à mestra.

Então ele seguiu pelo quartinho-estúdio. Tímido, sem jeito de dizer. Ficou olhando o pai com sua execução musical perdida no esquecimento.  O pai para. Pergunta o que quer. Ele lhe diz, com as palavras arranhadas e fatiadas. O pai fica a pensar no que diz. Lembra que tem uma das músicas. Os acordes. Estão lá no livro. O filho diz que tentou tirá-la de ouvido. O pai pede: “Toque então”. Ele se morre pra mostrar a ele.

Os acordezinhos sem arranjo saem de um jeito bobo. Sim, bobo. Como tudo de criança rumando adolescência é frente ao que se faz dúvida. De todo modo, o pai fica  meio impressionado. Não são de tanta técnica, mas caem bem certeiros.  Daí que vai dar parecer bem e o filho sente isso em confiança, o que quase nunca ousava ter.

E então que aprende com gosto que ficará no peito por tempo até agora e vai saber pela primeira vez na vida, com essas três canções, que eram somente tarefa de escola, que nada tem que ser do jeito que está e  isso apesar do mundo lá fora, apesar do mundo cá dentro e “apesar de você”. E, que mesmo com carnaval acabado, é preciso cantar! Mais que nunca, pra cidade que moro, sinto e olho se alegrar! Foi uma feitura que pequena foi crescendo pra algo grande.

Foi nas semanas seguintes sorrindo-se de feliz, e sentiu um carinho destemido para o pai. A partir dele via que podia a música acontecer, que podia tocar ela e com ela se tocar... E se não era carinho de abraços, fazia  esquecida a vontade atravessada de, ao encarar a face progenitora, virar olhos pra baixo. Tocar música na escola era um evento, mas pequenino frente aquele, e de raro aconteceria pelos tempos algo com tal similitude.

De todas as lembranças de meu pai, que não raro pululam feito pulgas, em espaçados movimentos rápidos, de uma forma bem doída, é nessa que tenho aprendido a me agarrar. E o tenho gratidão, por dali ter eu começado a me parir pra mim...

Pai, você não entende meus caminhos! Mas um dia entenderá. E, se conquistar graça de alta consciência, quiçá também entenderei os seus...

De fragmentos: Pedaço I

A Arnaldo pelo embalo de piano que segura melancolia e transmuta em alegria..

Andava todo quebrado, espatifado, devia ter vergonha de andar assim. Não tinha... Era um sujo, mal lavado, cara de tacho, cabeça de cavalo. Friso: não estava, era... Uma condição de existência.

Era fragmento. O que é solto ninguém quer, porque não faz sentido. Quem se apega a pedaço só o faz em tempo curto. Ver vida em fatias tem beleza perecível. Dura enquanto cai bem no sanduíche. Depois logo perde, e se tiver alguém que se apetece, pode ter certeza, garanto que responde pela alcunha de Bolor.

Pois bem, tinha então uns 20 anos de fracasso meritório. Trabalhava qual burro de carga, naquilo que não queria, pra ambição que não lhe pertencia. Não que fosse nobre, pois se fazia mais e mais restolho de seus desejos de menino, enxovalhado pelo temor que interrompia a ousadia de alçar planos possíveis. Tinha sofrimento, que se vangloriava por debaixo do orgulho, pois que havia sido o único bem que conseguiu comprar com a poupança que ajuntara.

Tinha as vontades na mão esquerda, o medo na direita. E pensando, hoje, deve ser por isso que lhe ensinaram desde novo a ser destro. Os veios protuberantes daquele lado que maculavam, desde a pré-escola, como jeito de gente deseducada e animalesca escrever, denunciavam sub-repticiamente que eram desague mais denso de sangue que o coração bombeia.
Ser canhoto é compor letras deturpando subversivamente como se estrutura a forma. Na escola e na família aprendera que certo era seguir bem retilíneo, pela faixa da direita, evitar a contramão. De preferência dê lugar sempre pros outros, esqueça o que quiser. Pra você sempre haverá mais tempo, do que terá para o alheio.

Eram estes os mantras que entoaram para tocar repetitivo no cantinho obscuro sem que nem se apercebesse e de tanto os ouvir começava a acreditar que devia com eles conformar.

E o sol queimava sua face chamuscando chicotadas, pra subir a rua íngreme com carrinho de encomendas com cento e cinco quilos. Era a rotina que não queria. Esquecera que fora homem, e ao corpo estendia o equino de sua face. Eis que se tomou por um furor, que não podia controlar. Deixou todas as coisas e rumou para o escritório. Teria de lhe ouvir. Era desumano trabalhar daquele jeito. Queria seus direitos. Atravessou a porta com passos batendo forte o chão, bateu a mão na mesa do chefe. E berrou em alto som: “- Não trabalho mais assim! Esses sapatos todo furados não me aguentam mais! Eu exijo que calce em minhas patas agora as ferraduras! Ou amanhã eu não mais volto!”

E então preferiram não calça-lo. Mas se não apareceu ao trabalho no dia seguinte, foi nisso que se deu a salvação. 

Dias desses tive notícias... rumina mansamente os prados verdejantes onde mandam os sujeitos que escrevem suas existências em canhoto. Está certo! Deixar de ser direito não podia ser algo que prestasse...

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Ela, ele, o amor, e eu.


Créditos pela imagem: supercoco

Ele a amava. Era um amor bobo. O que não precisava para aqueles tempos, nem pro que emana quando salta aquelas lembranças. Era uma chata, inconveniente, desnecessária. Nunca havia cogitado antes algo com ela.

Ela era linda! Foi como a descobriu certa feita. Na beleza que emerge na descoberta dos receptáculos de seu gozo. Na sua firmeza. Na sua angústia agridoce. No desfrute da infinitude de seus seios. Nos seus dentes cuidadosos cravejando minha pele.

Ele a amava, e “amava” é o tempo-contradição do verbo. Quem ama, ama de um ponto de partida que não pode ter chegada. Pode se amar no futuro. Pode se amar no presente. Pode se amar desde o passado. E no presente e no futuro. No futuro e depois do futuro. Mas nunca só no passado. Nunca só no presente. Nem nunca num futuro que tem finalmente. O amor desconhece o calendário. Faz pequenina a história. Faz brochar o materialismo. Joga na mesa, em pleno jantar, a inconsistência e a fragilidade das esquematizações, dos sistemas, das teorias. Ele não tem regras ou leis e esfaqueia a obviedade.

Então devo dizer, de sincero, ele não a amava.

Não amava, pois me lembro de seu pior momento. Não foi só por ela, mas tomou cinco comprimidos de uma cicuta de tarja preta pra dormir até depois de todas as manhãs. Ele não amava, pois quem ama quer a vida indefinidamente. E quer o outro pra vida. Mesmo que o outro não queira a vida. Mesmo que a vida não lhe queira com o outro.

Ele a amava, pois era feminino. Ela era masculina. Não era perversão, era só amor. Ela era Ares e ele Afrodite. Marte e Vênus eram. Excitava-lhe a amorosidade essa fúria de guerra. Bem como seus ombros e corpo largos. Ele a desejava até o recôndito da alma e nas paredes em veludo que prosseguiam seus lábios.

Pois bem, com o coração a amava. Nos filmes interrompidos em beijos, amassos e as carícias profusivamente inventadas. Amava com os olhos contemplativos a seu sono, na vigília mais besta por bem nunca noticiada.

O amor por ela, para ele era o ódio. Pois era desespero no espaço de toda separação e reconciliação. Era a vitimização garantida no fluxo hormonal de cada mês. A cada TPM um fim e o soçobrar do orgulho como brinde. A indignidade ladrando no peito. Era um atestado! Um atestado gigante de minoridade e mediocridade voluntárias.

Amava, contudo, quando inseguro enraizava seus dedos nos dela. Na euforia das concessões raras. Na paixãozinha convalescida, decepcionada com as negações tão mais frequentes. As mãos juntas eram para ele seu carinho simbólico. Ela não queria simbolismos. Não queria tomar parte dessa junção, menos ainda lhe permitir significar.

Era ela tudo que sempre quis. Pelo menos havia se esquecido de querer outra coisa. Demorou e demorou a deixar de dividir o tempo em antes dela e depois dela. Era assim que via seu pregresso e progresso, sua volta na linha de seus próprios fatos, que exacerbados despontavam como alfinetes de dentro, na crise asmática de cada uma de suas solidões.

Seu amor era ridículo. Era capaz de vaguear a madrugada pela promessa de absolvição de crimes não cometidos, pelos quais lhe pregaram na testa, em arbitrário, uma nota apenas: “Condenado. Setor de Relacionamentos Humanos. Vigilância Sanitária”.

Ele a amava. Até que decidiu dela fugir passando por três estados e chegando a perder a mala e as roupas no caminho, mas em contrapartida, vendo a ressurgir alguma hombridade há tanto já olvidada.

Não, ele não deixou de amá-la naquele ponto. Era preciso mais algumas estações: passando pelos pontos dos bairros Mágoa, Decepção Depressiva e Ilusão Desiludida.

Não mesmo. Não havia ali deixado de amá-la, pois era um amor de átomo radiativo. Invisível, inchando na destruição de si. Era transfiguração incessante da esperança em cancro molenga, despido de qualquer traço de nobreza, incrustado na lava lascívia da Terra.

É verdade. Ele a amava. Não podia ser eu. Eu que ri pra mim quando ela disse, quando depois de tudo ter se passado, numa ocasião de encontro momentâneo, que podíamos voltar no tempo. Mas ele não volta, só circula o relógio, mas a cada volta completa, aumenta metade de um dia. E a cada duas metades de dia, tem se um novo dia. Que não pode ser como ontem, nem antes de ontem e nem antes dos outros antes.

Isso foi só quando ele havia morrido. Não era ele com quem ela abraçava seu corpo num momento logo atrás. Era eu, só ela que não era capaz de ver. De saber que não podia mais ser ele, depois da poeira se assentar sobre todos aqueles meses. Não podia ser, não dava mais para ser. E é bem verdade que ele não queria ser duro. Era necessidade urgente brotar carne revivida e se deixar perecer. A perenidade que era muito dura, se pode dizer. Então é que foi: eu estrangulei até o sufoco. Não faltaram lágrimas, força, indecisão e um sentimento que não era de perda, mas de perdido.

Mas não teve pena, nem dó. Era um dever e os traumas estavam proibidos para qualquer data vindoura.

Foi assim... ele se foi. Jazeu e tornou pó. Nem vale lembrar mais uma linha.

Devo confessar, contudo, dá menos temor falar de si em terceira pessoa.

Fim.


Uberlândia, 17-22 de junho de 2012.