terça-feira, 5 de janeiro de 2021

aceitação

 Não tem sido fácil aceitar.

É o pensamento que vai e que volta.

Às vezes ele dá um tombo em mim.

Não tem sido fácil aceitar.

Eu quero sair daqui e chorar.

Mas quero viver amar.

Não tem sido fácil aceitar.

O medo de tudo ser sempre assim.

e de pouco em pouco machucar.

Não tem sido fácil aceitar.

O soco no estômago,

o chute nas bolas,

o rosto surrado,

o corte nas costas,

o pescoço sangrando,

as orelhas torcidas.

Não tem sido fácil aceitar

Porque a lágrima vem e rola

Porque o choro brota e engasga

Quero cair...

Mas também quero levantar.


domingo, 31 de março de 2019

mentiras que rasgam


Imagem representativa do artigo
A Morte no Sábado - Homenagem a Vladimir Herzog. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra3853/a-morte-no-sabado-homenagem-a-vladimir-herzog>. Acesso em: 31 de Mar. 2019. 


Essa ranhura no peito
Esse choro travado
Esse sapo que se engole
Essa miséria da alma

É o horror tornando-se corpo
É a ignorância em cena
É o abuso vindo aberto
Escancarado…
Deslavado…
Ignóbil e pútrido

É o verde oliva pintando de sangue
É a caça às bruxas
Aquelas de hoje
Que bem poderiam
ser aquelas de ontem

É o retorno
É a memória
Dando voltas
Estrangulando qualquer empatia
É o culto à guerra
É Ares - deus branco
Chacinando o negro
o comuna
a mulher
a lésbica
e o que mais não se encaixa
numa caixa feita de pedra...
fechada e pesada
e que aspira encaixotar a esperança
que resiste no peito

Esse dia de hoje é a mentira
que se afirma um dia antes
Para não ser chacota
de sua verdade
nascida em Primeiro de Abril

Mas essa ranhura no peito
será toda curada
por uma enxurrada de vida
a limpar essa sujidade
esse chorume de ódio
tão fétido e burro
e que por isso há de ser
enfim derrotado

Diego Leão - 31/03/2019

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O pixo é a mensagem de vida
exalando dos corações
mentes, mãos e sprays
daqueles que não aceitam
o monocromático cinza
que os poderosos tentam impor
(diego leão)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Educação humana sim. Maquinal, não.

Em 1924, o italiano Marinetti ao misturar noções de juventude, cientificismo e tecnicismo, expunha as afinidades entre fascismo e futurismo. Ao ser ver era preciso eliminar os intelectuais que seriam empecilho para o desenvolvimento da Itália - o que chamava de "fétida gangrena de professores".
O contrário disso seria exaltar o futuro, o homem-máquina, o automóvel e a guerra não seria horror, mas poesia. A Primeira Guerra não seria então horror, mas o mais belo poema futurista!
Quando emerge o fascismo na Itália seria então uma oportunidade para tal. Glorificaria-se o homem-máquina, o homem-guerra, o homem másculo e resultado da evolução que sempre caminha sentido o progresso. Mesclaria-se aí a vocação nacional impedida pelos professores, esses intelectuais pessimistas que falam do passado, que falam de questão não da máquina, mas do humano.
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O horror de um governo golpista, de reitorias que emergem vitoriosas com pseudo-noções de cientificismo, de tentativas de eliminação de disciplinas fundamentais para formação de um ser humano autônomo e liberto se confundem em meio aos aspectos que reavivam noções próximas desse "futurismo" no nosso tempo. Uma ode ao tempo presente e futuro, que tentam desvincular o passado como aspecto do que nos faz humanos.
Porém, não existe ser humano, sem história, sem memória, sem criatividade, sem humanidade.
O progresso nada mais que uma canção criada no seio do capitalismo, mas que deve ser negada porque se projeta na prática não como "bem comum", mas um rito contínuo de destruições. Torna-se um monumento daqueles que detêm o poder na sociedade injusta e desigual que vivemos, como forma de assegurar a legitimidade de sua dominação: "Aqui estão os nossos feitos para o sucesso do mundo!". Porém, na contraface desse monumento (remetendo-nos de certo modo a Walter Benjamin) vislumbra-se a barbárie, a miséria, a desigualdade, a injustiça, e o grito que se tenta calar daqueles e daquelas que não querem ser máquinas. Daqueles e daquelas que não aceitam ser robóticos depositários do fascismo em que sua tarefa é construir esse futuro maquinalmente desumano. 
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Na tentativa de impor um currículo para o ensino médio no Brasil em que se coloca como menor em vários sentidos o que é humano essa noção maquinal se faz presente. Pois nesse racionalismo técnico para quem privilegiar disciplinas de Humanidades, se não servem ao que afirmam ser progresso? Para que pensar em estudantes em sua dimensão humana - que às vezes trabalham o dia todo pelas mesmas injustiças promovidas pelo progresso? Para que pensar em professores em sua dimensão humana? Para que pensar a construção de autonomia do ser humano crítico e pensante - sujeito de sua própria história? Para que artes, filosofia, educação física, sociologia? Tudo são dados, são números, são tecnicismos, são coisas, não gentes. Aumentem-se as horas então, se não números! - essa é a lógica do governo golpista, de Aécio e Anastasia e das orientações neoliberais - que a esquerda por muitas vezes se omite a enfrentar de fato. Números! Não gente!
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A palavra de ordem deve ser resistir! Não apenas ao governo golpista! Mas resistir pela dignidade e em nome de um projeto para educação brasileira que seja verdadeiramente humano e não cibernético, mecânico ou maquinal...

domingo, 22 de maio de 2016

Batalha de MCs no centro de Uberlândia: é o povo que chegou para ficar





Bonés de aba reta, cabelos black, alargadores nas orelhas e outros tantos adereços que compõem estilos em que se veste a juventude do povo brasileiro ocuparam a cena durante a Batalha de MCs e Arena Break que ocorreu no centro de Uberlândia neste sábado dia 21 de maio.
Os jovens implodiam assim a estética impositiva provinda de muitos que moram nas proximidades daquela região da cidade, que por um certo elitismo ainda vigorante, não costuma acolher tão bem assim a diversidade.
 Aquela região próxima ao núcleo fundador da cidade, onde moravam/moram os coronéis locais poderíamos fazer alusão a algo que seria como uma “cidade velha”. Contudo que se transmuta pela presença daqueles jovens com seus versos e beats, em uma cidade que reivindica ser nova, uma novidade. Uma novidade feita pelo que emerge enquanto resistência ao que é dominante. Querem que a cidade tenha rap e, não querem ter apenas voz (pois já tem e mandam incrivelmente bem nisso), querem que estejam com os seus, para que possam se ouvir e falar (Juntos).
Construir suas formas próprias de viver e fazer a paisagem da cidade.
O local escolhido pelos organizadores, inicialmente seria a chamada Praça Bicota, que recebeu esse nome devido a uma sorveteria que ali fica situada. Mas, por ser um local pequeno e que não comportaria todas as pessoas a atividade foi deslocada para outra praça ali próxima:  a praça da Igreja do Rosário.

A igreja em que frequentavam as negras e negros que se libertaram da escravidão agora em seu entorno é tomada pela juventude dos bairros populares e da periferia de Uberlândia. O local de sociabilidade e de relações sociais do povo negro de ontem, em que exprimiam dentro de pressões sua cultura, seu modo de viver, hoje se fez o lugar em que os jovens da cidade da classe trabalhadora, em grande parte também negros, manifestem suas artes, suas rimas e seu jeito de ser.
Jovens que ocupam a cidade com alegria, dizendo que querem fazer acontecer. Com o mesmo ímpeto e vontade de quem não abaixa a cabeça, de quem rompeu as correntes para livre poder ser. Mostram assim que a juventude quer viver, quer ter lazer, cultura, educação e artes. Quer uma cidade que acolha as diferenças, que seja acessível a todos e todas, sem que se feche em muros, ou que segregue quem não concorde com a normas instituídas.




ESSA JUVENTUDE DO BRASIL! É FOGO NO PAVIL!

Fotos: Cleber Couto

terça-feira, 5 de abril de 2016

Ninguém se importa.
E assim é.

domingo, 3 de abril de 2016

às vezes nem lembro...
e se nem lembro...
...sou eu então feliz

domingo, 27 de março de 2016

ment(e)ira

meu medo é insegurança de mim
forjo desconfianças em outrem
por não saber me acreditar

êta vida leva
e só leva
leva esses lampejos dissabores
que nem fazem razão de pensar

da sabedoria que fortalece o engano
vem o pensamento sem mundo
que se revela tão absoluto insano
e se descola do real de ser

sábado, 26 de março de 2016

Perdões a quem não quero perdoar

Desculpas sinceras peço se não sou de meio termos. Se não consigo disfarçar sentimento, se não finjo ser quem não sou para quem não quero por perto.
Desculpe, e digo sem "moralismos", que é isso que se pode esperar numa ética de quem não aceita as coisas como são.
Peço meus singelos perdões a quem me sacaneia e vem me pedir ajuda com cara blasé por não despistar a má vontade. E também ao fato de não admitir amizade com gente que tem posição de mundo de achar que é bonito as coisas serem como são, de que não há exploração e opressão no mundo.
Desculpas peço. Não que lhes odeie a todos. Mas é que nesse mundo não dá para não ter lado, e a necessidade de ter lado vai se revelando nas sutilezas.
Não posso andar ao mesmo lado de gente que prolifera ódio, que acha que miséria é invenção, que coloca lenha na fogueira dos poderosos, que fica a colocar mais suporte para o status quo.
Perdão aos que permito andar a meu lado, mesmo sem em presença querê-los. Mas se lhes respeito por considerar que em muito estamos juntos a caminharmos pelas contingências que se apresentam, não posso simplesmente ser cristão a ponto de dissolver as mágoas. Não sou imune às feridas da vida, e as cicatrizes que as cobrem, se curam, também deixam marcas de lembrança.
Não consigo admitir hipocrisia e nem creio que relações se fazem por conveniência.

Olhando agora as fotos vejo no que me tornei e não sinto vergonha.

Em tempos em que se exige um posicionamento e uma postura na vida, não dá para ser meio termos. Não dá para viver em afagos, apertos de mãos ou amenidades com quem está do lado daqueles que proliferam as violências, mesmo estando em condições de terem plena consciência de suas possíveis implicações.


terça-feira, 22 de março de 2016

faz-se cada sonho morrer
pra cada ilusão desflorescer
e assim camada a camada
ser-me real-mente

desfaz-se todo de tolo
o que resta de esperança
e os dias vindouros
contarão regressiva-mente

sexta-feira, 18 de março de 2016

con-formar

um brinde à vida
mesmo sofrida
e aos abalos sísmicos
que fazem aqui dentro

um brinde à vida
às denúncias feitas por mim
gritando a mim mesmo
por justiças às vítimas que me faço ser

um brinde à vida
com seus terrores e desvarios
porque é a companhia que tenho
e porque com a morte não bebo

um brinde à vida
porque luto por ela
porque luto através dela
porque a luta é ela

segunda-feira, 14 de março de 2016

de(mente) em tempo


às vezes um algo me come
sentimento que botaram nome
que responde por solidão
e que provoca memórias
e os machucados de tempo

meu semblante interno
com calos de espinhos
ninguém se demora
ao ver interstícios vazios
e o vão que apavora

a saída da angústia
não tem uma porta
tampouco uma rota
pra algo que importa
pra se impor novas cores

a palavra tem seu tempo
diferente das coisas
que tem própria história
porém uma corrói a minuto

e outra esmaga a gente


Uberlândia – 14/03/2016 – 22:59h

domingo, 29 de novembro de 2015

desbancarramentos


há um fio que se faz rubro
há um rastro de sangue
que se tenta sumir
que se tenta apagar

não é sangue morrido
é sangue que se mata
descontínuo na alma
interrompido em vida

é um lamento a torto e esquerdo
que se conflagrou derrotado
persistindo em gritos latentes
que se tapam mas não calam

são esses vestígios que assombram
com lembranças que assolam
que nos soterram a gente
de passado vivente e presente ausente


Uberlândia, manhã de 29/11/2015. 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Urgência

É preciso implodir o mundo.
Do jeito que se encontra faz dor de tiro no peito.
É preciso moer o mundo.
Para ver com o suco das suas sementes se sai um bom caldo.
Não se faz necessário conservar o mundo como está.
O que já existe, mesmo em roupagens novas já morreu de velho.

É imprescindível surgir o novo.
Criar raízes que permitem revigorar a existência.
Colocar bases sólidas e tijolos que elevem não apenas paredes, mas que se façam estruturas de belezas

Não é mais momento de esperar dias vindouros.
Torna-se condição nos fazermos esse dia que tanto esperamos.
É inadmissível proclamar que o corriqueiro não importa.
Pois os que assim fizerem serão cúmplices do sofrimento alheio.
A sacralidade do que se julga banal é um dos piores crimes contra a humanidade.

É preciso destruir o mundo!
Essa é radicalidade que se tornou necessidade.
Pois estamos prestes a nos sufocar entre os nossos escombros.
É preciso conspirar contra esse mundo.
Não acatar às ordens e instituirmos o amor como regra única.
Porque amor e mudança se configuram como únicas leis de fato humanas.

domingo, 26 de julho de 2015

temporal

ah tempo
faz um favor
dispare sem eu ver
pra gente ser encontro

oh tempo
que voou recentemente
agora anda lento
e eu meio sem alento

ah tempo
seja vento
passe sem eu ver
pra ela não estar distante

oh tempo
fuja do relógio
exploda o calendário
pra ser agora nosso amor

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Giovana

É diferente amar e sentir que é de verdade.
Amar exige paciência e dedicação.
É moldar a cada instante lentes novas pra fazer ver o mundo melhor.
Amar é perdoar. É deixar pra trás o que não serve mais.
É fazer o carinho cada dia maior.
É poder ser quem você é.
É não se ver tão só no mundo.
Amar é entender a outra pessoa no tempo que tiver de ser.
E quando for o tempo de ser entendido também isso receber.

Amar para mim é ter encontrado a garota de olhos profundos e às vezes tristes
que não são vistos às vezes pelo seu sorriso ensolarado
É me sentir abraçando o universo quando estou com ela
É saber que ela vai me ouvir e me compreenderá
É crer que temos uma longa estrada a caminhar
Amar é entregar-me a ela camada por camada
É dispor-me das minhas defesas, de minhas amarras
É querer renovar-me e vencer meus medos e limites

Amar é ver o beija-flor que há muito tempo se queria ver
que veio pra anunciar duas vezes a felicidade que teremos
É compor notas e acordes novos para a vida
É sentir que caminharemos muitas vezes pela orla do mar
e que andaremos desfilando sonhos e esperanças por aí
Rir-nos de em tão pouco tempo nos imaginarmos daqui a 10 ou 20 anos juntos
e levarmos a sério que de repente isso pode mesmo ser.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

assisti-la

Precisava de ar.
Não lhe caía bem se sentir sufocada, engolida, apertada.
Mas queria um chão, um pouquinho de segurança.
Tremia às vezes por estar em meio às bagunças da superfície.
Queria mergulhar. Só que cada vez que mergulhava se perdia no fundo da piscina.
Nem fundo demais, nem no imediato demais - dizia.
Só que não encontrava o calibre certo.
Nem um bom lugar para ficar.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

em nós

perambulo em ônibus
e vejo faces tristes
unidas em suas solidões
trafegando em desesperanças
que as isolam entre si

pare o trânsito!
é preciso colher a flor
cessar o tempo
olhar nos entremeios de suas pétalas
no assustador dos vazios de sua beleza

a superfície acomoda
faz respirar fácil o ar
só que soterra nossos templos
faz chão o que há de nós
come nossa paixão de mundo

pare o trânsito!
não deixem que a esmaguem
é preciso tocar a flor
e beijar a flor
deixar crescer e ser

deslizo dedos em seu caule
corto-me em espinhos
e pela epiderme escorre o vinho
e a abertura que se faz pequena
se fará uma marca grande

pare o trânsito!
é preciso amar a flor
ela não está ali no asfalto
está bem dentro de nós
por que queremos ceifa-la?


Uberlândia, 15/06/2015 – 06:05h

quarta-feira, 10 de junho de 2015

ver a gente

eu vejo como bonitas as pessoas
cada uma se criando encantada
no espaço entre a crueza e o delírio da vida
trafegando no infinito desses pontos

não se adianta ser o que não é
nem presta muito ser o que não se quer
é que uma vida vai embora num instante
igual tempo que lágrima desce d’olhos

tudo o que guardo em mim nem sempre ficará
e às vezes jogo no lixo o que não serve mais
é um ritual que faço em mim para carregar
a angústia no peso que consigo as levar

já fui ao lugar onde a dor mais consome
e  aprendi a viver quando tem de viver
deixando ficar quando tem de ficar
e ir embora quando tem de ir

pras pessoas há um sofrer latente
que todo mundo quer escapar
e ninguém quer muito observar
pois é como um espelho de si só

a solidão tem horas que acalenta
e o sorriso por vezes entristece
porque somos feito  grama verdinha
que um boi no amanhecer vai pastar

tudo que se constrói um dia se desfaz
e se o que se grava de algum jeito ficará
a realidade corrói as possibilidades
mas mesmo nessa toada as pessoas continuam bonitas



Diego Leão – 07/06/2015

sábado, 6 de junho de 2015

Memórias Possíveis?

Toda memória é um troço meio machucado. Por trás de cada lembrança mesmo que acompanhada de sorrisos, acaba vindo sempre um sensação de peito se comprimindo. Ficando assim meio apertado.
 A memória que é sempre um pouco invenção faz-se tempo que já não existe mais.  Tal como se ladrasse querendo se salvaguardar pra dizer que somos alguma coisa na vida e no mundo.

Toda memória que predomina em algum lugar efetiva-se enquanto atentado às outras tantas que também querem falar.

Uma memória é o que foi, mas também é o que poderia ter sido. Quantas paixões e quantos amores se tornaram projetos falhos, mas que em algum momento foram possibilidades? Quantas ações poderiam ser apenas sequência de nossos planejamentos sonhados? Quantas vezes as utopias poderiam ter esmagado a tirania daquilo que nos impede de sermos em completude?

A memória é como uma lesma que passeia pelo presente. Insiste em não nos deixar esquecer nossos piores aspectos, nossos piores erros, nossos mais assustadores traumas. Às vezes se torna tão incômoda que o único caminho é ocultá-la. Fingirmos que esquecemos. Porém, quando a escondemos ela cresce mais e torna cada vez mais tenebroso revisita-la. Toma então para si em partes nossa mente lá onde fazemos de tudo para não sabermos como algo que também nos é.

Às vezes a memória é como um encontro. Nela nos percebemos enquanto bichos humanos. Afinal, apenas homens e mulheres são seres no tempo. Apenas nós nos identificamos no passado, requerendo-nos sermos outra coisa no futuro. Nisso a beleza, nisso a lamentação. Porque aí se desvela um castigo, mas que coloca a partir das contradições as chances de redenção.


É que a ousadia de um novo tempo necessariamente haverá de evocar alguma memória. O presente é puro e límpido, mesmo que não o aceitemos como é. Contudo, ele nunca se desvinculará totalmente do que se fez o peso e a leveza de todos os tempos vividos pela humanidade.